Pano pra Manga

/Entrevista que dá o que falar

“A musicalidade de Clara Nunes me inspirou”, conta Victor Dzenk sobre a coleção de verão

O desfile do estilista mineiro abre no Parque das Mangabeiras a edição verão 2014 do Minas Trend
| Por: Raquel Medeiros

Os sabiás da estamparia digital desenvolvida pelo estilista mineiro Victor Dzenk, estabelecem uma conexão musical com o tema inspirador da nova coleção de verão: a cantora Clara Nunes. Os pássaros que pousam sobre os jérseis e sedas somam-se às flores vibrantes, típicas da flora brasileira. As mesmas flores colhidas conceitualmente dos cabelos encaracolados da sambista e que constituem uma referência estética peculiar ao figurino que ela adota nos anos de 1970. As criações com um "spray litorâneo" - como define Victor Dzenk - serão apresentadas na abertura do Minas Trend, em Belo Horizonte, no dia 9 de abril, no desfile que inclui peças do designer de bolsas Rogério Lima.

O Parque das Mangabeiras, patrimônio cultural da capital mineira, é o cenário escolhido pelo estilista  para emoldurar a passarela. A opção soa afinada com a discografia de Clara Nunes que exalta a natureza e a liberdade em inúmeras canções. No espaço incrustrado ao pé da Serra do Curral e projetado pelo paisagista Burle Marx, o frescor do verão de Victor Dzenk contará com trilha sonora ao vivo na voz suave da cantora Aline Calixto. Ela,  que em parceria com o rapper Emicida, acaba de homenagear Clara com a regravação de "Conto de Areia", marcará os passos das modelos com uma batida contemporânea para celebrar a "morena enfeitada de rosas e rendas".

Dzenk não mergulha na literalidade do icônico figurino de Clara Nunes. As saias brancas e rodadas, as rendas, os balangandãs da herança tipicamente africana e as simbologias do candomblé que a intérprete levou para o palco não estão expressos na coleção. A cantora que surpreendeu a indústria fonográfica conquistando o posto de primeira mulher a superar a marca de 500 mil cópias vendidas (com o LP Alvorecer, em 1974, pela Odeon) aparece nas criações tropicais através de leituras mais sutis. Os adornos florais de sua farta cabeleira e as paisagens dos videoclipes são referências gráficas presentes nas estampas e nos acessórios.

A Clara cantora, de interpretação forte, é também a moça da fábrica de tecidos. Aos 15 anos de idade, Clara Francisca Gonçalves (1942-1983) passa a integrar o quadro de funcionários da Companhia de Fiação e Tecidos Cedro e Cachoeira, localizada em Caetanópolis, cidade onde nasceu. Com 140 anos de história a Cedro é apoiadora do desfile de Victor Dzenk. Desde 1983 a empresa é mantenedora do Museu Têxtil Décio Mascarenhas, situado na unidade fabril de Caetanópolis, e nele reserva uma área especial para recordar sua funcionária ilustre que morreu há exatos 30 anos (contabilizados no último dia 2 de abril). É sobre Clara Nunes como nota de inspiração musical para a criação, a parceria com a Cedro e o DNA tropical da marca que Victor Dzenk fala ao site Nas Entrelinhas e desvenda sua partitura elaborada para o verão 2014.

 

Que caminho o levou à inspiração em Clara Nunes?

Victor Dzenk - A musicalidade de Clara Nunes me inspirou. E, além de sermos mineiros, temos o pé na areia no momento de trabalhar. Minha roupa tem esse spray litorâneo e essa vontade de estar de férias, assim como a música de Clara Nunes, de costas para o "mar e a liberdade".

Como é fazer um desfile apoiado pela Cedro uma das principais fabricantes têxteis do país que também homenageia a cantora?

Victor Dzenk -  Nossa relação com a Cedro vem de outras coleções. Esta empresa valoriza a história da indústria nacional e mantém um museu com um acervo riquíssimo. Em uma visita a este museu vimos todo o material da época em que Clara Nunes foi funcionária de lá. A Cedro tem sido uma parceira, e além disso, tem exercido a função importantíssima de resgatar a história da indústria têxtil brasileira.

Durante a carreira Clara influencia comportamentos e, consequentemente, a moda com suas vestimentas de inspiração religiosa e o branco como cor simbólica. A coleção trilha estas referências?

Victor Dzenk - Resolvi não ser tão literal na hora de criar em homenagem à Clara. Não vamos mostrar no desfile roupas brancas, nem rendadas; e sim, todas as cores das flores que ela usava na cabeça transformadas em estampas. Aves como o sabiá também em referências gráficas, acessórios e joias.

Onde sua marca e Clara se encontram? Nos florais e formas amplas que são características de suas criações?

Victor Dzenk - Mostramos uma visão contemporânea da Clara Nunes, seus enfeites e balangandãs viraram estampas digitais e apliques cortados a laser, que devem ser aplicados no beauty do desfile ao fazer os cabelos.

Você é uma referência em estamparia digital que enaltece o tropicalismo brasileiro. Que elementos estarão presentes nesta coleção de verão?

Victor Dzenk - Outras aves também nortearam a criação de estamparia. Revoadas de pássaros se fundem com as flores do Cerrado mineiro.

Nesta edição do Minas Trend a Tecnologia - muito presente no  desenvolvimento do seu trabalho com estamparia -  é o tema do evento. Como você transita entre o tecnológico e o artesanal que é típico da moda mineira?

Victor Dzenk - Falar em artesanal hoje tendo em vista o mercado frenético em que todos trabalhamos é um tema quase que inexistente. Porém, se deixarmos o artesanal de lado, deixamos de lado aquilo que somos. Nosso processo de modelagem é todo artesanal assim como nossas técnicas de confecção das peças que demandam várias horas de maquina, além de contar com a habilidade de nossas pilotistas.

As formas fluidas e amplas constituem o DNA da sua roupa.  Além das malhas nobres, que outros tecidos estruturam as peças desta coleção?

Victor Dzenk - Usamos seda pura, cetim, linho, tule, jersey, tecidos para alfaiataria e até uma variação metalizada do denim. 

Você gosta de surpreender na passarela com performances marcantes. O que o público deve esperar da "coleção musical" guiada por Clara Nunes?

Victor Dzenk - A cantora Aline Calixto que acaba de lançar o remake de "Canto de Areia" de Clara, em parceria com o rapper Emicida, canta a trilha do desfile ao vivo com sua formação de dois músicos na percussão e violão. A trilha caminha pela homenagem à Clara com batidas modernas, que marcarão os passos das modelos em um desfile que terá a beleza natural do Parque das Mangabeiras e o cenário das águas dos lagos e fontes como pano de fundo.

 

No desfile, um "Conto de Areia"

Clara Nunes: O Mar Serenou...