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Previsão de nostalgia para tempo de céu aberto

A temporada de desfiles demonstra uma atmosfera nostálgica, boêmia e retrô para o verão
| Por: Raquel Medeiros

Entre o minimalismo e o clássico, com a assimetria delimitando território em decotes, recortes e bainhas, o segundo dia de desfiles do São Paulo Fashion Week (terça, 19) enquadrou uma moda brasileira que está sintonizada no apelo comercial sem perder de vista conceito e qualidade. A temporada demonstra uma atmosfera nostálgica, boêmia e retrô para a estação de céu aberto. Resgata memórias culturais, faz soar melodias da bossa e costura referências identitárias, como bem faz Ronaldo Fraga a cada nova coleção.

 

Adriana Degreas: a marca contextualizou sua moda praia em ambientes que ultrapassam as faixas de areia e as bordas das piscinas. Todo o esplendor do Rio de Janeiro boêmio e sedutor - quando ainda era a capital brasileira na década de 1950 - influencia a coleção com estilo contemporâneo e sofisticado. As transparências dos tules- em alternância com outras faixas de tecidos - criam efeitos que burlam os olhos, fazendo pensar que polegadas extras de pele aparecem maliciosas na alternância com outros materiais.  Uma pitada retrô para modelitos de maiôs que enganam muito mais que mamães!

Acquastudio: na alta costura, a bússola da coleção. A navegabilidade no DNA de casas como Chanel, Jean Paul Gaultier e Dior trouxe à tona informações que foram repaginadas à própria história da marca que inventou moda no batismo do tema "navy couture".  O estilo de Esther Bauman não se distanciou da cartela clássica centrada no duo marinho e branco (off white). Essa fórmula de muitos verões somada às listras apareceu na alfaiataria e nos vestidos estruturados construídos em camadas de organza, tule e gaze.

Ronaldo Fraga: o Brasil mestiço entrou em campo no desfile de Ronaldo Fraga. Através do futebol, o designer mineiro escalou uma versão romântica do esporte enaltecida pela ginga e drible dos negros que começaram a integrar as equipes entre os anos 30 e 50.  A passarela ganhou conotações de um campo de terra batida como muitos existentes pelo país afora para dar passagem à sua moda que sempre narra histórias enraizadas na cultura brasileira. Na silhueta solta do designer, peças com referências dos uniformes, estampas de formas hexagonais subtraídas das bolas e detalhes de amarração com cadarços roubados das chuteiras. A cartela de cores primou pelo branco, vermelho e azul temperados com a energia do pink e verde limão. Vestidos, shorts, camisas, saias de corte evasê e blazers foram confeccionados em linho e seda pura. Como na trilha sonora do desfile que contou com a música de Jorge Ben Jor: "Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa".

Forum: o navy desliza nos acordes da bossa nova orquestrados para o verão da Forum. O marinho e o branco dão as cartas para um estilo dedilhado nos anos de 1960. A silhueta sensual foi referendada pelos decotes profundos e recortes laterais que expõem a pele ao sol. Os vestidos de seda, laise, e algodão cederam espaço aos curingas da alfaiataria. Para assessorar o marinho e branco da cartela de cores a diretora criativa da marca, Marta Ciribelle, fez um contraponto com laranja, verde e amarelo. As estampas com cordas cuidaram de amarrar o conceito náutico.   

Ellus: a Índia é o território do verão da Ellus. O espírito aventureiro da marca traçou uma viagem sobre duas rodas para motoqueiros urbanos ávidos em descobrir os segredos do Oriente. As jaquetas, o jeans lavado, as camisas que lembram as batas indianas deram as coordenadas para uma temporada de peças utilitárias marcadas pelos tons terrosos. Na estamparia, a camuflagem desbotada - quase empoeirada - esconde flores. Couro perfurado, organza metalizada, cetim, jacquard e algodão são materiais nobres para a coleção que é bem comercial, mas nem por isso com prazo de validade que se esgota no fim da estação.

Desfile de Ronaldo Fraga: o futebol foi a inspiração que fez da passarela um campo de várzea