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Armorial Design Group leva identidade do Nordeste à segunda edição da MADE

| Por: Raquel Medeiros

Um Nordeste que pulsa no berço da cultura popular e quatro designers brasileiros unidos pelo magnetismo dessa identidade regional. Atraídos pela força e sofisticação que emanam dos signos e símbolos do sertão nordestino, eles integram o Armorial Design Group. Alinhados nesta conexão estão Rodrigo Ambrosio, Sérgio Matos, Rodrigo Almeida e Zanini de Zanine, nomes do design contemporâneo brasileiro. No projeto que os aglutina traçam um olhar sobre os matizes do Movimento Armorial com assinatura do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna nos idos anos 70. Reúnem arte e ofícios entranhados na regionalidade para criar produtos que traduzam a fusão do estilo de vida e a cultura material. A primeira aparição pública do coletivo tem lugar no estande número 13 da MADE - Mercado, Arte e Design, que acontece de 5 a 9 de novembro, em São Paulo, no Jockey Club. A Feira e plataforma de negócios apoia o design e áreas convergentes e este ano homenageia o centenário da arquiteta modernista Lina Bo Bardi.  

A essência do grupo convida a recordar como o Movimento Armorial de Ariano Suassuna proclama o resgate da arte erudita para forjar uma identidade cultural sem interferências da modernidade e com a marca da autenticidade. Na sua ótica é no Sertão que reside a fonte da verdadeira tradição das formas artísticas (com ênfase no teatro, música e literatura) deixadas por herança pela cultura clássica de influência greco-latina. Este universo simbólico habitado por cavaleiros enfurnados em armaduras de couro é o mesmo cavalgado pelos integrantes do Design Armorial. Eles partem, com afinco, do curtume. Concentram-se na arte do couro presente no cotidiano que veste e reveste o Nordeste com peças que descortinam palavras como rusticidade, resistência, funcionalidade, beleza e poesia. A indumentária do vaqueiro, os apetrechos dos animais de montaria, os objetos domésticos e o mobiliário. Acima do material, o imaterial contido no estilo de vida, no perfil dos personagens que dizem mais do que seus pertences.

O traço da contemporaneidade na pele

O desafio do coletivo consiste em criar objetos ancorados na simbologia da regionalidade sob uma ordem contemporânea, resguardando limites do óbvio e do caricato. É o que atesta o designer Rodrigo Almeida, paulista de Sorocoba pertencente à primeira geração da família a nascer fora do sertão baiano. "Estamos focados em um matiz cultural que expõe força, mas que nunca influenciou o design brasileiro. E o repertório do objeto brasileiro é ainda muito recente e está se reinventando", assinala. A Luminária Carcará é a peça de estreia para o Design Armorial. Desenvolvida com um artefato de couro produzido pelo artesão cearense Espedito Seleiro e recoberta com peça de fibra natural, encerra novos diálogos estéticos a partir das tipologias artesanais que são inerentes à cultura regional. Do carcará - ave de rapina que sobrevive às provações do Sertão - à figura do vaqueiro onipresentes no desenho há um repertório abundante de códigos que comunicam as raízes antropológicas do Nordeste dividido entre o mítico e o real.  

O universo do curtume é inesgotável naquilo que é palpável e invisível. Em cada recanto transborda a junção da arte, dos ofícios transmitidos por gerações, da matéria-prima versátil, das minúcias e habilidades dos artesãos que recortam e pespontam poesia no couro. Elementos que o Banco Bode Véio - do jovem designer alagoano Rodrigo Ambrosio - contextualiza na sobreposição das peles, nos signos estéticos e na execução esmerada do artesão paraibano de descendência italiana, Biagio Grisi. "O trabalho focado no design foi pra mim um desafio. Não é todo dia que um artesão é escolhido por quem passou pelos bancos da universidade para desenvolver uma peça. A gente segue outro olhar com outros significados", conta Grisi envaidecido. Há 15 anos ele explora a criatividade na elaboração das peças em couro que comercializa na loja Furlão da Vila do Artesão, em Campina Grande, cidade paraibana.

Estética questionadora

Na estética do banco criado por Ambrosio o rústico é destaque. É ainda provocação e questionamento que aguça o interesse em torno da identidade regional atrelada à ancestralidade e resistente ao tempo e às transformações. A madeira revestida com pele de boi, os pespontos da costura à mão, o assento em atanado de bode natural e a pele caprina (curtida com pelos) sobre uma almofada de palha que forra o lombo dos animas de carga reconta referências das tradições que não sucumbiram. Cada uma das etapas que constitui o todo da peça - finalizada com um chocalho - a faz única em sua organicidade que contrasta com materiais tecnológicos e a homogeneidade dos produtos sem territorialidade, impulsionados pela face da globalização.

O questionamento também se acosta à "Poltrona Arreio" do designer mato-grossense Sérgio Matos. As barrigueiras (cintas largas de couro com fivelas) feitas para atar a sela ao corpo do cavalo foram alçadas da feira livre de Campina Grande - onde reside - à condição de matéria-prima para o seu primeiro produto dentro do coletivo armorial. A estrutura de aço ganha o contorno de dez cintas que originalmente estariam na cena do trote nos currais, no ato do vaqueiro ao tanger a boiada no campo e na liberdade de uma cavalgada despretensiosa. É o design na reinvenção das funções, criando novos objetos e perpetuando arte, ofício e identidade. O armorial respira.  

Serviço:

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