Pano pra Manga

/Entrevista que dá o que falar

“A palavra é resistência”, adverte Mário Queiroz sobre os rumos da moda autoral

Alheio às exigências comerciais do mercado, o estilista privilegia a criação com identidade
| Por: Raquel Medeiros

A alfaiataria impecável é a sua mais completa tradução. No cenário da moda brasileira, onde poucos estilistas dirigem o foco à criação da roupa masculina, Mário Queiroz é referência de elegância com uma linguagem contemporânea. O olhar criterioso do também jornalista e doutorando em Semiótica não perde de vista o significado da moda como meio capaz de compor narrativas, de reproduzir histórias entrelaçadas à identidade social e de aguçar reflexões. Essa percepção o abastece e dá fôlego para proferir em alto e bom som a palavra "resistência" em defesa da criação autoral que faz frente aos apelos comerciais.

A postura do estilista nascido em Niterói se encaixa dentro de um discurso que ganha eco nas plataformas que projetam e discutem a moda nacional. Mais do que nunca se enaltece a necessidade de um produto genuíno, feito por brasileiros e com o perfil de quem mora no país tropical abençoado pela natureza e cultura miscigenada. A "resistência" a que se refere Mário Queiroz estampa, ainda, a discordância com o fast fashion global que em pouco mais de duas semanas dissemina cópias das criações exibidas nas passarelas em uma padronização ilimitada.

O não à moda xerocada e descartável estabelece coerência com a trajetória de sua marca homônima que chega ao mercado no ano de 1995. À época ele acerta o passo com uma moda brasileira ansiosa por dispor de DNA próprio e desvinculado das influências internacionais. Tal ousadia se mantém intocada e não faz concessões às exigências do setor. O autor do livro "O Heroi Desmascarado - A Imagem do Homem na Moda" (Estação das Letras e Cores) inova na recente incursão pela alfaiataria feminina e pisa - pela primeira vez - o território da moda praia com coleção de inspiração navy apresentada no mês de abril, no Dragão Fashion, em Fortaleza. O timoneiro da moda masculina livre de estereótipos fala ao site Nas Entrelinhas. Revela sua contínua fascinação ao transformar matéria-prima em roupa que transmite individualidade e provoca reflexões.

 

Como você avalia o momento da moda brasileira?

Mário Queiroz - A moda brasileira está se adequando à presença das marcas internacionais no varejo e a fabricação de produtos na China. Também passamos pelo questionamento do fast fashion e dos eventos de moda em relação aos designers.

A moda das passarelas internacionais ainda pauta o mercado nacional?

Mário Queiroz - Sim, principalmente para as marcas que praticam o fast fashion. Como criar, passar pelo processo de pesquisa, criação e desenvolvimento de coleções tendo que realizar uma coleção por semana? As empresas que trabalham assim apelam para a cópia e vão ficando para trás.

E os rumos da moda autoral como referência da cultura do País?

Mário Queiroz - A palavra é RESISTÊNCIA, como tem sido com todas as manifestações culturais que não se curvam às exigências do mainstream.

Como você define a sua criação?

Mário Queiroz - Continuo voltado ao guarda-roupa masculino, mesmo criando também moda feminina. Não quero fazer fast fashion, quero ter um tema, pesquisá-lo, me envolver com a transformação da matéria-prima, pensar uma roupa que não seja descartável e ao criar um desfile que seja um fashion show emocionante.

A arte continua sendo uma fonte inspiradora?

Mário Queiroz - Sempre. "A arte nos salva!"

Que desafios marcam a sua trajetória de estilista?

Mário Queiroz - Continuar acreditando nas ideias mesmo quando alguns empresários só acreditem no que encontram nas grandes lojas que visitam em seus passeios internacionais.

Com uma essência de moda masculina centrada na alfaiataria, você exibiu no Dragão Fashion um mergulho na moda praia. O que o motivou?

Mário Queiroz - O Nordeste. Pensar no nosso imenso material e a possibilidade de trabalhar com a tecelagem TDB que me incentivou e desenvolveu duas estampas digitais criadas por Marco Aurelio Rey para minha coleção.

A moda masculina vive um cenário especial no Brasil?

Mário Queiroz -  As marcas grandes que só estavam ligadas no feminino passaram a perceber que os homens dos nossos dias estão interessados na moda. Mas, tais marcas continuam com ideias muito preconceituosas e quase nada inovadoras.

A sua alfaiataria voltada ao público feminino segue a tendência de uma moda cada vez mais andrógina?

Mário Queiroz - Não acho que seja andrógina, mas com um olhar para o guarda roupa do homem.

Você é doutorando de comunicação na área de semiótica. A moda é seu objeto de estudo? Qual a abordagem?

Mário Queiroz - As referências femininas e masculinas nas imagens de moda e a linha tênue que as separam.