Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Moda e Literatura: um vestido vermelho de ramagens no sertão de Vidas Secas

Na obra regionalista de Graciliano Ramos um trecho da narrativa centrada na família de retirantes faz das vestes elo com a urbanidade e as tradições culturais
| Por: Raquel Medeiros

Na aridez do Sertão que o escritor Graciliano Ramos apresenta em Vidas Secas a vegetação viçosa é uma ilusão em meio a paisagem desértica. Um tesouro escondido na narrativa estéril da estiagem nordestina e que brota em ramagens - por ocasião especial - no vestido vermelho de Sinha Vitória, protagonista do núcleo familiar que compõe a história dos retirantes. Na descrição do autor é possível imaginar a folhagem como elemento essencial à colheita de olhares e reflexões mais doces sobre o cotidiano, onde a roupa nova é a protagonista dos dias festivos.

Em um dos mais importantes romances regionalistas da literatura brasileira - publicado em 1938 dentro da segunda fase modernista - a vida dura e miserável entranhada na voracidade da terra ressequida também revela momentos inundados de contentamentos nas passagens construídas pelo figurino que estende o elo com as tradições identitárias e culturais. Na rota poeirenta da fuga, a família integra-se à vida social e urbana ao trocar trapos por vestes engomadas complementadas por sapatos.

No oitavo capítulo do livro, intitulado "Festa", o escritor alagoano veste a família para as celebrações do Natal. Saltam das páginas absortas na dor, miséria, exploração e exclusão social um trecho em que o vaqueiro Fabiano, Sinha Vitória, os dois meninos e a cachorra Baleia - tão humana quanto os demais personagens - dirigem-se à igreja na conformidade idealizada por eles próprios e pelos demais habitantes do lugar diante dos símbolos da fé e das simbologias da civilização.

 

A narrativa e a moda contemporânea:

"Fabiano, apertado na roupa de brim branco feita por Sinha Terta, com chapéu de baeta, colarinho, gravata, botinas de vaqueta e elástico, procurava erguer o espinhaço, o que ordinariamente não fazia. Sinha Vitória, enfronhada no vestido vermelho de ramagens, equilibrava-se mal nos sapatos de salto enorme. Teimava em calçar-se como moças da rua - e dava topadas no caminho. Os meninos estreavam calça e paletó. Em casa sempre usavam camisinhas de riscado ou andavam nus. Mas Fabiano tinha comprado dez varas de pano branco na loja e incumbira Sinha Terta de arranjar farpelas para ele e para os filhos. Sinha Terta achara pouca a fazenda, e Fabiano se mostrara desentendido, certa de que a velha pretendia furtar-lhe os retalhos. Em consequência as roupas tinham saído curtas, estreitas e cheias de emendas."

Berluti, Paris Verão 2013

 

"Os dois meninos espiavam os lampiões e adivinhavam casos extraordinários. Não sentiam curiosidades, sentiam medo, e por isso pisavam devagar, receando chamar a atenção das pessoas. Supunham que existiam mundos diferentes da fazenda, mundos maravilhosos na serra azulada. Aquilo, porém, era esquisito. Como podia haver tantas casas e tanta gente? Com certeza os homens iriam brigar. Seria que o povo ali era brabo e não consentia que eles andassem entre as barracas? Estavam acostumados a agüentar cascudos e puxões de orelha. Talvez as criaturas desconhecidas não se comportassem como Sinha Vitória, mas os pequenos retraíam-se, encostavam-se às paredes, meio encandeados, os ouvidos cheios de rumores estranhos."

 

Valentino, Haute Couture-Primavera-Verão 2013 

 

"A igreja cada vez mais se enchia. Para avistar a cabeça da mulher, Fabiano precisava estirar-se, voltar o rosto. E o colarinho furava-lhe o pescoço. E as botinas e o colarinho eram indispensáveis. Não poderia assistir à novena calçado em alpercatas, de camisa de algodão aberta, mostrando o peito cabeludo. Seria desrespeito. Como tinha religião, entrava na igreja uma vez por ano. E sempre vira, desde que se entendera, roupas de festa assim: calça e paletós engomados, botinas de elástico, chapéu de baeta, colarinho e gravata. Não se arriscaria a prejudicar a tradição, embora sofresse com ela. Supunha cumprir um dever, tentava aprumar-se. Mas a disposição esmorecia: o espinhaço vergava, naturalmente, os braços mexiam-se desengonçados."

Sew Lati, Verão 2014

 

"Homens rudes, uns brutos. Mas homens."

O romance regionalista foi publicado em 1938