Pano pra Manga

/Entrevista que dá o que falar

Design e artesanato de mãos dadas

Em livro recém publicado a jornalista Adélia Borges destaca a interação do design com o artesanal
| Por: Raquel Medeiros

O artesanato brasileiro reclama um papel destacado. E tem motivos de sobra pela riqueza e diversidade que são frutos da mescla cultural que só o Brasil possui. O trabalho artesanal ousa, desafia e sacode resquícios de preconceitos para colocar-se lado a lado com o design. Dentro de uma nova ordem onde o feito à mão desponta com o valor humano - impregnado de histórias e registros da ancestralidade - consolidam-se ações de resistência à massificação propagada pela industrialização. Esse recorte de valorização e revitalização do objeto artesanal inspirou o livro Design + Artesanato: o caminho brasileiro, lançado recentemente pela jornalista, escritora e professora de história do design, Adélia Borges. No conteúdo, um mosaico de tradições espalhadas de Norte a Sul apresenta possibilidades de um modelo sustentável e empreendedor capaz de atender demandas do mercado contemporâneo e transformar vidas. Sobretudo, de quem ainda preserva saberes e sentimentos na palma das mãos.      

O fascínio pela cultura brasileira move a pesquisadora mineira. No livro de 240 páginas - repleto de imagens que reluzem os tesouros artesanais descobertos nos recônditos do país - ela mergulha fundo na antítese dos rumos que o design e o artesanato nacional tomaram em décadas passadas, contrariando a aproximação bem sucedida em territórios como a Itália e o Japão. Também reforça os equívocos, o peso do preconceito atribuído ao produto manual como item do subdesenvolvimento e as previsões mal sucedidas de que a industrialização estava fadada a sufocar as tradições e o conhecimento preservado por gerações.

É no potencial do artesanato que Adélia aposta. Na fartura de materiais, na originalidade e poder criativo que os artífices têm de forjá-los em trajetórias de crescimento social e econômico. Em suas argumentações, credita ao revigoramento do produto artesanal a capacidade de atender a uma função utilitária sem deixar para trás os laços de pertencimento e essência humana que contrastam com a efemeridade tecnológica. O resultado da pesquisa de anos a fio traz a reflexão de como essa atividade - de forma ordenada e estimulada -  pode moldar, costurar, tecer e esculpir novas visões, projetos e possibilidades reais de futuro para o desenvolvimento do país. A autora que contabiliza mais de 10 livros publicados, realiza palestras e assina curadorias de exposições dentro e fora do Brasil também leciona História do Design na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Entre tantos afazeres e caminhadas permanentes por recantos verde-amarelos que alimentam novas descobertas e perspectivas, ela dedicou parte do seu tempo para contar em entrevista as entrelinhas que unem design e artesanato na mesma rota.

ENTREVISTA

Em que consiste o livro Design + Artesanato: o caminho brasileiro?

O livro faz uma radiografia da revitalização do artesanato que vem ocorrendo no Brasil nas duas últimas décadas. Nos recantos rurais mais longínquos ou nas periferias das grandes cidades, grupos majoritariamente femininos têm conseguido manter vivas antigas tradições, inovar para atender a demandas do mercado contemporâneo e, mais do que subsistir, ter uma vida digna com essa ocupação.

Como se dá essa aproximação do design com o artesanato no Brasil? 

Essa aproximação se dá por meio da realização de oficinas nas comunidades de artesãos, em que há uma troca de saberes entre os artesãos e técnicos que vêm de fora, seja designers, antropólogos, gestores, etc. Não existe uma receita padrão, para cada realidade há que se encontrar a resposta mais adequada nessas oficinas. Às vezes se trata apenas de ajudar a comunidade local a inventariar técnicas que eram praticadas e hoje estão rarefeitas - seja o ponto de um bordado, seja a maneira de tingir um tecido com uma planta local. Em outros momentos, o que se torna mais necessário é ajudar o artesão a conseguir ter uma boa formulação de preços para o seu trabalho.

O artesanato nacional vive um momento de revitalização e menos preconceito? 

Vive sim. O preconceito ainda existe, acompanhando o preconceito que existe por tudo o que se refere às classes sociais subalternas. Mas acho que a valorização desse saber popular vem crescendo ano a ano.

 Que lugar tem o artesanal na vida contemporânea? 

Havia prognósticos de desaparecimento do artesanato, pensava-se que o modo de produção industrial iria matar o modo de produção artesanal. Não foi o que ocorreu, como o grande escritor mexicano Octavio Paz já prenunciava desde a década de 1970. Hoje, com a tecnologia digital tão presente em nosso cotidiano, o artesanato nos oferece uma experiência real, de pertencimento, de individualidade frente a um mundo massificado. Oferece um contraponto de calor humano...

 Que papel tem as políticas públicas no resgate da identidade ancestral preservada pelo artesanato? 

Ainda não temos políticas públicas dignas desse nome. No governo federal, as ações estão dispersas entre vários ministérios, sem sinergia entre eles. Nos estados e municípios, muitas vezes as ações se limitam ao assistencialismo. É claro que isso também está mudando, mas é preciso mudar bem mais. A começar de termos finalmente um conhecimento a respeito de quantos artesãos existem hoje no país. Por incrível que possa parecer, esse número é ainda desconhecido.

É possível manter uma aproximação saudável da indústria com o artesanal sem danos às referências ancestrais? 

Acho que é possível sim, desde que o respeito pela produção artesanal e pelas referências culturais dos artesãos seja observado - o que nem sempre acontece. Na contemporaneidade, as fronteiras se diluem e se contaminam. A indústria absorve etapas ou setores marcados pelo fazer manual e o artesanato incorpora medidas que eram exclusivas da indústria. Um exemplo é o desenvolvimento de marcas adequadas, embalagens e design para o ponto de venda dos objetos artesanais.

Diante da pluralidade do artesanato brasileiro, o que você destaca? 

São tantas as boas experiências... Eu destaco aquelas que selecionei para o meu livro "Design + Artesanato: O caminho brasileiro", e que foram escolhidas em comunidades que visitei em vários estados, de norte a sul, de leste a oeste.

E o artesanato paraibano? 

No livro inclui o trabalho dos artesãos que fazem bonecas de pano em Esperança, perto de Campina Grande. Um magnífica experiência, que levou à melhoria da vida das pessoas envolvidas. Mostrei também um inventário da renda Renascença, que é muito bonito. Gosto muito da Casa do Artista Popular, em João Pessoa, que a grande conhecedora de arte popular Janete Costa ajudou a montar.

No mercado da moda e da produção massificada, o artesanato é o novo luxo? 

Podemos dizer que ele é um dos elementos desse novo luxo. Tradicionalmente, o mercado de produtos para a classe AA tem uma presença grande do artesanal, mesmo quando estamos falando da produção empresarial - seja um carro como os da Bentley ou um sapato como os da Ferragamo.

 

Serviço

Ficha Técnica do livro

Título: Design+artesanato: o caminho brasileiro
Autora: Adélia Borges
Editora: Terceiro Nome
Formato: 240 páginas, 21 x 27 cm
ISBN: 9788578160197
Edições separadas em português e inglês
Preço: R$ 80,00