Pano pra Manga

/Entrevista que dá o que falar

Entrevista surreal com Mafalda

A famosa personagem das tirinhas de Quino chega aos 50 anos com o mesmo vigor e senso crítico
| Por: Raquel Medeiros

Aos cinquenta anos, não há crise existencial com a idade. Mesmo porque o desenho da menina bochechuda se mantém inalterado. Sim, Mafalda continua igual. Fiel ao traço simples e limpo que Joaquín Salvador Lavado ou simplesmente Quino - o criador da criatura - esboça em 15 de março de 1962 e torna público em 29 de setembro de 1964 quando publica a primeira tirinha da personagem no jornal argentino Primera Plana. Os cabelos negros acolhidos no laço de fita e os vestidos evasês de gola redonda seguem atuais em qualquer edição infantil da revista Burda. A cabeça? Abarrotada de pensamentos críticos e anticonformistas a despeito das desigualdades sociais, injustiças e toda sorte de violência.

A garota argentina nascida em Buenos Aires é filha de um corretor de seguros e de uma dona de casa. A maturidade exacerbada nunca lhe reserva tempo para as típicas questões da infância e a paz que insistentemente povoa seus diálogos descrentes soa como um conto de fadas. Acreditar nos Reis Magos - ainda que pareça contraditório em relação à realidade que a provoca - é bem mais razoável. Principalmente porque é certeza assegurada pela palavra do pai, patamar indiscutível. Apesar da feição intocada, na menina reside uma suposta mulher forjada pelas primaveras sequenciadas. É sobre o meio século de vida, as crenças, a personalidade inquieta e seus gostos e desgostos que Mafalda fala ao Nas Entrelinhas sem cortes e segredos.   

A ENTREVISTA:

Nas Entrelinhas - Como é chegar aos 50 anos com cara de menina?

Nem me dei conta do tempo. Há coisas tão urgentes que prefiro não me aprofundar em algo que parece tão normal. Andei sempre ocupada com meus botões e com os do entorno e a idade nunca me tirou o sono. No entanto, posso dar las gracias ao Quino pela mão firme e a genética que não foge da linha. 

Nas Entrelinhas - Que urgências pautam sua atenção?

Passaram-se cinco décadas... E? Tudo parece estacionado no tempo. As mesmas coisas que me afligiam aos seis anos estão aguardando respostas, consertos, ajustes. A Argentina praticamente em coma, altas taxas de desemprego, tudo pelo avesso... Isso não é direito. Há um mundo desconexo e o meu grito de basta às desigualdades, em letras garrafais, me ensurdece.

Menos botox, mais atitude. Nosso país está sem expressão. É preciso "dar la cara y tener cojones" 

Nas Entrelinhas - O que você diria à presidente Cristina Kirchner em uma conversa rápida?

Menos botox, mais atitude. Nosso país está sem expressão. É preciso "dar la cara y tener cojones" para sair do abismo econômico e social. Opa! Falei palavrão... Mas, já tenho 50 não é?

Nas Entrelinhas - Quem é a Mafalda fora das tiras? Há uma luta interna entre a menina e a mulher?

Não sou diferente fora da percepção dos leitores. O Quino me deu coerência e senso crítico que me acompanham na idade. É certo que ninguém nunca me viu com TPM... Nem queiram imaginar. Posso dizer que aprendi a administrar meu estresse, pessimismo, impaciência e uma certa infantilidade para determinadas coisas. Persigo o equilíbrio emocional com terapia, yoga e meditação.  

Nas Entrelinhas - É você a "heroína enraivecida" descrita pelo escritor Umberto Eco?

Díos mio! Nem heroína, nem tanta raiva assim. O Umberto coloca muita ênfase e significado nas palavras e isso resulta num fardo pesado de carregar. Compreensível para um semiólogo... (risos) Mas, o fato é que sempre fui adulta para minha pouca idade e isso despertou atenção. Principalmente à época conturbada em que a Argentina e outros países da América Latina estavam submersos nos regimes ditatoriais. Até a publicação das últimas tiras, em 1973, resisti e verbalizei minha insatisfação para o mundo adulto, expressei minha desaprovação e não queria herdar esse caos. À noite, sob o cobertor, roía as unhas até sangrar e rezava para não crescer. Heroína, yo?   

O Umberto coloca muita ênfase e significado nas palavras e isso resulta num fardo pesado de carregar. Compreensível para um semiólogo...

Nas Entrelinhas - Quando está fora da rotina de trabalho, como professora de filosofia, o que faz nas horas livres?

Tem coisas que a gente carrega para uma vida inteira. Os amigos são exemplo disso e adoro tomar um café com Susanita, Liberdade e Miguelito. Continuo agarrada a bons livros e mergulho de cabeça em um romance platônico. (suspiro) É como a paixão habita em mim, já que as relações intempestivas são um capítulo à parte. Dizem que sou temperamental... E a música me transporta. Sou capaz de ficar horas ouvindo os Beatles. Apesar dos rapazes de Liverpool seguirem no topo da lista, sobra espaço para um playlist com Soledad Pastorutti, Beyoncé, Gardel e a brasileña Valesca Popozuda. Não tenho recalques. Besito en el hombro, por quê não?   

Nas Entrelinhas - Você é vaidosa? Se liga em moda e tendências?

Não diria que a vaidade tem lugar primordial no meu cotidiano. O corte do cabelo é basicamente o mesmo, mas, me desfiz do laço. As argentinas, em geral, são alucinadas pela estética... Isso não funciona pra mim. Os vestidos marcaram minha infância e o estilo retrô veste meus dias. Não sei se é uma maneira de estar conectada ao passado. Aliás, nunca me fiz esta pergunta diante do armário. Eis a questão? Cremes antirrugas e maquiagem repousam sobre a penteadeira. Estão ali, por si acaso...

Nas Entrelinhas - O que você espera dos anos?

Que importam os anos? O que realmente importa é comprovar que a melhor idade da vida é estar vivo! Sigo e vou.