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Estética Sapeur para Café Preto: uma conexão do Congo com o Alto José do Pinho

O estilista pernambucano Eduardo Ferreira assina o estilo do vocalista Cannibal, da Banda Café Preto, com pitadas da sua recente coleção Alecrim
| Por: Raquel Medeiros

A devoção é pela elegância e a costura elaborada no fio da tradição alia-se à modernidade. Por trás do estilo irretocável - exposto na alfaiataria que abusa da silhueta enxuta e comprimentos mais curtos - está a assinatura do estilista Eduardo Ferreira. O olhar visionário, a concepção ousada e a produção atemporal que molda o figurino personalizam a imagem do vocalista Cannibal, à frente da banda pernambucana de influência reggae Café Preto. A inspiração está embasada nos "Sapeurs", homens que nas ruas da República do Congo alimentam o espírito através do bem vestir nas raízes da indumentária colonial francesa. No palco, a roupa excede a performance estética. Exalta a moda como troca de experiências que conectam África e Brasil em movimentos urbanos e culturais que pulsam na capital congolesa Brazzaville e nos caminhos do bairro Alto José do Pinho, em Recife.  

O resultado na figura impecável do cantor Cannibal é a síntese do requinte. O apuro calculado do estilista que revoluciona a cena da moda brasileira nos idos anos 90 com o Mangue Fashion (sob influência do movimento Mangue Beat de Chico Science & Nação Zumbi) encontra cumplicidade na atitude fashionista do também vocalista da banda hardcore Devotos. Para sua incursão na malemolência do dub e reggae, Eduardo alinhava referências contemporâneas e descarta padrões estabelecidos. "Cannibal tem uma relação intensa com a moda, ela é parte do seu dia a dia. De imediato me veio a inspiração nos Sapeurs, pelo significado essencial da elegância para ambos. Por outro lado, a estética desenvolvida encontra abrigo no ritmo jamaicano, onde letras e músicas são intensas, revolucionárias e espirituais", explica o designer pernambucano sobre os passos dados na idealização do que ele considera mais estilo que figurino.

O editorial "Sapeurs", com assinatura do fotógrafo Renato Filho e styling de Nestor Mádenes, registra a inspiração fundada no culto à sofisticação pelos homens congoleses filiados à Sociedade do Ambiente da Gente Elegante (SAPE). Cannibal veste ternos clássicos ajustados ao corpo e posa com desenvoltura destacando a construção de peças acinturadas e mais curtas que as medidas convencionais da moda masculina. As camisas roubam a cena: as proporções maximizadas dos punhos contrastam com os ombros de corte milimetricamente no lugar, fazendo-os parecer mais estreitos. Cores vibrantes e estampas exclusivas da recente coleção "Alecrim" - desfilada no Aurora Eco Fashion, realizado em Recife no último mês de novembro - dão o frescor tropical da alfaiataria sob medida. O estilo de dândi ultramoderno é finalizado com acessórios icônicos como sapatos bicolor, gravatas borboleta, suspensórios e bengalas de cabos esculturais. 

A harmonia do estilo desenvolvido por Eduardo para a identidade irreverente de Cannibal - às vésperas de gravar o segundo CD da banda Café Preto - traz uma composição permeada pela naturalidade. Ao longo de duas décadas músico e estilista são parceiros de projetos com origem no começo de suas carreiras profissionais. Iniciativas contínuas que frutificam nos territórios da moda, arte, música e ações sociais. Desde então, essa costura não se desfaz e a concepção de estilo é café pequeno para uma amizade encorpada, com pano pra mangas do segundo figurino.

 

A inspiração

 

Serviço:

Eduardo Ferreira
Atelier: Rua Caetés, 87. Apipucos, Recife-PE.
edu.designer@hotmail.com
(81) 8477.6355 |  (81) 9752.3237  

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