Pano pra Manga

/Entrevista que dá o que falar

Inspiração paraibana, sim sinhô!

A identidade regional da Paraíba atravessa fronteiras nas peças do premiado designer Sérgio Matos
| Por: Raquel Medeiros

Do solo paraibano brota a inspiração para o design de formas originais.  Mesa galho, banco xique-xique, poltrona balaio...  O mobiliário que mais parece peça de arte surge da geografia, da paisagem, dos elementos presentes no entorno social e dos detalhes que integram a ancestralidade quase despercebida aos olhos de quem se acostumou ao lugar pela condição de nativo. Na mira do designer mato-grossense Sérgio Matos, o Estado nordestino é sua segunda casa e uma fonte permanente de ideias que alimentam a criação que agora ganha visibilidade em territórios situados além das fronteiras do Brasil.

A recente conquista do mais alto prêmio do design internacional, iF Product Design Award, na Alemanha, não altera sua simplicidade. No entanto, dispara uma emoção controlada e traduzida na alegria e brilho do olhar.  Em fevereiro deste ano Sérgio figurou entre os 18 brasileiros vencedores que participaram da disputa entre 4.300 designers de todo o mundo. A criação?  O "pufe carambola" inspirado na fruta agridoce muito comum em toda região nordestina e, claro, na Paraíba. A forma de cinco gomos em aço ganhou o entrelaçamento artesanal de fios de algodão em cores vibrantes que enchem os olhos e abrem o apetite do observador pelas demais peças exóticas que ele produz, carregadas de sensações, poesia e sentimentos. O mesmo pufe - dividindo os louros com o banco xique-xique e a poltrona balaio - também arrebatou a premiação do Design Excellence Brazil 2011.

A visão apurada capta inspiração por todos os lados. Desde um cenário emoldurado nas janelas de um carro durante suas andanças pelo interior paraibano até o vaivém das feiras livres transbordantes em cores de frutos e sementes e na pluralidade de materiais por metro quadrado. As manifestações folclóricas e festas populares são verdadeiros tesouros permeados de elos identitários. Elas nutrem ideias retornáveis em objetos com o toque do feito à mão e prontos para compor o universo contemporâneo com memórias que devem ser preservadas. As características regionais do Sertão, Cariri e Agreste também dão formas e batizam objetos. Tudo dispõe de uma estética que pode abrigar a junção criativa e funcional.

O momento presente do mato-grossense nascido em Paranatinga - município que já foi expoente da exploração de diamantes na década de 60 -  vem lapidando boas surpresas. Para o ano que mal começou, uma agenda apertada de eventos dimensiona seu nome no patamar de célebres profissionais do design. Exemplo disso é a exposição Brazilian Design: Modern & Contemporary Furniture, que acontece no período de 23 de março a 5 de maio, em Berlim, capital alemã.  A mostra vai reunir cerca de 60 peças representativas da produção nacional nos últimos 80 anos e assinaturas emblemáticas como Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi, José Zanine Caldas e os irmãos Campana.  

Aos 35 anos, o sonho de criar - acalentado na infância - é uma realidade e deslancha fluido como uma de suas linhas livres que iniciam cada novo projeto no papel. A formação em Designer de Produto pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), em 2005, forjou o laço afetivo com a terra nordestina que perdura até hoje. Tanto, que mais do que as peças que exibem formas, texturas e cores da identidade regional, a referência natal a ele atribuída é comumente confundida com a origem da estética do seu trabalho. Nada mais singular para quem leciona no curso de Design da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), faz da cidade de Campina Grande seu lar e estúdio e assina com orgulho o nome do Estado dentro e fora dos limites brasileiros. Essa relação apaixonada, a carreira que se consolida através dos prêmios, a inspiração e o processo criativo estão presentes nas linhas e "entrelinhas" da entrevista exclusiva de Sérgio Matos.   

ENTREVISTA

Você acaba de conquistar o mais alto prêmio do design internacional. O que isso representa na sua carreira?

Primeiro, estou muito feliz. E claro que isso tem uma importância enorme na minha carreira. Uma premiação desse porte amplia possibilidades. Já posso dizer que os reflexos começam a aparecer, principalmente, porque estou atraindo o olhar da indústria interessada no desenvolvimento de produtos de mobiliário.  

Como é integrar uma exposição na Alemanha ao lado de ícones do design brasileiro?

Pra mim é uma honraria. Quando recebi o convite e vi os nomes que integravam a exposição não acreditei... Pessoas que eu admiro e me inspiram, nomes que eu li e estudei. Estar entre a excelência do design brasileiro é realmente um privilégio.

Há 13 anos você adotou a Paraíba como casa e fonte de inspiração. Que traços desse estado nordestino formatam a sua criação?

Eu sempre quis trabalhar com identidade regional  porque vi que era a maneira de buscar destaque nessa profissão. A Paraíba me permite fazer o diferente e as peças traduzem a geografia, a alegria, o colorido, as festas populares e a cultura em si. Em tudo o que olho eu imagino uma cadeira, um banco, uma mesa. O olhar fica treinado e por isso ando com lápis e papel e vou desenhando e anotando tudo. Não sei quando vai sair. Às vezes a ideia de um projeto espera anos guardada.

Da inspiração à execução o produto é genuinamente paraibano?

Sim. A inspiração, a mão de obra e a matéria-prima são da Paraíba. Muita coisa nasce por necessidade, pela falta de uma indústria de tecnologia de ponta para o design. Então, faço uso de materiais que estão ao meu alcance e tenho encontrado soluções interessantes. As tramas artesanais, por exemplo, são feitas com o mesmo fio colorido das redes da cidade de São Bento. A mão de obra também vem desse mesmo mercado, onde uma família de Campina Grande que trabalhava com varandas de redes executa a minha produção. O design está gerando emprego e renda.

Como se dá o seu processo criativo?

Quando trabalho no estúdio, para o consumidor final, surge uma primeira peça que é única. Depois, com o tempo, a mesma ideia vai dando origem a outros produtos que compõem uma linha. Para a indústria já penso uma série completa de acordo com a demanda.  

No que você está trabalhando agora?

Estou preparando uma linha de tapetes baseado no Maracatu, na referência de uma flor que estampa a indumentária usada na dança. Vou lançar este tapete no Salão Satélite da Itália, no mês de abril. A trama é algo diferente com fios de São Bento, de cores vibrantes.  Uma linha de produtos com a mesma inspiração continua depois, com outros objetos e formas. Estou no meio desse processo criativo.

Como é viver de design no Brasil?

É muito difícil. Você tem que construir um nome primeiro e é bem complicado iniciar do nada. Tenho projetos que não consegui colocar no mercado. Hoje, com o nome publicado na mídia, surgem possibilidades reais de comercializar as peças. Agora começo a viver do design.

A Paraíba tem potencial para a criação?

Considerando a própria  referência da formação ofertada pela Universidade Federal de Campina Grande, que é uma das melhores do país, tem bastante potencial. O design paraibano está crescendo muito. No entanto, existe o problema da não valorização sobre o que é feito localmente e isso dificulta a comercialização da produção. Infelizmente, de todos os estados brasileiros a Paraíba é onde menos vendo as minhas peças. Muitos nem conhecem ou sabem que estão disponíveis. Enquanto isso, elas são bem aceitas em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba e começam a circular fora do Brasil. De verdade, santo de casa não faz milagre e isso ainda tem a ver com a autoestima do paraibano.  

Qual o rumo do design?

O design está se tornando cada vez mais personalizado. Os profissionais se distanciam de tendências e seguem um estilo próprio. É o meu caso. Tenho uma carreira recente, de apenas três anos no mercado, e ousei  apostar naquilo que gostava, que achava diferente e no feito à mão. E as pessoas também estão buscando nos produtos referências que tenham a ver com suas histórias e vivências. O rumo do design é a identidade.

 

Serviço:

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Studio Sérgio J. Matos

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