Moda

/Porque é tendência estar bem informado

O crochê tece a trama do verão

A técnica artesanal figura como tendência pelo valor identitário e cultural
| Por: Da Redação

O crochê é um dos "fios condutores" da moda atual. Impulsionado pelo valor do artesanal que marca território frente à efemeridade do tecnológico, a trama executada no manejo suave e delicado da linha e agulha estrutura peças que sobem as mais conceituadas passarelas de moda do mundo, enfatizando, sobretudo, os anos 70 do hippie chic e dos badalados verões de Saint Tropez. É o "feito à mão" resgatando a visibilidade da arte ancestral e primitiva para contrastar com a produção high tech, digital, automatizada por botões que num abrir e fechar dos olhos acionam agulhas, fazem correr fios, produzem amarrações, tecem metros e metros de telas, rendas e tecidos...

Há um novo olhar sobre a moda. Um magnetismo que direciona à simplicidade do fazer, que enaltece o caráter único, original e personalizado. Na técnica do crochê, a linha quase dança entre os dedos, acompanhando a ordem da agulha que desdobra o único movimento de puxar o fio em ações múltiplas capazes de elaborar volumes, texturas e desenhos em possibilidades infinitas, do tamanho da imaginação e inventividade de quem realiza.

Dentro do ápice do artesanal que dita tendências, a técnica do crochê - que tem em sua base o elo - soa como lição de vínculo que aproxima passado e presente. Elos que formam correntes, que unem a criação, que conectam arte inspirada em memórias afetivas, emoções, momentos, recortes da natureza... Concepções que vêm do entorno e da cultura arraigada em saberes longínquos que chegam aos dias de hoje como uma premiação à resistência de ser sepultado pelo novo. Uma prova do quanto o antigo é imprescindível para narrar nossas histórias atadas a costumes seculares.  

O crochê é elaborado na paciência do ir e vir da agulha que encoraja o fio a ganhar formas ilimitadas. Parte dos pequenos elos que se agigantam em correntes e estas, por sua vez, em pontos e tramas perfeitas. Pontos alto, baixo, baixíssimo e relevo são algumas denominações do passo-a-passo dessa arte que se reveste de sofisticação em novos materiais e modelagens para criar roupas, acessórios e peças decorativas. Uma tecitura adornada pelo calor e energia de mãos hábeis que têm formatado narrativas e sentimentos a partir da simplicidade de um fio. E é isso que fortalece o "ponto" da moda, porque entrelaça e faz do valor humano a verdadeira tendência.

História enlinhada

A origem está "enlinhada" na trama da história e ninguém foi capaz de desvendar a ponta do fio que deu início à arte do crochê. A denominação tem raízes em termo de um dialeto nórdico a partir do vocábulo "croc" - que como no francês - significa gancho e estabelece relação com a ponta encurvada da agulha.  

Teorias recentes foram elencadas pelo pesquisador e escritor dinamarquês Lis Paludan, ao mapear a procedência do crochê na Europa. Ele aponta a hipótese do surgimento na Península Arábica e sua inserção no continente europeu através da Espanha, pelas rotas comerciais do Mar Mediterrâneo no século XVI. 

Mas outras suposições não estão descartadas. Existem pistas posteriores onde tribos indígenas americanas adotavam adornos de crochê em rituais de passagem para a puberdade. Na China antiga, essa técnica era conhecida como forma primitiva de costura. Até 1800, as evidências são pouco esclarecedoras sobre a origem ou  idade desta arte que se tornou popular na França e Inglaterra e depois ganhou o mundo.