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Nas Entrelinhas: mais um Prêmio de Jornalismo

A matéria "Olha o sapateiro" arrebata o terceiro lugar do Prêmio AETC de Jornalismo na Internet
| Por: Raquel Medeiros

O site Nas Entrelinhas, em apenas 16 meses de existência, conquista o seu terceiro prêmio de jornalismo. A mais recente vitória aconteceu nesta quarta-feira (19), com o terceiro lugar na 11ª edição do Prêmio AETC de Jornalismo 2012, categoria Internet.  O veículo concorreu com outros 70 trabalhos inscritos de toda a Paraíba. Além da matéria vencedora "Olha o Sapateiro!", o Nas Entrelinhas também disputou com as publicações "A arte dá um baile de história e cultura no Salão" (sobre o salão de Artesanato Paraibano) e "Ecoa o choro, desata a alegria" (destacando o projeto cultural Sabadinho Bom). Conteúdos da linha editorial que colocam o jornalismo de moda além do universo das tendências para refletir, também, os modos e costumes da sociedade contemporânea. Na edição do AETC 2011, foi o primeiro lugar com a matéria "A profissão do alfaiate mantém passado e presente sob medida" e no Prêmio Sebrae/Revista imprensa 2011, venceu a edição estadual, participando da final nacional com o trabalho "Manifesto do Conserto".  Nesta última publicação ganhadora (que data originalmente de 16 de julho de 2012),  a moda surge em seu viés sustentável, acompanhada de um ofício em extinção e de uma história de valor humano surpreendente. Confira no texto!

 

"Olha o sapateiro!"

"Olha o sapateiro!" O grito ecoa na rua às primeiras horas da manhã, de segunda a sábado. Forte e gutural quase soletra a última palavra. É o chamado da clientela que se repete há mais de 25 anos em João Pessoa, capital paraibana, e agora se deixa ouvir apenas entre os bairros do Cristo Redentor e Bancários. A voz vem sobre duas rodas e chega primeiro às casas e apartamentos antes da bicicleta Monark, modelo de 1976, estacionar junto ao meio-fio para que Francisco Alves Fernandes se apresente como sapateiro capaz de restaurar qualquer tipo de calçado. O corpo firme esconde os 70 anos de idade revelados com orgulho e o sorriso largo afasta da memória o medo de quem viveu no passado o drama de ser comercializado como escravo e diagnosticado como louco.

No bagageiro da bicicleta - que outrora foi vermelha - viajam os objetos que viabilizam os consertos em domicílio. Um robusto pé-de-ferro, banquinho dobrável que faz de uma sombra ateliê e a mala antiga de cor alaranjada com toda a parafernália. Está tudo à mão: solas, salteiras, tintas, velcro, cola, brochas, fivelas e linhas, além das ferramentas que são companheiras de uma vida inteira e de quando sustentabilidade era um termo praticamente desconhecido. O martelo, a suvela de gancho, o furador e alicate são os mesmos dos idos anos 70 e 80 quando Francisco exercia a função de experiente sapateiro na indústria calçadista.

O marketing que descola

A frase nas alturas que alardeia sua passagem de porta em porta é parte do marketing. "Grito muito, principalmente quando tô colado... Com uns 10 a 15 gritos a gente descola", explica a estratégia para os dias em que o dinheiro anda curto. E complementa: "Tem pessoas de outras ruas que me escutam e já esperam na frente de casa... Todo mundo me conhece", enfatiza Francisco com um brilho no olhar que atravessa os óculos de grau. A idade restringe as pedaladas que o levavam de uma ponta a outra da cidade e há alguns anos demarca o Cristo Redentor, bairro onde reside, como sua principal área de atuação. "Às vezes tiro dois dias da semana pra ir até os Bancários, onde também tenho freguesia certa", afirma.

A segurança que transmite ao cliente sobre a qualidade das restaurações realizadas não deixa espaço para titubeios: "Alguém pode fazer igual a mim, melhor não! Eu colo, pinto, troco a cor, reduzo salto, coloco salteira, reparo a sola e até folgo o calçado. O freguês não faz se não quiser", argumenta Francisco sem modéstia. Outro fator que considera importante para atestar o que diz é montar a oficina em plena rua. "Gosto de mostrar o meu trabalho pra todo mundo ver... É minha publicidade ao vivo. Tem dias que quase não ando, principalmente quando chego aos prédios e todo mundo vai descendo com os calçados pra ajeitar", fala puxando da memória o cálculo de até 15 pares por turno de trabalho. No final do mês as viagens matinais "descolam" o equivalente a um salário mínimo.

Muitas histórias e solas de sapato gastas

Incontáveis solas de alpercatas e sapatos são necessárias para ilustrar as idas e vindas na história do sapateiro que nasceu em Sousa, município localizado a 427 quilômetros de João Pessoa. Com a profissão criou laços ainda na infância. Aos sete anos, o menino franzino - filho de um exímio reparador de calçados - deixou de ir à escola para dominar o ofício. "Meu pai queria que eu aprendesse o que ele sabia fazer e dava um dinheirinho pra pagar o mestre que me ensinava na fábrica", recorda. Ao completar doze anos era profissional como qualquer outro de idade adulta.  

Em 1960, Brasília recém-inaugurada pelo presidente Juscelino kubitschek consistia no destino dos sonhos de muitos brasileiros. A nova capital do País demandava mão de obra e um anúncio seduziu Francisco com a promessa de emprego legal e moradia. Aos 19 anos, com 1,55 metro de altura e 50 quilos, subiu no caminhão pau-de-arara para agarrar o futuro de uma vida melhor, sem saber que havia embarcado no pior pesadelo. Na cidade de Itumbiara, no Goiás, foi vendido como escravo para a lavoura. "Primeiro escolheram os homens mais fortes... Eu, sem muito tipo, fui vendido junto com o grupo da boia". A fuga da fazenda aconteceu dias depois, na parceria de outro conterrâneo. "Deixei minha rede e mudas de roupa. Entramos no mato e passamos dois dias e duas noites bebendo e comendo o que encontrava", lembra a desventura que ainda reside bem nítida na cabeça.

Ao Distrito Federal chegou com a ajuda de um caminhoneiro. Buscou apoio do deputado federal da Paraíba, João Agripino, e conseguiu trabalho em uma loja de sapatos na via W3. No prazo de dois anos voltou à sua terra para logo tentar a sorte em São Paulo e no Rio de Janeiro. O retorno definitivo ao Estado natal foi datado no início dos anos de 1980. A partir de então, João Pessoa é seu lugar de acolhida. Da indústria de calçados tirou o sustento dos oito filhos e também o atestado de loucura pelas supostas alucinações decorrentes do uso da cola. "Foi temporário. Estive em hospital psiquiátrico, mas nunca me feri ou feri alguém. Às vezes conversava só... Considero um erro médico que ao fim me deu a aposentadoria aos 40 anos", avalia Francisco. Desde a recuperação, há três décadas, mantém o equilíbrio sobre duas rodas para fazer o que sabe de cor e salteado: consertar calçados. A voz? É ferramenta diária do ofício. A alma do negócio!

 

Serviço

Francisco Alves Fernandes

Fone: 3223 0615

Publicação original  "Olha o sapateiro!"