Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Holi Holy: o filme de moda vai além do figurino

O curta idealizado pelo estilista hindu Manish Arora expõe a moda na condução de uma história que rompe tradições e padrões estéticos
| Por: Raquel Medeiros

A moda está em cartaz. Os festivais de cinema especializados no gênero ganham prestígio e os curtas reposicionam o novo conceito de apresentar editorias em movimento. Os roteiros surpreendem com histórias densas, aglutinadoras de recortes culturais, temas políticos e sociais. O olhar se espraia e atravessa fronteiras além do figurino. A sexta edição do renomado A Shaded View on Fashion Film (Asvoff) - realizada durante a recente semana de moda de Paris - ainda está fresca e convida à apreciação de "Holi Holy", o filme vencedor do grande prêmio. A produção exala sensibilidade na envolvente narrativa sobre as viúvas da cidade de Varanasi, na Índia, que rompem a tradição secular para celebrar pela primeira vez o Holi, festival das cores em homenagem à primavera.

Idealizado pelo designer indiano Manish Arora e com direção de Bharat Sikka, Holi Holy exerce um poder hipnótico. A força da fotografia às margens do Rio Ganges, o magnetismo da música, a energia mística, os personagens reais, as cenas cotidianas sem retoques e as modelos não convencionais elencam razões que sublinham a originalidade do filme ancorado na moda. O mergulho na história das viúvas apartadas do convívio mostra dor, solidão e submissão à herança cultural. Os sáris brancos das mulheres contrastam, propositadamente, com a luz escassa das cenas e o brilho dos pós coloridos que se espalham no ar como nuvens.

As cores representam um ritual de passagem no cenário poeirento e nas vidas sem sabor. Formatam a transição simbólica que concede às viúvas momentos de contida alegria e aceitação social. O arco-íris cintilante abre o portal que revela as criações da alta-costura de Manish Arora. Vibrantes nos tons, opulentas na riqueza dos bordados, sedutoras nas formas. A personagem principal interpretada pela cantora e performer Bishi Bhattacharya pontua a inserção da moda que tinge de tons as ruas da cidade. Sua voz ecoa como uma oração. Sagrada como o Ganges, como os gaths (escadarias), o pôr-do-sol e a própria Varanasi, cidade do recomeço.