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/Entrevista que dá o que falar

Hildegard Angel destaca papel do IZA na moda

A filha da estilista Zuzu Angel preside a instituição que vem costurando e entrelaçando projetos que apostam na moda nacional com uma identidade própria
| Por: Da Redação
Hildegard Angel destaca papel do IZA na moda
Anjo: símbolo das criações de Zuzu

Na recente história da moda brasileira - recente porque países europeus como França, Espanha e Itália levam larga vantagem no fator tempo - podemos mapear passos que foram decisivos para constituir o conceito elaborado de moda que escrevemos hoje dentro e fora de nossas fronteiras. Entre tantas contribuições, talvez a da estilista mineira Zuzu Angel seja a mais emblemática. Razão que enche de orgulho a filha Hildegard Angel e a motiva a acreditar na moda enquanto expressão da cultura e a gerir a entidade civil que leva o nome da mãe: Instituto Zuzu Angel (IZA).

Zuzu é sinônimo da história da moda nacional. Foram suas mãos habilidosas responsáveis pelas criações ricas em detalhes identitários que assinaram lá fora - pela primeira vez - o nome do nosso país neste universo dominado à época por personagens masculinos do velho continente. No cenário do início dos anos 70, Zuleika Angel Jones, apresentou em Nova York um desfile aclamado que deu origem a uma reportagem publicada pela especialista em moda, Bernadine Morris, no New York Times. Um estilo exuberante que vestiu atrizes como Liza Minelli e Joan Crawford.

A mineira nascida em Curvelo, em 5 de junho de 1921, tornou-se conhecida por fazer de suas peças uma vitrine da cultura brasileira. Foi transgressora no uso da chita e abusou das rendas, fitas, pinturas à mão, imagens de pássaros e florais do nosso tropicalismo. Também deixou o registro da primeira coleção de moda com cunho político em protesto à tortura e morte do filho Stuart pelo Regime Militar. Nas roupas usou anjos - sua marca - aliados a crucifixos, tanques de guerra e aves engaioladas como metáforas da sua dor. Zuzu morreu em 1976, no Rio de Janeiro, em um acidente automobilístico de circunstâncias pouco esclarecidas que interrompeu a luta da mãe incansável e da artista nata.

Mesmo assim, seu nome continua a dar asas à nossa moda. Criado em 1993, por sua filha e jornalista, Hildegard Angel, o IZA guarda a memória da estilista e promove ações que valorizam  as raízes e resgatam a história da moda. Localizada na cidade do Rio de Janeiro, a instituição sem fins lucrativos vem costurando e entrelaçando projetos que fortalecem a moda autoral tão difundida por Zuzu quando referenciava as manifestações culturais e a ancestralidade. Parceria também em projetos que olham para um futuro  sustentável como o Paraty Eco Fashion - realizado na primeira semana de agosto deste ano - com o objetivo de refletir sobre o papel de criadores e consumidores. É sobre as atribuições e contribuições do IZA que Hildegard Angel - ou Hilde como é carinhosamente conhecida - fala com exclusividade ao site Nas Entrelinhas, realçando um ponto comum entre a vida e a moda: nestes dois aspectos não se anda pra frente sem olhar para trás. Memória é tudo!

 

ENTREVISTA

1. O Instituto Zuzu Angel, fundado por você para preservar a memória da sua mãe, completa 19 anos. Que experiências marcaram a instituição no papel de apoiar, difundir e promover a moda brasileira? 

Acho que contribuímos para uma conscientização geral da importância de produzir uma moda com estilo brasileiro. Antes do IZA não havia nem a consciência nem qualquer movimento neste sentido. Também tivemos um papel importante na área acadêmica, já que criamos o primeiro curso superior de moda do Estado do Rio de Janeiro, implantado por nós na Universidade Veiga de Almeida, em 1995. Também foi o instituto o primeiro a levar a moda para os museus com suas exposições.

2. Que novos projetos podem ser "costurados" com o prestígio e maturidade que o instituto dispõe agora?

Todos os projetos são possíveis. O que não nos faltam são projetos. Viabilizá-los é sempre difícil devido à questão dos patrocínios. Mas o prestígio e a experiência são certamente facilitadores.

3. Como você avalia o momento recente em que a moda brasileira assume o caráter de arte com representatividade em um colegiado no Ministério da Cultura?

Acho que antes tarde do que nunca. Perdeu-se muito tempo com essa discussão tola se moda é arte ou não, quando obviamente qualquer produção criativa com conteúdo cultural  pode ser definida como arte.  

4. Esse patamar aponta para uma nova era da moda brasileira? Quais diretrizes você espera para o setor dentro do Plano Nacional de Cultura?

Aponta sim. Vamos ver se os profissionais de moda saberão se desenvolver bem dentro desse novo âmbito institucional, oficial, político e burocrático. É um aprendizado. Espero que essa nova situação valorize a moda e seja útil no sentido de acabar com tantos preconceitos que ela enfrenta.

5. De que maneira a Academia Brasileira de Moda, órgão estatutário do IZA, deve colaborar com o desenvolvimento desse plano?

A memória é fundamental a todas as atividades culturais.

6. Zuzu Angel foi precursora da moda com identidade nacional, usando rendas e estampas que imprimiram uma nova estética à moda da época e que continua muito atual. O que fazia dela uma mulher a frente do seu tempo?

O que a fazia à frente do seu tempo era sua personalidade corajosa, vanguardista e livre de preconceitos.

7. Você considera que o conceito de moda assentado na nossa exuberância cultural como fazia sua mãe é decisivo para firmar o nome do Brasil no eixo internacional?

Acho que o Brasil tem que firmar uma moda com estilo brasileiro. A moda francesa tem seu estilo, a italiana tem, a japonesa, a americana. Por que não a brasileira?

8. A moda com referências artesanais está supervalorizada. Você estuda o relançamento da grife Zuzu Angel preservando a mesma identidade?

Está aí um pensamento que sempre me vem à cabeça. Por que não?


Sobre Hildegard Angel

Hildegard Angel é uma das mais respeitadas jornalistas do Rio de Janeiro. Durante mais de 30 anos foi colunista no jornal O Globo, quer cobrindo a sociedade (com seu nome e também com o pseudônimo Perla Sigaud), quer cobrindo comportamento, artes e TV, tendo assinado por mais de uma década a primeira coluna de TV daquele jornal. Nos últimos anos, manteve uma coluna diária no Jornal do Brasil, onde também criou e editou um caderno semanal à sua imagem e semelhança: o Caderno H. Com passagem pelas publicações das grandes editoras brasileiras - Bloch, Três, Abril, Carta, Rio Gráfica - e colaborações também em veículos internacionais, Hildegard talvez seja a colunista social com maior trânsito no país. (Fonte: Blog Hildegard Angel)

Para saber mais:

Filme: Zuzu Angel dirigido por Sérgio Rezende e protagonizado por Patrícia Pillar e Daniel de Oliveira (2006)

 

GALERIA (Fotos: Acervo Instituto Zuzu Angel)