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Poesia e reflexões escritas com arame

O artista plástico Roberto Romero molda no arame a leveza de peças carregadas de provocações
| Por: Raquel Medeiros

O arame é poesia. Escrita feita em dobras, retas e pontas curvilíneas milimetricamente calculadas. Sob a regência de mãos e alicates a transformação do fio metálico esboça esculturas tridimensionais inesgotáveis nos contornos quando reverberam cargas simbólicas que se deixam notar por entre as frestas. Nas linhas que expressam limites para o desenho que o artista plástico argentino Roberto Romero projeta há um suposto vazio. Em realidade, um território abarrotado de mensagens e significados expostos ao olhar atento que atravessa a peça e lê as minúcias contidas no seu interior. Narrativas de conteúdos subliminares em joias rústicas, crucifixos, luminárias, insetos maximizados e personagens que parecem atravessar portais de algum conto de fadas ou da mitologia.

O magnetismo exercido por cada obra de arte reside no essencial, nas linhas livres de excessos. Como um texto revisado, o artista de 41 anos que também é licenciado em letras corta redundâncias e apara conexões desnecessárias para comunicar de forma sintética a morfologia do objeto.  A Máquina de Escrever - uma das suas criações mais recentes - expressa sutileza e reflexões nos detalhes. As teclas anônimas no desenho abrigam provocações às mãos que deslizam inconscientes sobre os teclados da era digital. Estimula uma ponderação entre passado e presente, contrasta tecnologias e desata a imaginação do espectador debruçado sobre hipotéticos contos, crônicas e romances que preenchem o papel invisível preso ao rolo.  

Em exposição na Casa Foa 2014 - evento de referência do design na Argentina e realizado no mês de outubro em Buenos Aires - Romero escreveu com sua máquina um trecho da história que a designer e decoradora argentina Grace Devecyan projetou para o Espaço 13. O living idealizado com memórias da infância mergulhou na obra do Pequeno Príncipe, clássico da literatura escrito por Saint-Exupéry. Sonhos e fantasias invadiram o ambiente intimista onde uma Raposa Misteriosa em tela de cercas (outra escultura do artista) cativou atenções. Sobre a mesa central a máquina de escrever com função de luminária emprestou luz à magia do conto universal. "A arte torna possível recontar histórias, resgatar recordações, tocar a emoção das pessoas e provocá-las. A rusticidade do arame e da tela adentraram o universo fantasioso onde nem sempre as coisas são verdadeiramente o que parecem", pontua Romero.

A essência cosmopolita no design contemporâneo

A aura reflexiva que emana das esculturas reflete a própria história de vida do artista. De espírito inquieto e cosmopolita, ele compôs um repertório de imagens colhidas pelos países onde viveu, visitou, estudou e trabalhou, ao mesmo tempo que sorveu referências múltiplas das artes. Memórias sempre frescas para mesclar com o novo, com as pesquisas e inspirações que agora residem nos cenários brasileiros desde que estabeleceu morada no país em 2012, na Paraíba.  Antes disso, seus passos no Líbano, França, Colômbia e Uruguai mapearam matérias-primas, a reutilização de objetos antigos e técnicas artesanais.  

Protagonista das peças, o arame flexibiliza o uso de diferentes componentes. Conchas, pérolas, muranos e cristais somam-se à rusticidade do fio metálico galvanizado ou pré-cozido. O domínio e precisão das mãos do designer materializam os desenhos em escalas que extravasam o concreto. As luminárias barrocas flutuam na espacialidade do tempo; as cabeças da coleção La Ley de la Selva expõem a animalização de personagens humanos; o Cachorro Felipe enaltece laços afetivos; o Cavalo Xadrez expressa artimanhas colhidas no tabuleiro em preto e branco e A Maternidade da porca de tetas pronunciadas com seu filhote nutre relações vitais. Há, ainda, um rol de espécies da fauna entre insetos, aves e outros mamíferos que são partícipes de um mundo regido pelo inusitado. 

A sublimação das cores e o desafio das farpas

Como todo artista, Romero também experimenta novas fases de produção sem perder a conexão com a identidade de sua obra. A carreira iniciada em 2007 traz a maturidade alcançada com o domínio apurado da técnica, um histórico de exposições em seu país e fora dele, a abertura das casas de decoração interessadas em comercializar seus objetos e novas perspectivas. No Brasil - há pouco mais de dois anos - confessa que as cores da paisagem, do artesanato e das manifestações populares pintam um momento diverso na sua criação. "O colorido me impressionou. Levei essa emoção para o ateliê e os tons vibrantes revitalizaram minha obra, tornando-a ainda mais impactante", exalta o artista.

Este ano que termina é para Romero de celebração. O sentimento de alegria ancora na aclamação de sua arte, na habilidade de dobrar o metal aos seus desejos criativos, na ousadia de romper conceitos. "Com a tela de cercas experimentei proporções, o desenho de peças de corpo inteiro. Agora, pretendo colocar na mesa de trabalho o arame farpado e extrair da sua forma rude leveza", explica. Uma vez mais quer escrever com arte contrapontos às sentenças estabelecidas. Da matéria-prima que aprisiona e perfura pode moldar versos de liberdade.

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