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O que pensaria o dândi Beau Brummell sobre a moda masculina do século 21?

Símbolo da excelência no vestir o inglês que desfilou a alfaitaria clássica da Savile Row ficaria surpreso diante da ousadia que assinala a moda masculina
| Por: Raquel Medeiros

Se o inglês George Beau Brummell - oráculo da elegância nos primeiros anos do século 19 - viajasse no tempo para inteirar-se no que acontece nas semanas de moda masculina do século 21 teria que repensar seu guarda-roupa austero, de trajes cortados à medida em lãs e tweeds de cores contidas. O figurino do dândi, alinhavado na tradição da avenida londrina Savile Row e seus alfaiates, exemplificaria o contraponto às apostas frescas com perfumaria floral na estampa, ousadia na composição dos ternos com shorts, silhuetas ajustadas e uma linha tênue e oscilante na definição aplicada ao gênero.

Sobre aspectos pontuais que marcam a temporada, deduziria Brummell que a indumentária masculina com a influência anglicana permanece nas silhuetas clássicas de grifes como Dior, Versace e Armani. Sentiria, ainda,  a satisfação de ver replicada a figura do dândi contemporãneo da Berlutti com chapéus, lenços e sapatos bicolores dominando toda a coleção. Em outras referências colhidas nas recentes passarelas de Londres, Milão e Paris poderia contextualizar um passeio na moda pomposa ditada pela monarquia francesa que sucumbiu às mudanças guilhotinadas pela revolução. As rendas nos ternos e casacos de Alexander McQueen, os brocados de seda da Gucci e os florais de Gaultier e Dries Van Noten já bastariam para assentir a inspiração en passant na corte de Luís XVI.

Do alto de sua pose calculada o fashionista que difundiu a impecável reputação dos ateliês do bairro Mayfair, em Londres (como os precursores Henry Poole & Co, Hardy Amies e Gieves & Hawkes), teria que aguçar o olhar para o homem moderno que habita sob a roupa. Com perspicácia, enxergaria outros perfis do sexo masculino distantes do seu tempo e afeitos a outras atividades além da caça para matar o tempo. Tribos varonis do dandismo contemporâneo como os Chaps (novos metrossexuais que valorizam produtos clássicos e de luxo); Übersexuais (sensíveis, vaidosos e amantes dos prazeres) e bobos (bohemian bourgeois ou burgueses boêmios resultantes da mescla hippie/yuppie com a rebeldia dos anos 70, o afã executivo dos 80 e a veneração tecnológica dos 90, como classifica o livro "Marketing de Moda", de Elsa Martinez Caballero e Ana Isabel Vásquez).  

Vaidades extremistas à parte, o inglês tomaria nota das mudanças comportamentais que vestem o homem dos dias atuais. Executivos, desportistas, educadores, artistas, profissionais liberais. Personagens da vida diária: solteiros por opção, divorciados que cuidam dos filhos e das tarefas domésticas, casados e bem resolvidos na escolha de seus pares. Nômades, habitantes de todos os lugares e pragmáticos na roupa que abriga e revela a própria identidade. Descendentes de outras revoluções que pautaram direitos de ir e vir e de assumir posições que desconstroem preconceitos. Um novo homem, "curado" dos rótulos que aprisionam e confortável sem imprimir esforços para conformar aparências. De espírito aberto, George Beau Brummell não ficaria indiferente às tantas possibilidades e assinalaria excelência no vestir como condição de liberdade. 

 

O ator James Purefoy como personagem central do filme Beau Brummell: This Charming Man (2006)