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Renda renascença com o ponto da emoção

A arte das rendeiras do cariri paraibano protagoniza a coleção invernal da estilista Fernanda Yamamoto
| Por: Raquel Medeiros

Para a fragilidade força, para a aridez fertilidade, para a rudeza delicadeza. As antíteses costuram a coleção do Inverno 2016 da estilista paulistana Fernanda Yamamoto. No universo de oposições a criação se sobrepõe à estação, padrões e tendências. É no calor do território de chuvas esparsas, clima seco e inspiração enraizada na caatinga do Cariri paraibano - onde a renda renascença tem valor patrimonial - que a designer cultiva há um ano o que considera seu trabalho mais verdadeiro. Brota regado pela maturidade profissional e tem abrigo nas técnicas artesanais, sua assinatura inconfundível, com a colaboração de mulheres que se rendem de corpo e alma à memória do ofício da agulha, fio e lacê.

A renda renascença é protagonista. Traz no traçado concêntrico referências culturais, emoções da arte do fazer, códigos que atam desafios, desalinhos e persistência de reinventar o que a tradição consagrou como bem maior da região. Na sua força de expressão, a renda é a língua da coleção e a fala mais sutil das mulheres que à ela dão vida sobre almofadas aninhadas no colo. Um sussurro de histórias cotidianas - entre os afazeres domésticos e a lavoura - contidas na brancura dos novelos desfeitos para dar forma aos desenhos de vestidos, calças e casacos idealizados por Fernanda.

As tramas rendadas deste inverno tropical reúnem-se à nobreza da seda e jacquard, além de feltragem, trançados e aplicações que revigoram a criação da estilista com foco no artesanal. A renascença pauta a ressonância descritiva do entorno. A partir do risco em papel, linha e agulha reproduzem em voltas e nós pontos com nomes colhidos na ordem do dia: torre, tijolo, aranha, abacaxi, sianinha, caramujo, corrente. Representam capturas e construções ao longo de décadas pelo olhar aguçado das rendeiras do Cariri e concedem às roupas o sentido literal de linguagem. Vestígios da arte que chegou ao Nordeste do Brasil por religiosas francesas no século XIX para alcançar status de patrimônio cultural da Paraíba.

Cartela de cores, tons de poesia

A essência do Cariri é a alma da coleção. Está na pureza da renda, na força e delicadeza das mulheres que a preservam como saber ancestral e laço de pertencimento, na exuberância do cenário natural que inspira cores, texturas e estampas. Tons de rosa (choque e bebê), azul, roxo, e marrom somam-se ao verde e laranja. "É uma cartela que veio precisamente da paisagem", explica Fernanda. Combinação de cores gravadas na retina, como as do casario às margens das estradas de barro que as levaram à rota da renda. "O contraste das casas rosa com o marrom da terra não me sai da memória", confessa a estilista que vai descortinar todo o trabalho na edição comemorativa dos 20 anos do São Paulo Fashion Week, em 22 de outubro.  

Na emoção incontida de Fernanda, o processo criativo da coleção reverbera descobertas, extravasa sensibilidade. "Esta é a experiência mais verdadeira, reveladora e bonita dentro da minha trajetória profissional. É um outro desabrochar, uma mudança com ressignificações sobre o que é realmente importante. Ter conhecido estas mulheres mudou minha visão de trabalho, transformou meu olhar", declara. O elo de conexão com as 77 rendeiras envolvidas na execução das peças - sob a consultoria do designer paraibano Romero Sousa - está embasado na transferência mútua de conhecimento. Alarga na proposta do ponto mais vazado e assimétrico da renascença novas possibilidades para apresentá-la dentro de um contexto contemporâneo que não fere a ancestralidade. "Existiu muita troca, exigiu muitos desafios", recorda a estilista.

A renda que chega à passarela é uma teia de olhares múltiplos. Deixa riscos, alinhavos e tessituras que mudam perspectivas do fazer artesanal. Sobre o mapa do cariri paraibano, as idas e vindas de Fernanda às cidades de São João do Tigre, Monteiro, Sumé, Camalaú e Zabelê traçam uma intrincada trama de viagens que conduzem à tradição, à paixão pela herança do feito à mão, ao patrimônio que resiste ao tempo, à moda como expressão de cultura.