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Arte, corpo e sexualidade explícita na fotografia de Robert Mapplethorpe

| Por: Raquel Medeiros

A personalidade controversa e enigmática revela-se na obra. O fotógrafo e explorador da sexualidade velada encontram-se no papel de trazer à tona reproduções carregadas de questionamentos sobre moralidade, homossexualidade e os limites do que convém chamar ou não de arte. Robert Mapplethorpe é considerado um dos maiores ícones da fotografia do século 20 e denota no jogo de luz e sombra das imagens em preto e branco o poder dos nus provocativos (quase estatuários) e das flores contextualizadas como símbolos fálicos. O americano nascido em Nova Iorque (1946), em um lar de educação católica no Queens, ganhou status de documentarista do cenário gay sadomasoquista e tem sua obra exposta na retrospectiva homônima exibida no Grand Palais, em Paris, até 26 de julho. 

A exposição com colaboração da Fundação Robert Mapplethorpe apresenta 200 fotografias com foco na dimensão clássica do trabalho do artista e a obsessão pela perfeição estética. As imagens cobrem toda a sua trajetória - desde o início dos anos 1970 com retratos em Polaroid - até a morte prematura em 1989, aos 43 anos, causada pela Aids. O tema da feminilidade, tratado como uma abordagem pouco conhecida dos seus registros - está centrado nas figuras da poeta-performática Patti Smith (com quem manteve um relacionamento) e da fisiculturista Lisa Lyon.

Crônica do Momento Perfeito

Cercada de questionamentos sobre o que diferencia arte e pornografia e quem dispõe de autoridade para tal julgamento, a obra de Mapplethorpe é lida como uma crônica da cena sadomasoquista nova-iorquina e da experiência de capturar a beleza humana com o esmero do escultor que se empenha no resultado da forma perfeita sobre a pedra. Uma paixão por simetria e equilíbrio em cada fragmento do corpo arquitetural. "Fui para a fotografia porque ela parecia o veículo perfeito para comentar a loucura da vida de hoje", declara Mapplethorpe no livro biográfico escrito pela jornalista Patricia Morrisroe pouco antes de sua morte.

Os recortes do universo sadomasoquista regado a drogas e embalado pela música underground é a origem do Portfolio X. Um conjunto de 13 imagens de personagens masculinos (obtidas em gelatina de prata) que em 9 de dezembro de 1988 integra a mostra "O momento Perfeito", realizada  no Whitney Museum of American Art com subvenção do National Endowment for the Arts. Consideradas escandalosas, as fotos aguçam um debate feroz nos Estados Unidos sobre a censura e o financiamento público das artes.

Cancelamentos da série da exposição em galerias, protestos, restrições aprovadas pelo Senado e um tribunal colocam Mapplethorpe e sua obra no centro de uma discussão moralista e religiosa. Dennis Barrie, diretor do Contemporary Arts Center, em Cincinnati (Ohio) desafia as proibições e inaugura "O Momento Perfeito" em 7 de abril de 1990. Ele vai a julgamento acusado de obscenidade. A tarefa do júri é determinar se um cidadão comum - aplicando referências da comunidade em que vive - consideraria que as fotografias voltadas às práticas sexuais ofensivas e aos interesses lascivos carecem de valor artístico. Os jurados atestam a lascívia, mas não acordam sobre o mérito da arte. "Não sou uma especialista", afirma James Jones, membro do júri e gerente de um armazém. "Não entendo a arte de Picasso, mas presumo que as pessoas que chamam aquilo de arte sabem do que estão falando".

 

Serviço:

Grand Palais e Fundação Robert Mapplethorpe

Para saber mais sobre Mapplethorpe acesse: Artsy.net