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O amor que move a moda

Nos desfiles do primeiro dia do SPFW uma leitura do amor dos criadores com suas criações
| Por: Raquel Medeiros

O que move a moda, senão o amor pela criação? Cada peça, cada coleção nasce de um desejo de dar forma às inquietações apaixonantes que habitam a mente e alma dos criadores. Acalentam sentimentos transformados em cores, modelagens, recortes, brilhos, transparências, bordados... Amor movido pela metamorfose que materializa tecidos, linhas, vieses, fios, lantejoulas, botões e canutilhos em frutos que logo vestirão e adornarão corpos para desencadear - como o cupido - outra avalanche de paixão no jogo sedutor da conquista. Não só a conquista do outro. Mas, de si próprio, onde a satisfação pessoal é o melhor reflexo do espelho. No São Paulo Fashion Week-Verão 2013, os designers escancaram suas apostas de amor e o primeiro dia de desfiles é uma prova de como são incondicionais e fiéis às suas emoções.

alexandre herchcovitch

A canção - que enche de melodia tantos amores - é o tema inspirador de Alexandre Herchcovitch. O cantor britânico Boy George, um dos ídolos do estilista, está convertido em referência para a coleção focada nos coloridos anos 80. Música como proporção, cores e efeito ótico do quadriculado que monopoliza as peças. Formas simples, amplas, estruturadas com ombreiras e marcadas pela intensidade da cartela em tons de amarelo, verde, pink, marinho, preto e branco. As linhas retas de vestidos, saias e blusas acolhem as curvas do coração que surge estampado e contrastante na rigidez do xadrez. Uma reverência à moda e à música - que casou na voz de Boy George - o soul com o blues.   

animale

O afeto que por meses alimenta o processo criativo reverbera como extensão do criador. Para Priscilla Darolt, estilista da Animale, seu amor pousa sobre a África. Externa um território livre dos estereótipos das estamparias animais e mergulha na natureza exuberante das savanas para colher suas cores terrosas e douradas. O safári urbano reveste-se de couros e camurças, mas não esquece a ousadia das transparências em vestidos lânguidos e sofisticados.  A música "Man on Fire", de Edward Sharp and the Magnetic Zeros, ecoa como mensagem romântica no desfecho da passarela: "I wanna see our bodies burning like the old big sun". Na liberdade do português: quero ver nossos corpos queimando como o velho e grande sol.

tufi duek

Para o amor, flores!  Na versão de Eduardo Pombal, estilista da marca Tufi Duek, elas invadem a coleção do verão. Não com a obviedade da estampa, mas emprestando a estética leve e delicada de suas estruturas diversas. O livro "Botânica Magnífica", de Jonathan Singer, fornece as texturas, formatos e cores que fazem brotar em seda, tule, couro, tafetá e organza as peças pensadas para os dias de luminosidade. As pétalas podem ser "lidas" nos vestidos como capas fluidas e sobrepostas de tecidos ou nos babados que se derramam em adornos. Sensualidade e beleza cultivadas com sutileza.

fh por fause haten

A criação é multicolorida, marcada pelo amor artesanal de vieses de tons sobrepostos e contrastantes transformados em vestidos, saias e tops.  A coleção sensual da FH por Fause Haten arrebata desejos. Transparências, recortes, fendas e decotes delineiam um universo feminino tematizado pelo mistério e fetiche que a noite esconde. A música do próprio Hatem - em parceria com André Cortada - foi interpretada no desfile pela cantora Paula Lima. Na letra, um bilhete apaixonado para um verão apaixonante:

"Acordei de marrom, cabelos vermelhos,
barulhos de copos, risadas à toa,
cinzas de cigarro, um brilho que cai.
Te vejo no fundo, perdendo olhares"

triton

O Oriente das tradições abastece o verão da Triton. A marca mergulha na cultura japonesa e demarca Tóquio como cenário inspirador para o processo criativo. Esquivando-se de traduções habituais, a estilista Karen Fuke soma recortes urbanos da capital do Japão às referências que marcaram a estética da moda dos anos 80. Cores, estruturas arquiteturais, tecidos brilhantes e dobraduras recordam as vestimentas de tradições milenares. O quimono desconstruído está ao lado de shorts e macacões com estampas de jacquard. A moda, como o amor, não tem limites e tudo é possível.