Pano pra Manga

/Entrevista que dá o que falar

A costura sustentável e plural do estilista Eduardo Ferreira

Referências primitivas e pós-modernas assinam a estética do criador do Mangue Fashion
| Por: Raquel Medeiros

A percepção do estilista continua aguçada, similar à da infância na ambiência recifense em meados da década de 1970. Aos 44 anos, o pernambucano Eduardo Ferreira mantém uma sintonia vivaz com o garoto urbano que agarrava a primeira oportunidade e corria "danado" para o município de Catende, interior de Pernambuco. Lá, passava férias na casa das tias e mergulhava no entorno dos engenhos de cana-de-açúcar. Em meio ao ritmo frenético das brincadeiras não deixava escapulir do canto do olho nenhum detalhe da civilização açucareira e dos trajes dos canavieiros que no retorno à casa viravam croquis nos espaços em branco dos livros de receita da Dona Eulina, sua mãe.

Do olhar fez registro e da memória afeto que dá sentido à paixão pela moda. Sentimentos que compõem uma estética ousada, revolucionária, sustentável, primitiva e plural nas referências da cultura brasileira. Estética também irrestrita às influências de territórios além mar. Laços embrionários que pontuam a criação elaborada na costura que põe lado a lado das linhas e agulhas o artesanato e suas tipologias. Rendas, crochê, tricô, tapeçaria, fuxico, bordados... E filmes, teatro, cordel, sincretismo, xilogravura, tratados, maracatu rural, poesia e personagens múltiplos. Entre Gilberto Freire, Ariano Suassuna, Zuzu Angel, Oswald de Andrade, Manoel Bandeira, Josué de Castro, Vivienne Westwood e Dior, tudo é lido, visto, analisado, percebido e consumido enquanto estética.

Como ele próprio define, moda é ferramenta e linguagem de expressão. E demonstrou o vocabulário diverso nas formas e elementos que utilizou no início dos anos de 1990, em Recife, para criar a marca e coleção Mangue Fashion, inspirada na atmosfera efervescente e musical do Mangue Beat de Chico Science & Nação Zumbi. O movimento da contracultura - ambientado no processo de globalização e novas tecnologias - compunha na mistura de ritmos do maracatu, hip hop, funk e música eletrônica uma mensagem clarividente que denunciava o descaso econômico e social do mangue e dos "homens caranguejos" atolados na miséria.

Na moda, como linguagem e expressão, o Mangue Fashion foi um grito que ecoou além das fronteiras para colocar o Nordeste e Eduardo Ferreira em pauta dentro e fora do Brasil. A sua assinatura inequívoca transborda na diversidade cultural e em ideais de sustentabilidade. Em entrevista concedida ao site Nas Entrelinhas, Eduardo expõe a retrospectiva da carreira consolidada que tem aconchego no ateliê do bairro Apipucos, em Recife; fala de memórias e projetos emblemáticos e faz um apanhado da história do "menino de engenho". O olhar doce sobre a moda e seu universo é também crítico e rotundo.

ENTREVISTA

1.O que a moda representa para você e em que contexto ela começa a fazer parte da sua história?

 A moda é paradoxalmente minha zona de desconforto! Onde me desconstruo sobre vários aspectos, inclusive no sensorial. Tenho uma paixão absurda pela atividade e por quase tudo que a compõe. Tão grande é minha paixão que tenho até dificuldade em falar dessa instituição tão poderosa, síntese de inúmeras questões tão relevantes ao comportamento humano. Por meio do trabalho de criação e observação que faço é que me reelaboro em forma e conteúdo. A moda para mim funciona como a ferramenta mais precisa de minha existência e é meu principal foco e interesse. Um vício perigoso e sem volta. É por esse canal que me vejo e compreendo melhor o meu redor. A moda para mim também representa inclusão, transformação, beleza e prazer. A Regina Guerreiro dizia que "moda é uma louca multifacetada, olhando para todos os lados, querendo seduzir a todos". Gosto do humor contido nessa definição. Foi no contexto familiar que a moda começou a fazer parte da minha história. Minha mãe era uma exímia bordadeira de enxovais e meu padrasto era ligado ao sindicato dos tecelões. Cresci entre os delicados e singelos bordados da minha mãe e a dura realidade da crise industrial têxtil em Pernambuco. Clichê da vida real: desenho roupas desde a primeira infância e meu primeiro vestido confeccionado foi de noiva aos onze anos de idade. Sempre sonhei trabalhar com moda, mas na adolescência achava moda algo fútil. Observando as coleções de Jean Paul Gautier, Zuzu Angel e Vivienne Westwood percebi que moda, história e política eram conciliáveis. Comecei a trabalhar como assistente de estilo no início dos anos 90. Antes trabalhava como figurinista em teatro e televisão e produzia figurinos de novas bandas de rock em Recife.

 2. O fato de ser autodidata impôs barreiras na profissão?

Quando comecei, no início dos anos 90, era caro e difícil fazer um curso superior de moda. Fiz alguns cursos com Marie Ruckie, do Berçot de Paris, que foram muito importantes para minha formação. Com ela aprendi um método de criação e estilo que através de análises semiológicas, técnicas de modelagens e desenho, passei a desenvolver meus projetos com mais precisão. Outro aprendizado importante tive em quase quatro anos de atividades na grife Beto Kelner, quando pude vivenciar todo processo de verticalização de uma confecção. Fazia da criação ao corte, montagem e acabamento das peças. Ainda produzia os catálogos e desfiles para o lançamento das coleções... Sempre grandes shows. Era o auge da marca. Ainda auxiliava nos treinamentos dos vendedores e fazia as vitrines das lojas. Por quatro anos essa foi minha "faculdade". Claro que o embasamento acadêmico é bacana, mas a prática pode ser uma boa formação. Gostaria muito de estudar alfaiataria na Inglaterra ou na Itália. Sou apaixonado por ambas as técnicas. 

3. Instintivamente, você antecipou um conceito de brasilidade ainda nos anos 80 que mexeu com a estética vigente do figurino do teatro e da televisão. O que lhe abastecia?

Tive a sorte de ser iniciado no teatro por Moncho Rodriguez, um profundo conhecedor e homem de teatro dos bons. Um gênio até hoje! Com ele participei de inúmeras montagens como figurinista... É o melhor figurinista de teatro que já conheci; uma grande referência. Como dramaturgo e encenador que é, aprendi muito sobre a psicologia da roupa e da personagem. Trouxe para a moda os ensinamentos. A luz, cor e ambiência também tem muita importância para um bom resultado. Sinceramente não acredito que antecipei nenhum conceito novo, apenas pessoal. A questão da brasilidade se dá pelo aprofundamento das pesquisas, outra prática herdada, e investigações quanto às origens das personagens seja na ficção, seja na vida real. Os indícios iconográficos da brasilidade estão por toda a parte. Vê quem quer, incorpora quem pode. Adoro a possibilidade de livres diálogos com vários contextos estéticos. Adoro a antropofagia de Oswald e Mário de Andrade! Eles sim foram precursores! Às vezes até ser óbvio se faz necessário... Engraçado: nunca me achei figurinista de verdade, pois nunca vivi de teatro. Tenho enorme respeito e admiração pelos profissionais. Fui fazer uma retrospectiva e cheguei à conclusão que fiz cerca de trinta espetáculos como figurinista, seja em teatro, dança ou em shows. Aí, percebi que realmente já posso me considerar figurinista de fato. Trago muito das minhas experiências de moda para os espetáculos e vice-versa. Já fui muito taxado sobre o fato de que minhas roupas parecem figurinos. Sei bem das diferenças e semelhanças. Salve Nelson Rodrigues! 

4. Você é criador da estética "Mangue Fashion" inspirado no movimento musical "Mangue Beat" que atravessou as fronteiras de Pernambuco e atraiu a atenção do País. O que compunha essa estética?

Bem antes do surgimento do Movimento Mangue Beat eu já tinha o interesse por questões levantadas por Josué de Castro e seus estudos sobre o processo de miserabilidade urbana proveniente do êxodo rural em Pernambuco. O Homem Caranguejo trata desse empobrecimento, inclusive cultural, e retrata grupos de pessoas que só tinham como sobrevivência os manguezais. A estética do processo era forte e isso me inspirou a criação de um look enviado para o concurso Smirnof Award de moda. Erika Palomino e Glória Coelho eram responsáveis e, claro, não fui classificado. Isso, em meados dos anos 80. Na década de 90, quando assisti pela primeira vez um show de Chico Science e Nação Zumbi, fiquei petrificado e pensei que aquele conceito de unir tradição com pós-modernidade era o que queria fazer na moda. Fiz uma leitura pessoal do movimento, claro, com minhas referências. O conceito central era unir elementos do "primitivismo cultural", arte rupestre e indígena, xilogravura de cordel em estampas; artesanato em crochê, fuxico e tapeçaria; história da moda, citações a Worth, Dior e Vivienne Westwood com comportamento urbano, life style bem recifense, pegada praieira inspirada nos mangue boys e mangue girls dos anos 90. O desfile foi uma grande performance e a coleção se chamou Mangue Fashion. Mais que alusão ao movimento, a coleção e a marca surgiram inspiradas na diversidade cultural, na biodiversidade do ecossistema e nos ideais de sustentabilidade já trabalhando com cooperativas de artesãs da terceira idade. Cooperativas de costureiras, tapeceiras, rendeiras e bordadeiras. Sempre inspirado pela cultura popular, pelo comércio justo e pelo uso de matéria prima natural e orgânica. Preocupações que permeiam minha estética. 

5. Que impacto o Mangue Fashion causou na sua carreira e como foi recebido pela crítica da moda nacional?

O impacto da coleção foi enorme e meio que me jogou na "cova dos leões". O Ponto de Vista, quadro da Cristina Franco no Jornal Hoje, da Rede Globo, em 1994, foi uma vitrine decisiva! O texto sintético e uma visão exata sobre meu trabalho foi muito importante para a visibilidade de minha carreira. A Cristina Franco é uma mulher muito inteligente e segura de suas convicções. Meses depois estava em São Paulo participando do Phytoervas Fashion e na manhã seguinte era notícia em todos os jornais e televisões. Depois vieram as revistas especializadas e em pouco tempo era conhecido por todo o País. É curioso como moda sempre foi assunto de interesse popular. Eu era constantemente abordado por taxistas, policiais e pessoas comuns que perguntavam sobre a coleção e quando lançaria uma nova. A recepção  da crítica foi bem equilibrada. A maioria bem positiva, entusiasta, curiosa e carinhosa. Até afetuosa. Estive inúmeras vezes nas maiores redações de jornais e revistas importantes. Lembro-me de uma frase bastante contundente da Erika Palomino sobre a primeira coleção: "As roupas são horríveis e de tão horríveis chegam a ser lindas". Sinceramente, achei até bacana a opinião dela. Foi bem emblemática e eu propunha ruptura. Como diria Caetano: "Narciso acha feio o que não é espelho". Na segunda coleção ela foi só elogio. As roupas eram mais sofisticadas e quase formais. Na época existia realmente crítica de moda no Brasil. Havia mais especialistas de fato. 

6. Da literatura de cordel, maracatu e artesanato ao Expressionismo Alemão, novas tecnologias e a estética de Vivienne Westwood. Como você unifica um caldeirão de elementos tão díspares para dar suporte a uma coleção?

No início de carreira tinha a necessidade de sintetizar todas as minhas impressões e predileções. Uma espécie de manifesto da memória. Aliás, a memória é sempre minha grande aliada no processo criativo. É meu maior patrimônio. Apesar de estar sempre aberto para o desconhecido é através da memória afetiva que unifico essa referência que você citou. Na infância lia muito literatura de cordel. Sou encantado com o preciosismo dos trajes dos caboclos de lança do maracatu rural, herança afro-indígena, puro sincretismo! Sou apaixonado pelo Expressionismo Alemão, sobretudo no cinema e filmes como Metrópolis, O Gabinete de Dr. Caligari, M. O Vampiro e outras pérolas desta época me encantam. Adoro a leitura dramática e reinventada da realidade. Vivienne para mim é uma das maiores criadoras da história, com uma trajetória no mínimo inspiradora. Sempre lembro dela nos momentos difíceis (risos). A unificação é naturalmente matemática e o estilo, a moda, a construção técnica das roupas, suas formas, cores e texturas é que dão a unidade à coleção. Um forro personalizado, um botão exclusivo, um detalhe que às vezes nem é visto a princípio funcionam muito na narrativa dramatúrgica da coleção! 

7. Qual a sua opinião sobre o momento atual da moda global?

No sentido geral, acho impressionante o desenvolvimento da moda contemporânea.  Apesar das inúmeras mazelas que o mundo enfrenta, que vão desde crises financeiras a conflitos políticos e religiosos, a moda continua de certa maneira "cumprindo" seu papel de unificação e de síntese cultural. Mesmo sendo extremamente elitista e excludente. Apesar dos problemas gravíssimos que vão desde a questão da mão de obra escrava com condições de trabalhos sub-humanos e a utilização de matérias-primas que não sabemos da origem e que resultam em preços incompreensíveis que desestruturam a cadeia produtiva mundial, a moda ainda tem espaço e é lugar para o sonho para a poesia e encantamento. A indústria, o consumo inconsequente e os excessos tecnológicos ainda não descaracterizaram o sentido humano na moda.

8. A moda brasileira está no caminho de constituir uma identidade própria capaz de conquistar espaço no cenário mundial?

Claro! Nossos designers são muito criativos e talentosos. A moda brasileira começa a esboçar sua identidade, seu particular, seu estilo. Nos últimos anos evoluimos muito nesse sentido. Estilistas como o Alexandre Herchovitch, Carlos Mielle e a marca Osklen vêm desbravando de certa maneira o mercado mundial. A moda praia brasileira é algo sempre surpreendente, uma amostra de nossa inventividade e capacidade criativa. Nosso problema maior está na falta de políticas públicas para o setor! É impressionante o quanto é difícil e caro produzir moda no Brasil. Nossa indústria têxtil já nasceu com dificuldade e é impressionante a ausência de bons tecidos no mercado. Algodão virou artigo de luxo e raro. Um absurdo pelas condições climáticas e geográfica que temos! Definitivamente, não pensamos e não projetamos nosso futuro neste sentido.

9. Junto ao Sebrae você consolidou trabalhos de consultoria em moda e artesanato.  Essa é a receita do novo luxo? 

Meu interesse pelo artesanal é anterior ao do Sebrae. Vem da tal memória afetiva que já falei. Historicamente moda e artesanato são na maioria das vezes complementares. O artesanal na roupa agrega o aspecto do exclusivo do pessoal e único. Neste sentido é realmente uma receita para o novo luxo. O luxo eterno como diria Gilles Lipovetsky. O artesanato tem haver com heritage, com tradição, que pode e deve ser modernizado. Durante anos da minha vida vivi literalmente o universo do artesanato brasileiro e em Pernambuco passei a conviver durante muito tempo nas comunidades produtoras da renda renascença. Meu interesse era e ainda é antropológico. Queria saber do cotidiano das artesãs, de como vivem, como se alimentam e como se divertem. Passei a frequentar todas as feiras e rotas da renda no estado. Vivi praticamente um road movie! Acordando às três horas da madrugada para ir ao encontro das artesãs em feiras e mercados em locais ermos. Independente, só e com meu próprio dinheiro. Foi difícil no início me fazer entender. Mesmo sendo uma realidade distante da minha quando ficou claro o meu desejo criativo começamos a falar a mesma "língua". Foi uma experiência muito rica e naquele momento fundamental para a ratificação do meu produto. Desenvolvi inúmeras coleções em parceria com diversos polos de artesanato, mas, a renda renascença é uma grande paixão. Aprendi a desenhar a trama da renda o que me trouxe certo respeito e admiração em algumas comunidades. Conseguimos durante anos renovar o repertório e motivos da renda. Desenvolvi muitos seminários, palestras e apresentações de moda com a produção feita em conjunto. Foi uma troca muito bacana onde pude mostrar para as rendeiras do potencial ilimitado dessa matéria. Com informação de moda e design conseguimos excelentes resultados, ótimos mercados e vitrines. Uma verdadeira utopia!

10. Dos trabalhos como sócio educador às parcerias com artistas, marcas e estilistas renomados. O que falta experimentar e o que lhe motiva?

Continuo com o mesmo sonho do início da carreira: sedimentar a produção e distribuição da minha marca de maneira sustentável e ética. Continuo motivado pelo desejo da criação. Mesmo estando afastado das passarelas nacionais, exercito diariamente minha criatividade, meu olhar, minha técnica. Faço um trabalho de atendimento personalizado aqui em Recife, no bairro de Apipucos, onde desenvolvo roupas exclusivas e sob medida para uma clientela diversificada. Mas, com foco na roupa de festa. É uma atividade prazerosa, de olho no olho e com o desafio de traduzir e materializar o desejo do outro. Um ótimo exercício diário!

 

Serviço

Eduardo Ferreira
Atelier: Rua Caetés, 87. Apipucos, Recife-PE.
edu.designer@hotmail.com
(81) 8477.6355 |  (81) 9752.3237