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A década marcada pela contracultura dita as tendências do verão 2012

As referências da alegre e conturbada década de 70 aportam no verão 2012 e reeditam ícones da moda em novas texturas, estampas e modelagens
| Por: Da Redação

Blue jeans, disco music, psicodélico, hippie, flower power... Saindo do túnel do tempo os termos que são referências da alegre e conturbada década de 70 aportam no verão 2012 reeditando ícones da moda em novas texturas, estampas e modelagens. Nas lojas os cabides vão pendurar vestidos longos e lânguidos, saiões franzidos, macacões, pantalonas e túnicas. O "velho" índigo - símbolo da geração paz e amor - assume lavagens diversas e modelo do tipo flare (nova denominação da boca de sino). Com camisetas ou camisas, faz par perfeito para o revival do espírito libertário apregoado pelos "malucos-beleza".

A atmosfera dos anos 70 que impregna as coleções do verão 2012 foi oxigenada para vestir personagens do século XXI. As fichas foram postas no bloco de cores (color bloking), no mix de estampas das listras com o liberty (floral miúdo), em materiais como couro e camurça e na fluidez e brilho dos tecidos. Os detalhes ficam por conta do toque artesanal: crochê, franjas, rendas, plumas e bordados. Tudo remete à contracultura da moda onde o ousado e criativo era personalizar as peças e fugir da estética comportada.

Nas passarelas europeias as grifes italianas Marni e Missoni repaginaram o floral cheio de cores vibrantes enquanto a casa francesa Dior recuperou o crochê e as estampas geométricas. A americana Marc Jacobs também seguiu à risca o visual da época em tecidos nobres e complementos que exageram nas flores. Na releitura setentinha, as brasileiras Neon e Blue Man colaram no color blocking e nas franjas. A Amapô e a Coca Cola Clothing apresentaram o jeans délavé que traduz maciez e conforto mesclados com t-shirts, batas e camisas.

Mosaico de Estilos

Eclética, a década de 70 foi romântica, despojada, esportiva, naturalista, étnica, futurista, andrógina. Um verdadeiro mosaico de estilos que únicos - ou combinados entre si - compõem um guarda-roupa extremamente democrático. Nessa miscelânea de referências, destaque para as mais emblemáticas que reposicionam peças dentro das tendências que aguardam dias de luz e festa do sol:

Hippie - Pantalonas, túnicas bordadas, saias longas, vestidos românticos salpicados de flores, macacões de estampas geométricas e psicodélicas, blusas em crochê.  Acessórios exóticos como turbantes e flores para o cabelo e muitas contas e pedras nos braceletes e maxi colares.

Étnico - Tecidos indianos, estampas africanas ou de outras culturas imprimem relação de pertencimento. Os temas aterrissam na África pop, no apache urbano, na selva global e no glam tribal. Saias, vestidos, jaquetas e camisetas materializam o estilo.

Índigo - Escuro, clarinho (délavé) ou em tons dégradé vai dar forma às calças flare, pantalonas, vestidos, mini saias e shorts.

Color Blocking - Os tons vibrantes (azuis, amarelos, laranjas e verdes) vão fazer referência à época disco e tingir camisas, saias, vestidos, shorts e macacões em tecidos fluidos e, às vezes, com brilho. Uma mesma produção pode reunir até três cores. Apesar dessa cartela que é a cara do verão, não faltarão os neutros (beges, cinzas e caquis) e os brancos com gamas de off white.

As produções são complementadas por bolsas com franjas, lenços,chapéus, óculos coloridos, cintos largos, maxi bijus, espadrilhas (sandálias com base de corda), anabelas altíssimas, mocassins de saltos grossos e rasteirinhas abotinadas.

Flower Power: a contracultura do paz e amor!

O fim da moda dos cem anos (meados do século XIX até metade da década de 60) que consolidou a alta costura e uniformização do vestuário vai aos poucos dando lugar a uma gente mais colorida, diferente,criativa e cheia de referências de múltiplas culturas.Um patchwork de estilos. Cabelões desgrenhados, roupas largas, pinturas nos rostos, androginia, flores nas cabeças, nas roupas e no corpo.

O que está por trás da moda dos anos 70? Nas entrelinhas mergulha na história para mostrar como ela foi usada como resposta aos conflitos vividos na sociedade da época, uma crítica política que trouxe para o cenário a juventude com vontade de fazer a diferença. O movimento da contracultura, dos hippies e da anti-moda protestava contra a falta de liberdade, os padrões rígidos da moral, a Guerra do Vietnã, a censura, a ditadura militar, a recessão, a cultura de massa e tudo o que foi contrário aos padrões vigentes daquele tempo.  Moda agora era comunicação e a nova estética pedia liberdade sexual e de expressão, direitos iguais para homens e mulheres, pacifismo, respeito aos negros, às variedades étnicas, ecologia, crenças diferentes, democracia.

O valor estético que compunha as roupas, o jeito do cabelo, os acessórios e as pinturas tinham a intenção de marcar um discurso: "somos o que queremos ser". Os jovens passaram a se reconhecer num tipo de moda que expressava seus próprios desejos. Ela era comunicação, com forte apelo à individualização da criação e a experimentação de regras estéticas comuns. Os códigos foram multiplicados e o modo de vestir caminhava em várias direções, representando valores, gostos, comportamentos.

Multiculturalismo

A década se adentrava e uma das maiores referências da moda foi a inserção da calça jeans como peça definitiva da juventude através da marca Levi Strauss, além do brilho e purpurina na proposta futurista e andrógina, personificada na figura do cantor camaleônico David Bowie.  Aos setentistas tudo pode ser usado: desde o romantismo da cultura do paz e amor com roupas de algodão, crochês e babados à influência do  glam-rock e psicodelismo com grafismos e plástico brilho mesclados às pistas de danças das discotecas. Influências da cultura oriental com as batas indianas, da cultura indígena americana com franjas e camurças e do estilo africano, com estampas étnicas e muitas miçangas. Florais, psicodelismo, sapatos plataformas, roupas de poliéster, saias  e vestidos longos combinados às calças coladas ao corpo. A palavra de ordem na moda era multiculturalismo e todos queriam vestir este caldo cultural.

No Brasil, a grande referência cultural e simbólica pode ser verificada com o movimento do tropicalismo, nos parangolés do artista plástico Hélio Oiticica, nos figurinos do grupo Os Mutantes (que projetou Rita Lee), de Ney Matogrosso extravagante no ainda Secos & Molhados. Nas discotecas, a imagem de Sonia Braga - na novela Dancin Days - com suas sandálias altas, meias lurex, muito brilho e todos abrindo as asas, soltando as feras e caindo na gandaia na festa nos anos 70.