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Jean-Paul Gaultier: quebrando as regras da moda

O estilista francês de passagem pelo Brasil prestigia o lançamento do documentário sobre sua trajetória e lançamento do novo filme de Pedro Almodóvar
| Por: Da Redação
Jean-Paul Gaultier: quebrando as regras da moda

Os amantes do cinema e da moda estão se deliciando na expectativa de ver Jean-Paul Gaultier por trás das câmeras. Não, desta vez ele não ataca de diretor, nem é mais uma de suas obras-primas do figurino cinematográfico. É a vida do próprio que  o tem como protagonista do seu enredo. O documentário "Jean-Paul Gaultier - Quebrando as Regras", dirigido pela ex-modelo argelina Farida Khelfa chega ao Brasil com a presença da diretora e do próprio estilista francês para participar do 13º Festival de Cinema do Rio, que acontece até o dia 18 de outubro, na Estação Sesc Botafogo, Rio de Janeiro.

O filme é um delicado registro da carreira e da vida pessoal de um garoto considerado imaginativo e muito solitário, que trocou aos nove anos de idade, os jogos de bola e aulas de ginástica por desenhos, croquis inspirados nas bailarinas do Folie Berger. Ao invés de ser discriminado pelos colegas da turma, começou ali a descobrir seu talento e caminho para fama. Em entrevista para o portal UOL durante o lançamento do filme, Gaultier lembra o fato: "Para me humilhar, minha professora prendeu um desses desenhos nas minhas costas e me obrigou a desfilar pela sala de aula. Mas o resultado foi o oposto do que ela esperava: as meninas e os meninos ficaram admirados com os croquis e me pediram para desenhar retratos deles. Além de sair do ostracismo, aquilo me serviu como estímulo para continuar desenhando", narra o início da grande trajetória de um dos nomes mais inventivos da moda internacional.

Filho único, Jean-Paul recebeu apoio da mãe e da avó, consideradas suas grandes incentivadoras na criação. O filme com imagens e fotos de arquivo vai revelando aos poucos os passos em direção à moda e a sua consagração como estilista. Desde o início da vida profissional, aos 18 anos, quando trabalhava como desenhista no ateliê de Pierre Cardin, até a decisão de traçar o próprio destino autoral na moda em 1977. A história é contada com bastante emoção através do encorajamento do seu ex-companheiro Francis Menuge, morto em 1990 pelo vírus da Aids. A vida do estilista famoso não foi fácil. Como todo aventureiro no seleto mundo da moda, o espaço teve que ser conquistado com muito profissionalismo, diferencial e um bocado de sorte. O documentário narra estes tropeços com o mercado da moda e as dificuldades encontradas por sua visão transgressora da criação, por suas escolhas de  uma beleza não-convencional e ousadia no que apresentava nas passarelas na década de 80.

Não deu outra. O talento superou os limites convencionais da moda. Jean-Paul Gautier conquistou o respeito e credibilidade da crítica especializada e dos outros nomes consagrados da moda mundial. Caiu no gosto de todo mundo quando vestiu a cantora Madonna com seus famosos corsets  e sutiãs cones na turnê  "Blond Ambition", no início dos anos 90, ou as transgressoras saias masculinas. Virou ícone, considerado o "Enfant Terrible"  da moda francesa. O documentário encomendado pela TV francesa France 5 narra em 52 minutos esta e outras histórias do francês que fez a moda tremer aos seus pés

A pele que habito

O cinema sempre teve influência na vida do estilista francês. Com esta paixão criou icônicos figurinos para filmes cults como "O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante" (1989), de Peter Greenaway, "Ladrão de Sonhos" (1995), de Marc Caro e Jean-Pierre Jeneut, e "O Quinto Elemento" (1996), de Luc Besson. Mas foi com Almodóvar, seu parceiro ilustre na arte de criar peles para almas nômades dos personagens, que Jean-Paul Gaultier entrou de vez na história do cinema mundial. Em "Kika" (1993), veste uma futurista Victoria Abril ressaltando o universo kitsch do diretor espanhol. Já em "Má Educação" (2004), a estética camp é protagonizada por Gabriel Garcia Bernal que veste  um vestido  de muitos brilhos que remente à pele nua de um corpo feminino.

Mais uma vez Almodóvar o escolhe para encarnar a criação do figurino de  seu novo filme, "A pele que habito"(2011) através da personagem Vera, interpretada por Elena Anaya,  que veste uma espécie de segunda pele que cobre todo o seu corpo e tem como função esconder suas cicatrizes. O filme narra a  história de bem-sucedido cirurgião plástico Richard Legrand, interpretado por Antonio Banderas, que, após a trágica morte de sua esposa que tem o corpo completamente incinerado em um acidente. O médico não tem limites para se transformar no monstro que faz de tudo em busca de uma "pele perfeita". Pedro Almodóvar e Jean-Paul Gaultier de uma forma ou de outra, nos vestem perfeitamente no mundo dos sonhos e da imaginável pele que nos habita.