Pano pra Manga

/Entrevista que dá o que falar

Jum Nakao fala sobre sua moda-manifesto

Nakao é esperado em João Pessoa no mês de setembro para seleção do concurso Novos Estilistas-PB e palestra aberta no Sebrae
| Por: Da Redação
Jum Nakao fala sobre sua moda-manifesto
"Prefiro ser indefinível do que definido"

Precisamos desnudar a nossa alma para revelar a capacidade de sermos leves, sonhar com indizíveis, impossíveis, inexplicáveis, indefiníveis." (Jum Nakao)

No sonho do estilista, diretor de criação e educador Jum Nakao há um desejo inquieto de buscar "um possível ainda invisível no real". Este brasileiro, paulista e neto de japoneses é um dos mais provocativos e instigantes criadores da moda contemporânea. Desde seu desfile-manifesto "A Costura do Invisível"(SPFW/2004) em que criou roupas de papel que foram rasgadas em pleno desfile, abriu-se um universo múltiplo criativo no seu trabalho. Jum não vem apresentando coleções de moda em passarelas, mas subverte a ordem e dedica-se à arte e educação no movimento de tornar visíveis outras costuras invisíveis que alinhavam moda, arte, cultura, cidadania, consciência e transformação.

Em entrevista exclusiva ao Nas Entrelinhas, Nakao fala do seu processo criativo, suas múltiplas atividades e seu pensamento sobre moda e arte. Em setembro deste ano, ele é esperado com expectativa na Paraíba para participar da seletiva final do Concurso de Novos Estilistas promovido pela Estação da Moda - órgão ligado à Prefeitura Municipal de João Pessoa. Na ocasião está prevista uma palestra sobre seu trabalho. A entrevista abaixo dá panos pra mangas. 

 

 Você se sente afastado da moda? Qual a necessidade da pausa como estilista?

Não me sinto afastado, estou mais do que nunca no berço da moda. Desde o desfile "A Costura do Invisível" tenho me dedicado a educação e as artes. Acredito que estas sejam as ferramentas mais eficientes de transformação do mundo, pois atuam na base: a transFORMAÇÃO das pessoas. Se pensarmos um mundo melhor, precisamos formar pessoas melhores. Ao longo destes anos estabeleci inúmeras trocas de experiências e vivências com pessoas do mundo todo através de oficinas, palestras, aulas, exposições, projetos e trabalhos a convite de fundações, museus, escolas, instituições e governos. O trabalho que mais me dá prazer neste momento é vestir pessoas no sentido metafórico para um dia voltar a vestir pessoas através da metáfora: roupa.

Designer, estilista, professor, artista plástico, figurinista ediretor de criação. Entre tantos outros "eus" seus, como você se vê na  própria colcha de retalhos?

Tenho me perguntado se quero ser um designer que faz arte ou um artista que faz design, ao mesmo tempo me sinto realizado nas oportunidades em que sou professor. Adoro fazer direção de arte se estendendo ao figurino. Me sinto confortável dentro desta diversidade de atuação. Creio que  ter um leque de opções de expressão e realização seja melhor do que estar restrito à uma única linguagem, confinado dentro de um único mapa. Alçar vôos diversos me confere uma visão privilegiada que me permite redesenhar novas geografias. Diante da complexidade, prefiro ser indefinível do que definido.

Atuando como professor, com diversas oficinas e workshops de criação, o que você mais sente falta nesta geração de novos estilistas-designers formados por escolas de moda?

Sinto que falta bagagem de toda sorte: técnica e cultural principalmente. A educação deveria despertar as pessoas. Durante as oficinas percebo transformações. Ocorrem sinapses nos alunos que fazem "cair a ficha" sobre referências e caminhos possíveis.

A moda pode ser um meio de inclusão social, reflexão identirária, cultural, fonte de renda, negócio, investimento, mesmo assim continua com pouco incentivo e apoio do governo federal.  Falta encarar a moda enquanto política pública?

A educação e a cultura são políticas públicas. Precisamos aprimorá-las. Somente assim as manifestações culturais encontrarão ressonância e caminhos para sua natural evolução.

Quais os repertórios de inspiração que mais te co-movem  no momento da criação?

Não existem receitas ou fontes de inspiração específicos e estáticos. Estar conectado com o entorno e sensível para captar suspiros de referências suspensos no ar é a melhor forma de acumular repertório. Esta base de dados acumulada em determinado momento automaticamente se conecta e gera a resposta para um propósito criativo.

Para você, moda, design e arte andam juntos?

Conforme o homem se desloca, tudo caminha junto. Como já dizia Chico Science, basta um passo para você não estar no mesmo lugar.

Como analisa os diversos desdobramentos da Costura do Invisível? Sua visão inicial do projeto mudou com os anos?

Inimaginável. Não fazia idéia do quanto reverbaria aquele rasgo. Literalmente rompi fronteiras e comecei a estabelecer diálogos com áreas que não faziam parte do meu território: design, artes, cinema, teatro, dança entre tantos outros. Minha visão sobre o projeto permanece a mesma, mas minha visão de mundo mudou muito.

A moda  é sustentável? Quais caminhos possíveis?

Tudo é sustentável. Precisamos apenas encontrar nossos caminhos. Caminhos únicos são insustentáveis. Diversidade é uma forma de sustentabilidade. Precisamos mudar nossos valores: estarmos sensíveis ao invisível, ao imaterial. Para que esta transformação ocorra, educação e cultura são fundamentais.

Como foi  a experiência no projeto Talentos do Brasil?  Na sua avaliação, há realmente uma mudança efetiva para ambos os lados, ou seja, os designers convidados e os artesãos do interior do país?

A experiência foi culturalmente muito enriquecedora para ambos os lados. O próximo passo necessário é concretizar a estrutura comercial para que o círculo se feche.

Você conhece o artesanato paraibano?

Conheço. Assim como todo artesanato brasileiro, vejo necessidade de inserção destes saberes dentro de uma plataforma menos estática e mais transversal. Somente assim romperemos barreiras temporais e traremos o artesanato para o cotidiano contemporâneo.

O que você diria para novos designers de moda sobre a importância da cultura identitária local como fomento para criação?

Criar é possibilitar ao outro uma aproximação do olhar do criador. Este olhar é o espelho do mundo reflexo de quem cria. Se o criador não se identificar neste espelhamento, sua obra carece de cultura própria.

Como anda seu desejo de mudar o mundo com sua arte-manifesto?

Latente como sempre. É da natureza do criador moldar o mundo ao seu redor.

Qual o próximo passo?

Continuar caminhando, como sempre digo. É importante fazer o que acreditamos, dia após dia, insistentemente, lapidando nossa alma, mesmo que aparentemente as coisas não mudem. As vezes é bom mudar  a estratégia, a abordagem, mas continuar no caminho. Chegaremos num lugar, ou no mínimo sairemos transformados deste percurso.

 

Veja o desfile "A Costura do Invisível"- SPFW/2004

 

Para saber mais:

Livro/DVD: A Costura do Invisível. Editora Senac/SP, 2005.

Site: www.jumnakao.com.br        

Blog: http://jumnakao.wordpress.com/

Flickr: http://www.flickr.com/photos/jum_nakao

 

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