Pano pra Manga

/Entrevista que dá o que falar

A identidade brasileira de Jefferson De Assis

As pesquisas do designer paulista resgatam elementos da cultura brasileira e inspiram o desenvolvimento de produtos com DNA nacional
| Por: Raquel Medeiros

O foco é a pesquisa. A coleta de dados que ganha corpo na fusão de materiais, cores, texturas e formas. A passarela - meses depois - é a consequência do trabalho de bastidores que abastece inspirações para o desenvolvimento de produtos. Ideias conceituais que o estilista Jefferson De Assis extrai a partir de expressões da cultura nacional. Como o artesanato da tribo indígena Pataxó que habita a Reserva da Jaqueira, no Sul da Bahia. Da investigação e interação na aldeia entre dezembro de 2011 e junho de 2012 resultaram bolsas e calçados que integram o projeto "Referências Brasileiras", do Núcleo de Design da Associação Brasileira das Empresas de Calçados e Artefatos (Assintecal). Os protótipos apresentados na 6ª edição do Salão Inspiramais compõem as tendências das coleções inverno 2013 e verão 2014.

O artesanal constitui o elo entre as referências culturais e o design que Jefferson elabora para a indústria de componentes. O objetivo é fomentar possibilidades de criação a partir de produtos genuinamente brasileiros, com uma carga de identidade que fale por si e projete heranças que são inerentes ao país. A experiência com os Pataxós permitiu vivenciar a confecção de adornos, vestimentas e acessórios a partir de matéria-prima disponível no entorno da reserva indígena. Sementes, palha, argila, bambu, madeira, fibras, plumas, cipós e ossos compuseram os protótipos que foram decodificados para o salão de moda com a força dos tons vibrantes e formas inusitadas.

A coleção executada em Nova Serrana - polo calçadista mineiro que está colocado entre os mais importantes do Brasil - também ganhou visibilidade além das fronteiras, na recente Milano Design Week, Itália. A aceitação do público ressaltou como o mercado está cada vez mais atento à produção respaldada pelo caráter cultural que conecta os povos. É sobre o trabalho de criação conceitual, o contexto do artesanal que reconfigura a moda e valoriza saberes que Jefferson De Assis fala ao site Nas Entrelinhas. Um universo inspirador que encontra refúgio na pluralidade da cultura miscigenada que torna o Brasil ímpar.

 

Estilista e consultor de projetos, como você alinha a sua carreira em relação às passarelas?

Há tempos não venho produzindo para as passarelas. Meu foco hoje está direcionado ao setor coureiro calçadista. Nos projetos que atuo, os lançamentos dos produtos se dão por meio de feiras e salões de design e não desfiles.

É cada vez mais recorrente a fusão do artesanato com a moda. É um novo paradigma?

É uma receita onde a moda só tem a ganhar, pois a produção artesanal, principalmente a do artesanato de tradição, é um campo vasto de inspiração e aprendizado. E o artesanato também ganha, pois o interesse da moda estimula sua visibilidade e sua produção.

Você assina o projeto Referências Brasileiras, dentro da plataforma do Inspiramais. Qual é a proposta?

A cada estação levo ao publico do Inspiramais calçados e acessórios criados a partir de ícones da cultura brasileira. O objetivo é deixar explícita a inspiração. E o desafio é que estes produtos não pareçam souvenirs, encorajando os designers que freqüentam o evento a experimentarem as temáticas relacionadas à cultura brasileira.

Sua última pesquisa está centrada na cultura indígena da tribo Pataxó, na Reserva da Jaqueira, Bahia. Que resultados foram colhidos dessa interação?

O primeiro contato com a Tribo Pataxó foi em 2011, quando estávamos interessados em investigar a arquitetura indígena. Retomamos o contato no início deste ano com o foco na produção artesanal indígena de adornos, vestimenta e acessórios. Esta experiência foi convertida em acessórios que  explicitam a fonte inspiradora.

Os índios participaram do processo criativo? Que matéria-prima foi utilizada?

Tudo começou a partir dos materiais produzidos pela tribo. Não houve interferência de nossa parte durante a execução dos materiais e componentes. Todos os materiais foram 100% criados e produzidos pelos artesãos indígenas. Depois, aplicados nos protótipos desenvolvidos pelas empresas Arena, Julia Pinheiro, Thofet e Ykebana, que integram o polo calçadista de Nova Serrana.

Protótipos de produtos resultantes da pesquisa foram apresentados na Milano Design Week deste ano, dentro da Mostra Brazil S/A. Como foi a receptividade do público?

Este foi um passo muito importante para o projeto. Principalmente por se tratar de uma inversão de papéis. Todos sabem que o caminho que muitos ainda fazem é importar a ideia europeia. Com esta ação conseguimos levar a ideia brasileira para lá.

Projetos como Referências Brasileiras têm contribuído para revelar a diversidade da cultura brasileira através da moda? Eles são um impulso á indústria criativa?

Sim, esta é minha missão no projeto. Fazer com que o industrial descubra novas possibilidades de criação e desenvolvimento de idéias. E que isso contribua para a criação de sua identidade.

O conceito de sustentabilidade hoje é parte indispensável na concepção de novos produtos?

Sem dúvida. Aprendemos muito sobre isso no contato com os Pataxós. Eles vivem a sustentabilidade. Era impressionante observar como utilizam os recursos do entorno de maneira programada, tornando as fontes inesgotáveis.