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"Ó Pedaço de Mim": a porção insana que nutre os acessórios da Mary Design

| Por: Raquel Medeiros

No aparente olhar perdido, o achado. Nos passos retraídos, a certeza. Nos braços atados pela hipotética camisa de força, a liberdade. No batom propositadamente borrado, a firmeza do traço. Um a um, os detalhes performáticos exibidos pelas modelos na recente passarela do Minas Trend somam sentido e encadeiam coerência à coleção que se deixa conduzir pelo desatino da criação. A loucura descabida encontra lugar na Primavera-Verão 2015 da marca de acessórios Mary Design. Por trás do delírio, reside um diálogo ora silencioso, ora ensurdecedor da designer mineira Mary Arantes consigo mesma. Mais intensa do que nunca, ela desnuda a alma e se mostra inteira na coleção "Ó Pedaço de Mim".

Em sua completude, Mary é pedaço, parte, fração. É elo, corrente, contas, pedras, miçangas, fios, nós e fitas ao vento. É laço. É memória encontrada às cegas nos baús do tempo; é lampejo de ideias que desaparecem em um respiro e tornam a iluminar a criatividade quando o sono vem. "Acordei com o tema da coleção pronto na minha cabeça. A criação sempre me ronda à noite. É sempre quando durmo que ela me visita", revela. A criadora é criatura, de mente inquieta e aberta às intuições ritmadas do coração. Regida pela condição humana equilibra-se sobre a linha tênue que separa os territórios da loucura e lucidez no eterno conflito de criar, livre das amarras racionalistas.

A coleção convida a adentrar nos muros da criação, a visitar as celas que aprisionam a concepção dos acessórios antes deles ganharem formas, cores, proporções, sentimentos e poesia. Asas para adornar. Onde se vê anéis, colares, pingentes e braceletes leia-se inquietações materializadas em sonhos e desejos. Produtos originários da desordem programada e elaborados para habitar outros corações e mentes ansiosos pelo pedaço que complementa lembranças, satisfaz a autoestima, reforça a identidade e realça a beleza. "Eis aqui minhas pedras, trago-as para você, são contas coloridas, muranos, cerâmicas, ora lisas, ora floridas. Contos e contas que carreguei nestes mais de 30 anos de viagem. Fiz delas um grande acervo, muitas vezes engavetadas em lugares escuros", expressa a designer em ofertório, quase em oração.

Loucura Planejada e Desmedida

O desfile conceitual adota o status de transcrição do diálogo reticente que permeia o ato criativo. Trajando roupas de cor cinza - como se os pensamentos turvos e a opacidade que impede o real de vir à tona tivessem essa matiz - as modelos mimetizam o mundo paralelo e paralisante da alucinação, da insanidade que mutila, mas que acrescenta outras porções, outros pedaços. No simulacro da ausência de sentido, tudo transborda em lógica. "A estética megalomaníaca, avantajada, de dimensões e contornos duvidosos, foram loucamente planejados. Até mesmo a postura, braços amarrados, a estética, o andar ensimesmado na passarela. O peso das peças, algumas delas em forma de bolas, como grilhões. O excesso como fardo, mas também como liberdade. Liberdade de criação", explicita Mary sobre a inspiração tresloucada.

A coleção concebida a partir do sonho que revisita na sua adolescência a leitura do livro "Elogio da Loucura" (1508), do teólogo e filósofo holandês Erasmo de Rotterdam, traz em si a porção reflexiva e questionadora. Assim como no clássico da literatura greco-latina, a loucura é a verdadeira protagonista. É o todo construído em pedaços de insensatez, assinalando a intrínseca relação com a arte abastecida pela tarja preta (e cega) da paixão. Para Mary, a sensação que foge ao controle da razão desdobra-se em acessórios para gostos desmedidos. "Use-os no corpo, na sala, na cabeça, sobre um livro ou sobre um livro na cabeça. Não contêm bula, apenas uma 'tendência' a serem fora de moda". O conselho sem parâmetro é de um insensato coração.

Delírio na Passarela

Serviço: Mary Design