Pano pra Manga

/Entrevista que dá o que falar

A ebulição cultural do Coletivo “Café com Gelo”

A fotografia digital do grupo do Cariri cearense vai além dos estereótipos do Nordeste arrasado pela seca
| Por: Raquel Medeiros

A câmera Kodak descartável puxa o filme da lembrança. Traz à luz o começo da paixão pela fotografia transformada em arte e linguagem, sem regras ou fronteiras. Duas pessoas, uma amizade e harmonia suficiente para se fazer grupo na contraditória distância territorial que as separa e as une - a um só tempo - no desejo de desvelar outros olhares sobre o que a vista alcança. O "Coletivo Café com Gelo", com raízes fecundas na aridez do Cariri cearense, rompe com os estereótipos que insistem em enxergar a região Nordeste através do óbvio incrustrado na paisagem e na representação social dos que lá habitam.

A transgressão à típica fotografia documental é como combustível. Um lampejo para enquadramentos, focos e cliques somados às intervenções digitais com aura de liberdade que ora esconde, ora revela o que a criatividade teima em mostrar. A essência inerente ao coletivo idealizado em 2009 por Rafael Vilarouca e Yasmine Moraes está ancorada na captura de recortes da realidade tomada em oposição às convenções. A torna surreal e onírica para que outros espectadores adentrem com percepções guiadas pelos sentimentos, emoções e desejos que afloram.

Personagens magnetizados pelo trabalho da dupla uniram-se à ela para ampliar o universo cafecongelense e suas narrativas. O coletivo nutrido nas regras subversivas do bacharel em Direito e na poesia imagética da escritora pulsa agora com mais olhos, corações e mentes, alargando a pluralidade dos discursos. Allan Bastos (fotógrafo), Pedro Henrique (designer) e Ramon Kessllen (modelo e performer) integram o grupo que inquieta e logo ocupa espaços com gente interessada em discutir o movimento que ganha fôlego por detrás das lentes e na galeria virtual que nunca fecha.

A estética experimental conecta o ancestral ao contemporâneo. Sorve tradições, se abastece da memória individual de seus atores e mergulha na atmosfera cosmopolita das cidades do Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha - o triângulo Crajubar com status de berço - imprimindo a identidade de outros Nordestes que latejam no rumo das transformações econômicas e sociais. Moda, corpo, arte contemporânea, música, gênero e literatura estão diluídos na catarse da imagem que o coletivo realiza. O vínculo territorial não é amarra para a fotografia que ignora linhas fronteiriças, abre portas reais e imaginárias, reconstrói espaços físicos, desbrava caminhos, escancara horizontes, subverte a ordem, ocupa a rede virtual e deflagra reflexões.

Através de suas imagens digitais o Coletivo convida a perceber que entranhada na realidade vista a olhos nus residem outras porções de terra e habitantes sem que a precisão de mapas ou documentos cartoriais atestem suas existências. São legítimos, forjados na edição das imagens, nas camadas superpostas de cores, nas colagens e filtros. Os questionamentos latentes emoldurados pelas fotografias ocupam mostras e performances e servem de objeto ao estudo antropológico "Nordestes Emergentes", realizado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Em goles poéticos, atiçando o paladar dos espectadores, o Café com Gelo põe lenha na fervura cultural e diversa de uma Região que muitos ainda custam a enxergar porque nunca se atreveram a observar pelas frestas da terra rachada, descartar pobreza e ignorância. Em entrevista exclusiva ao site Nas Entrelinhas, Rafael Vilarouca e Yasmine Moraes contam as proezas de fazer arte.

 

Nas Entrelinhas - Qual a origem do Coletivo Café com Gelo?

O surgimento de algo é o nascimento do mesmo, por isso o "como surgiu" soa tão poético. Mas quando se fala do Coletivo Café com Gelo, prender-se na data concreta não convém. Surgiu de uma amizade e sintonias. Nós éramos vizinhos no Crato. Conversávamos sobre algo que se chamaria Café com Gelo (título que veio do Rafa). Fizemos cursos de fotografia em 2007. E foi assim. Entrei no curso porque tinha ganhado do meu pai uma máquina kodak, daquelas descartáveis, que manuseei sem êxito. "Queimei" quase todo o filme. E Rafael, mais curioso e "malino" do que ele não conheço, também fez o curso e se apaixonou. Digo isso sem medo. Passa-se o tempo e surge o "Café com Gelo Produções". Criamos para ver se saía algum trocado das fotos que a gente amava fazer. Não deu certo, claro. Peguei o avião, fui embora e foi aí que a ideia do "coletivo" surgiu. O coletivo unido de distâncias físicas consideráveis entre pessoas: longe mais de dois mil quilômetros uns dos outros. Então a mágica aconteceu. Enfim, surgiu da vontade vital de fazer arte ou o que você quiser chamar sobre as fotografias feitas por nós.

Nas Entrelinhas - Fotografia, artes plásticas e literatura. Como esse tripé cultural conecta referências tradicionais com o contemporâneo?

O Cariri é uma região que se torna cada vez mais cosmopolita. Os prédios que tentam alcançar os céus fazem do triângulo Crajubar uma cidade grande. Somos envolvidos indiscutivelmente pela cultura ardente dos mestres de reisado, os irmãos Aniceto e a festa de Santo Antônio de Barbalha. Pelo cordel e suas xilogravuras, que ligam literatura à arte visual. As referências começam a surgir a partir disso: ardente cultura popular com o contemporâneo do mundo da moda, da fotografia, enfim, do que nos conecta ao todo através da internet, de pessoas (viajantes, professores, artistas) que temos como referência. Tudo isso se mistura, se dissipa e um fio de todas referências se transforma na catarse da imagem.

Não estamos amarrados unicamente por esse laço físico de territorialidade, mas estamos ligados ao Nordeste e a história dita e não dita que na qual ele pertence

Nas Entrelinhas - O Coletivo referencia a identidade regional e traz à tona um Nordeste embalado em suas raízes antropológicas?

Seria muita pretensão nossa afirmar isso. Sabe-se que o lugar e o tempo são determinantes e influenciam diretamente a forma de criação, o convívio e a sobrevivência. Estarmos no Cariri significa que bebemos dessa fonte.  Vale dizer que o Coletivo não tem um espaço único de origem, porém foi no Cariri que ele surgiu. Não estamos amarrados unicamente por esse laço físico de territorialidade, mas estamos ligados ao Nordeste e a história dita e não dita que na qual ele pertence. Os antropólogos que tiveram como campo de pesquisa o Cariri afirmam que o Coletivo é a quinta geração de performer depois do Padre Cícero e claro que faz sentido, mas nós como artistas não vamos nos deter a isso. 

Nas Entrelinhas - Uma das marcas do Café com Gelo é a experimentação, a liberdade em descontruir conceitos estéticos e padrões. O que abastece essa dinâmica?

A internet, a fotografia de moda, a música, a arte contemporânea. A antropóloga Ciema Mello indagou conosco: vocês são dadaístas?  Cabe dizer mais uma vez que quando fotografamos, estamos sinceramente livres da fotografia documental feita comumente aqui. Editamos a imagem, colamos, recolorimos o céu, por isso somos livres. Somos livres também quando escondemos o estereótipo do Sertão seco, porém, não escondemos o Sertão fervoroso. Uma vez ou outra, dá para ver nas imagens o lugar intimado, outras não. O jogo de esconde-esconde é o que abastece essa liberdade e essa dinâmica de criação. Vestimos um casaco de pele no horto em Juazeiro do Norte. Quem, em sã consciência faria uma coisa dessas? O Coletivo fez e transformou o lugar dentro da imagem em um jardim onírico.

Nas Entrelinhas - A fotografia de linguagem peculiar, quase surreal, é a maior expressão do grupo? 

Sim. A subversão do uso de elementos cotidianos, a reconstrução do espaço físico, o uso de artifícios de edição são propostas que pretendem reconfigurar a realidade nossa de cada dia  A concepção artística do Coletivo é vital. Fazemos sempre, constante e sem cansar imagens que entram na galeria nossa que nunca fecha. A eterna e moderna galeria do Coletivo está na internet. Antes com o blog e agora com a fanpage no facebook. A filosofia, ou estima do artista cafécongelense é ser outro (ou ele mesmo) como e quando quiser. Passear por praias estando no interior nordestino ainda estereotipado pela seca. Ver discos voadores, visitar jardins no Japão e por ai vai.

A subversão do uso de elementos cotidianos, a reconstrução do espaço físico, o uso de artifícios de edição são propostas que pretendem reconfigurar a realidade nossa de cada dia

Nas Entrelinhas - A transgressão dessa fotografia também chega à moda?

A moda é importante porque ela traz a preocupação com a estética da imagem além de ditar tendências. A moda influenciou muito o Coletivo Café com Gelo, agora nem tanto. Um dos últimos trabalhos feitos com o estilista Mark Greiner teve grande valia. Foi feita uma projeção de imagens e uma performance para seu desfile no maior evento de moda em Fortaleza. Mas a moda como referência crua está se esvaindo. Influencia, mas cada vez menos.

Nas Entrelinhas - Mostras, exposições e performances colocam o Coletivo em evidência. Como o trabalho é recebido dentro e fora do berço cearense?

Nossa estima sempre foi adentar galerias de arte, fazendo da foto digital um objeto. Existe uma misticidade das pessoas fora do Cariri que veem o nosso trabalho, já que as imagens são atemporais e não se prendem ao estereótipo do lugar. O Coletivo é muito bem recebido pelos antropólogos e no Cariri foi e é muito bem acolhido, mas ainda não é reconhecido no mundo da arte.

Nossa estima sempre foi adentar galerias de arte, fazendo da foto digital um objeto

Nas Entrelinhas - A produção do Café com Gelo é tema de pesquisa antropológica realizada pela Fundação Joaquim Nabuco, dentro do Projeto "Nordestes Emergentes"? Como o coletivo se sente?

O Coletivo fez parte da pesquisa e do documentário dirigido por Felipe Botelho, fruto do projeto Nordestes Emergentes. O Cariri foi o único polo dos dez que o projeto abraçou a ser documentado dessa forma. Confessamos que demoramos para aterrissarmos da importância desse projeto e de estarmos nele. Nos sentimos satisfeitos e orgulhosos por termos sido reconhecidos numa pesquisa antropológica. Isso vai levar o coletivo mais distante, fazendo com que seja visto em outros ramos e de outras formas.

Nas Entrelinhas - Vocês carregam o status de movimento cultural no sertão do Ceará?

Fazemos parte do movimento cultural, mas nós não o criamos. Telma Saraiva já fazia, na década de 50, sua fotografia inventada. Porém, o Coletivo Café com Gelo surge como referência na pesquisa da Fundação Joaquim Nabuco no projeto Nordestes Emergentes por fazermos um trabalho qualitativo e quantitativo em uma região que pouco se espera disso. 

O Coletivo Café com Gelo surge como referência na pesquisa da Fundação Joaquim Nabuco no projeto Nordestes Emergentes

Nas Entrelinhas - No contraste e oposição aos conceitos estabelecidos, quais projetos pautam o futuro do Coletivo?

Memória. Memória dos outros (porque também somos feitos e efeitos de uma carga do passado) e principalmente a memória individual, o nosso tesouro escondido que não lembramos mas ainda está perdido, em algum lugar. Estamos envolvidos por uma pesquisa embrionária sobre o assunto que será o novo trabalho. Todos os "ensaios" que os antropólogos intitularam de performáticos eram embasados em tema e conceitos construídos pelo nosso tempo, mas esse novo trabalho pretende ser mais maduro e para isso levará mais demora para ser concretizado.

 

Para saber mais:

Coletivo Café com Gelo

Goles do "Café com Gelo" no Facebook