Vida com Estilo

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A sustentabilidade ancora no Paraty Ecofashion

Com uma programação vigorosa que aborda a fusão do artesanal com o design, a segunda edição do Paraty Ecofashion navega no conceito sustentável
| Por: Raquel Medeiros

A sustentabilidade aportou em Paraty. Desembarcou em cada recanto da cidade fluminense, desde as praias às ruas marcadas pela arquitetura que sussurra história. Chegou seguindo a rota traçada pela segunda edição do Paraty Ecofashion - evento realizado pelo Instituto Colibri até domingo (18) - que propõe um novo olhar sobre moda e design a partir da fusão com o artesanal. Na bagagem da travessia entre passado e presente trouxe memória, tradição, experiências e saberes ancestrais das comunidades quilombolas, indígenas e caiçaras. Um apanhado de elementos que se desdobram em palestras, oficinas, workshops e exposições.

A proposta vigorosa de interação com os primeiros habitantes da cidade que é Patrimônio Histórico do Brasil foi marcada - oficialmente - pelo som dos tambores do jongo. O ritmo forte do batuque ecoou na Casa da Cultura, na noite desta sexta-feira (14), na cerimônia de abertura da programação do Paraty Ecofashion. A dança de roda de origem africana embalou as estrofes das canções preservadas pelos quilombolas do Campinho da Independência. A apresentação funcionou como senha contagiante para celebrar em uma conversa intimista as vivências e frutos das experiências compartilhadas entre os  institutos Colibri e Zuzu Angel (parceiro do evento) e as comunidades envolvidas.   

Rodopio de Cultura

Na dança do jongo o rodopio das saias de chita ganhou sabor de convite para circular por toda estrutura do evento. Dentro da Casa da Cultura a mostra de Projetos de Moda Sustentável elaborada por estudantes dos cursos de Design de instituições diversas antecipa práticas e alternativas de materiais na confecção de roupas e acessórios. O  mesmo espaço acolhe a exposição Inspiration da estilista brasileira Lena Santana, que explora o moulage. A técnica fundamentada em dobraduras dispensa o molde plano e exercita a criação no ato de ajustar o tecido ao corpo. A poucos metros dos manequins o auditório da instituição é palco do Ciclo de Palestras Ecomundus, organizado pelo instituto Zuzu Angel. Nomes importantes da moda e design brasileiro como o escritor e pesquisador João Braga e o teceção Renato Imbroisi integram a lista de convidados.

Montada no Centro Histórico, entre o casario e as igrejas de arquitetura eclética, a Feira Criativa oferta o conceito sustentável presente em cada produto. Técnicas de bordados, crochê, fuxico, patchwork, tapeçaria e cestaria somam tradição que transborda em cores e delicadeza. O destaque fica pela singularidade do feito à mão. A mesma tenda que mede 30 x 15 metros foi idealizada para os desfiles de moda e abriga a pintura do artista plástico Lauro Monteiro, do Atelier Varanda Brasil. Imagens da Mata Atlântica produzidas em aquarela, crayon e nanquim funcionam como cenários para a diversidade cultural.

A mostra "Raízes de Paraty", aberta na Casa Sesc, traduz de forma emblemática o verdadeiro propósito de fazer da sustentabilidade um conceito aplicado à vida contemporânea. O artesanato das comunidades nativas que povoam Paraty desde os primórdios de sua história faz um relato de como técnicas ancestrais e design se ajustam com perfeição. A instalação realça a poesia dos barcos de madeira que flutuam em um mar de flores de crepom. Serenas, as embarcações incitam à reflexão de que navegar nas raízes é preciso para manter bem vivos os laços identitários. Um reencontro com os tantos "eus" que congregam a cultura brasileira: "eu brasileiro, eu euroafroindio" como cantou o paratiense Luís Perequê no show que corou a abertura do evento.

"Eu brasileiro, eu euroafroíndio"