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Luís André do Prado e João Braga contam a História da Moda no Brasil

Os autores João Braga e Luís André do Prado lançam livro que torna-se referência obrigatória para conhecer os 120 anos da moda brasileira
| Por: Da Redação
Luís André do Prado e João Braga contam a História da Moda no Brasil
O estilista Dener marcou época com moda de luxo

Conta a história do que vestes, que te direi quem és. Partindo do pressuposto de que moda traduz a identidade social e cultural de um povo, o jornalista e escritor Luís André do Prado, com a supervisão do professor de moda e escritor João Braga, refez os caminhos da moda brasileira. O resultado é uma obra rica e audaciosa conferida no livro História da Moda no Brasil: das influências às autorreferências, lançado em junho deste ano. São 120 anos de moda paginados em um trabalho apurado de pesquisa, com narrativas orais e cheio de documentos ilustrados, do tempo das modistas e costureiros aos estilistas que desfilam nas semanas de moda contemporânea.

Um passeio pela história da moda brasileira em sete capítulos, subdivididos de acordo com as tendências estéticas e comportamentais predominantes em cada época: Belle Époque (1889-1918), Anos Loucos (1919-1930), Era do Rádio (1931-1945), Anos Dourados (1946-1960), Tropicália & Glamour (1961-1975), Anos Azuis (1976-1990) e Supermercado de Estilos (1991-2010). O projeto foi coordenado e com texto do jornalista Luís André do Prado, que cedeu uma verdadeira aula da história da moda brasileira em entrevista para o Nas Entrelinhas. É o que você confere a seguir.

Por onde se começa a contar a história social da moda no Brasil?

É interessante você se referir à "história social", porque há de fato uma história da moda que se pode fazer exclusivamente pelo viés do desenvolvimento das variações estilísticas das roupas, a cada período. Sem dúvida, uma forma interessante de se observar a moda ou a evolução das indumentárias; mas, não foi o que fizemos em nosso trabalho. Ele inclui "também" uma narrativa sobre as variações estilísticas, mas quisemos principalmente entender as razões sociais e econômicas que determinaram as transformações no segmento. A moda - como tudo o mais em sociedade - é, em muito, determinada pelas mudanças comportamentais e econômicas. Há uma premissa do pensamento marxista que diz: "a infraestrutura determina a superestrutura". Mesmo não tendo tomado a afirmação como inquestionável, entendemos que não há como não ver que as roupas foram sempre determinadas pelas correlações de poder econômico existente entre grupos sociais, assim como pelas relações comerciais (internas e internacionais), de cada período. Então, podemos dizer que nossa narrativa histórica sobre o desenvolvimento da moda no Brasil teria como ponto de partida o próprio descobrimento, já que o fenômeno das mudanças de modas nas roupas teria surgido, segundo concepções hegemônicas na historiografia, durante o mercantilismo, durante as Cruzadas, com o surgimento da burguesia mercantil, que copiava as roupas até então tradicionais e pouco mutáveis das cortes e comprava títulos de nobreza, buscando assim garantir sua ascensão social. Pessoalmente, acho que a moda, como a entendermos hoje, é um fenômeno posterior à produção em série e à burguesia industrial, potencializado imensamente pelo incremento das diversas formas de comunicação de massa - primeiro imprensa; depois fotografia, rádio, televisão e Internet - e da sociedade de consumo contemporânea.

A criação de moda, portanto, ganhou força no Brasil principalmente após os anos 1950, quando deixamos de apenas importar tecidos e passamos a ter que valorizar o produto nacional, mal visto internamente. Houve no período um forte incremento da indústria têxtil nacional, que passou a tentar agregar expressão de moda a seus produtos. Foi assim que surgiu a necessidade de forjar os costureiros brasileiros de "alta costura", copiando o formato da moda francesa - até então hegemônica no mundo. Se tínhamos talentos expressivos para criação de moda antes, e provavelmente tínhamos, eles não apareceram até então simplesmente porque não encontravam espaço para expressar seus trabalhos.

Como o uso do corante extraído do Pau Brasil impulsionou a colonização mercantilista no país?

Costumo dizer que o Brasil nasceu com a moda justamente pelo que foi dito acima. Um detalhe curioso foi, justamente, o fato de nosso primeiro produto de exportação ter sido um produto direcionado à moda - o pau brasil, cujo nome vem de braise (brasa em francês). Então, a cor do Brasil deveria ser o vermelho e não o verde e amarelo, quer eram as cores da dinastia de Avis, à qual pertenciam d. João VI e seu filho Pedro I. Então, o pau-brasil (que os índios tupis chamavam de ibirapitanga) foi a primeira riqueza extraída de sua colônia pelos portugueses. Estima-se que havia, na época do descobrimento, mais de 70 milhões de árvores do tipo, no litoral do país. Hoje, é uma espécie que precisa de proteção tal o nível de sua exploração. Mas logo outras riquezas foram descobertas e passaram a atrair maior interesse dos portugueses. Acho importante registrar aqui que esse modelo absolutamente extrativista imposto pela Coroa portuguesa á sua colônica marcou um traço deletério da cultura brasileira, uma postura de permanente dependência e pouco empreendedorismo que parecemos só agora começar a vencer. Basta ver o que ocorreu nos Estados Unidos para ver a diferença do modelo colonial adotado pelos ingleses. 

A pesquisa do livro conseguiu tratar do início da atividade mercantil na área do vestuário no país. Qual importância desse movimento no processo imigratório?

 É notório que fluxos imigratórios de cidadãos de outros países e culturas influenciaram na produção de roupas no Brasil. Basta ver a importância das malharias implantadas pelos alemães na região de Blumenau, Santa Catarina. O árabes e judeus estão diretamente relacionados com o surgimento do polo de confecções que se instalou no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, a partir já no início do século XX. E vamos sempre encontrar industriais e figuras de destaque na moda que são descendentes de culturas como a árabe e a judaica, por exemplo, casos - na fase de importação da moda europeia dos anos 1940 a 1960 - de Madame Rosita, Madame Boriska, Jacob Peliks (Casa Canadá, Rio), Paulo Franco (Casa Vogue, SP) e, posteriormente, Ronaldo Esper, Sérgio Blain, Fause Haten, Carlos Tufvsson e muitos outros...

O Brasil nacionalista dos anos 50 gerou uma espécie de campanha pró tecidos nacionais de algodão. O que se esperava com a criação da Alta Costura Nacional? 

Esperava-se que ela pudesse agregar expressão de moda ao tecido brasileiro. Durante as duas grandes guerras, e particularmente após a segunda, o Brasil viveu um período de desenvolvimento da indústria têxtil nacional, que sempre teve o algodão como seu principal fio. Até o final do século 19, produzíamos apenas tecidos de algodão rústicos para vestir as camadas populares. Todo tecido mais sofisticado era importado. Com o incremento de nossas têxteis, pós 1950, os industriais brasileiros passam a entender que o que eles vendiam não era apenas tecido, mas moda. E para incorporar expressão de moda a seus produtos passam a promover eventos que incentivam o surgimento dos costureiros no país - seguindo o modelo estabelecido pela França de uma moda criada para a elite, a chamada alta costura - feita sob medida e como peça única, caríssima. A têxtil carioca Bangu cria em 1952 o Miss Elegante Bangu, para garotas da alta sociedade, promovido no Brasil inteiro e que lançou nosso primeiro costureiro, José Ronaldo. Mais tarde, em 1958, é criado em São Paulo pelo consórcio têxtil Matarazo-Bussac o Festival da Moda Brasileira, que oferecia a Agulha de Ouro e de Platina aos primeiros colocados. Foi ali que surgiram Dener Pamplona de Abreu e Clodovil Hernandes.

Qual o papel da imprensa feminina neste apanhado histórico sobre a moda brasileira?

Fundamental: a moda é essencialmente um fenômeno alicerçado na comunicação de massa. Ela evoluiu na mesma velocidade que os meios de comunicação. Tanto é que houve um tempo em que fazia sentido dizer qual seria a "tendência" da próxima estação, porque as pessoas até a década de 1980 ainda seguiam uma moda mais padronizada, com elementos estéticos similares. Por exemplo, calça boca-sino entrava na moda e todo mundo usava; ombreira entrava na moda, todo mundo seguia... Hoje isso não é mais possível nem faz sentido. Vivemos na era da informática o tempo do supermercado de estilos. Numa mesma temporada de moda, vemos criações extremamente diferenciadas entre si. Não existem mais tendências... É o fim da moda? Simbolicamente, talvez. Mas o campo de possibilidades subjetivas para cada criador também se tornou bem mais amplo.

Gostaria que você definisse o que foi a moda brasileira no conceito do que chamaram de Anos Azuis, que vai de 1976 a 1990?

Foi o período de transição entre a época dos costureiros - anos 1960 - e o desenvolvimento de um processo de formação e lançamento da moda em série mais organizado, no Brasil (e no mundo). O lançamento da moda aqui ainda era feito por meio de feiras industriais... Mas surgiram os chamados grupos de moda, no Rio, São Paulo, Minas, Fortaleza e outros locais do país. Esses grupos faziam moda prêt-à-porter, ou seja, para produção seriada, e não se encaixavam mais no conceito da alta costura. Surgem também nossas primeiras escolas de moda, com graduação em nível superior.

O que mudou na moda brasileira depois da consolidação do Fashion Rio e São Paulo Fashion Week ?

Ocorreu uma mudança substancial. Na verdade, ela começa nos anos 1980, com o surgimento dos grupos de moda independentes - sendo o Grupo Moda-Rio o pioneiro, seguido pelo Grupo Mineiro de Moda, o Grupo de moda de Fortaleza, os vários grupos de São Paulo, incluindo a Cooperativa Paulista de Moda. Todos esses grupos quiseram estabelecer eventos de moda seguindo as estações climáticas, como é o formato correto para os eventos da moda - estabelecido na França pela alta costura desde o século 19. Porém, aqui no Brasil os lançamentos da moda ocorriam, desde a década de 1960, em feiras industriais, que são eventos com outro tipo de característica voltado à apresentação de produtos industriais. Mas sabemos que a Fenit, em SP, foi transformada num grande palco de lançamento de moda naquela década. Mas no início da década de 1990, com a chegada ao mercado de estilistas já formados pelas primeiras escolas de graduação em moda instaladas no país - que foram a Santa Marcelina, em SP, e a da Federal, de MG, seguida pela Anhembi-Morumbi e Faap, Senac e outras em SP, Rio e outros estados - já não era mais possível lançar moda em feiras. Foi quando surgiu em SP o Phitoervas Fashion e, no Rio, a Semana Leslie de Moda, embriões das futuras São Paulo Fashion Week e Fashion Rio. Em síntese, ocorreu então um fechamento do ciclo: já tínhamos demanda de mercado consistente, um reconhecimento do talento brasileiro na criação de moda, escolas que formavam estes talentos e, por fim, espaços de lançamentos adequados à moda. Por esse motivo, consideramos que vivemos hoje um momento de maturidade da moda brasileira.  

Pode-se dizer ao final desta pesquisa que o Brasil possui uma identidade de moda própria? O que seria esta autorreferência?

Eis aí uma questão complexa, que não dá para responder de forma curta. Fizemos uma palestra de horas segunda-feira última para tratar deste tema. Acho que em toda área de criação - a começar pela literatura, depois artes plásticas e música - os artistas brasileiros sempre buscaram uma identidade para seus trabalhos. Por que não na moda? Moda não é arte? De fato, a criação de moda é uma forma de criação que se pode dizer artística, tanto quanto o design de móveis ou objetos ou a arquitetura - mas que como esses últimos tem um aspecto utilitário. Em minha opinião isso não a torna uma arte menor, mas mais próxima de nós. É uma arte que nos veste... Enfim, acho que é necessário sim que a moda brasileira busque sua identidade, mas não acho que ela necessariamente deva se fazer por regras estabelecidas. Dizer que ela tem que se voltar para o folclore ou que tem que ser colorida ou sensual etc., é estabelecer regras. Isso é por si só poder, restringir a criação que deve ser livre.  Hoje, com todas as influências se entrecruzando pela internet, o mundo todo se influencia. Não há mais nada puro nesse mundo e isso é rico. Eu diria então que identidade é tudo que nos expressa, nos legitima - ou seja, identidade é o inverso da cópia, da imitação. Acho que a história da moda no Brasil revela um percurso de busca por essa legitimação criativa, mesmo que ele se paute muitas vezes pela referência folclórica, como fez Zuzu Angel, nos anos 60. Penso que podemos criar em nosso país uma moda tenha força e expressão, reconhecida interna e externamente. Mas isso se fará pelos valores individuais de cada criador e não por estabelecermos um conjunto de regras que todos devem seguir. Acima de tudo, para ter identidade é preciso que haja uma história conhecida, legitimada e compreendida. Nesse sentido, esse nosso trabalho também busca prestar uma contribuição essa busca pela identidade da moda brasileira.

Comente sobre o projeto de criação do Museu Virtual da Moda Brasileira.

O projeto História da Moda no Brasil não acaba com o livro e o documentário em vídeo, que acabamos de lançar. Teremos agora a sua fase 2, que é justamente o História da Moda no Brasil - Museu Virtual Permanente, que objetiva a implantação e a manutenção de um banco de dados local, com pesquisa permanente disponibilizada por meio virtual (website), contando a história da indumentária e da moda no Brasil. Os dados serão catalogados física e digitalmente e formatados em textos (em formato de verbetes) e imagens (fotos e documentos), para alimentação do banco, a ser disponibilizado em meio virtual, livre e democrático. Nosso objetivo é abrir ao público, gratuitamente todo o conteúdo pesquisado pelo projeto, tanto o compilado no decorrer da Fase 1, quando o que vier a ser pesquisado, a partir da nova etapa. O banco de dados será estruturado de forma simplificada, em formato de verbetes, compondo duas grandes linhas de consulta: por "Personalidades" e "Fatos" da moda brasileira, organizadas cronologicamente, acrescidos de imagens ilustrativas - com links internos. O projeto já foi aprovado pelo Ministério da Cultura e está em fase de captação e patrocinador.  

Para saber mais:

"História da moda no Brasil: das influências às autorreferências"
Autores: João Braga e Luis André do Prado
Editora: Pyxis
Preço: R$120,00
Edição: 2011
Número de páginas: 640

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