Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

O floral secular de William Morris oxigena a moda

Dos papéis de parede às estampas têxteis, os florais da Era Vitoriana esboçam tendências
| Por: Raquel Medeiros

Os florais concebidos pelo inglês William Morris (1834-1896) seguem intactos, resistentes às intempéries. Transcorridos pouco mais de 150 anos desde o ápice criativo do designer que liderou o movimento Arts and Crafts (Artes e Ofícios) como resposta à produção industrial em larga escala, os ramalhetes nascidos para revestir paredes na forma de papel decorativo saltam para os tecidos e seguem desabrochando na moda contemporânea. O resgate da arte com raízes na Era Vitoriana contextualiza um capítulo da história em que a criação de conceito artesanal mobiliza uma estética de identidade local mais comprometida com o humano e a natureza.  

Na representação de flores - misturadas às folhas, frutos e arabescos - está a seiva mais elaborada com que Morris nutre a arte centrada nos ofícios tradicionais. Agora, ela volta a circular e oxigena sem discrição inspirações de marcas como as italianas Prada, Gucci e Just Cavalli e a belga Dries Van Noten. Esta última, antecipa na recente coleção da Primavera 2014 uma incursão pelo Musée des Arts Décoratifes, em Paris, onde no próximo ano exibirá uma retrospectiva da própria trajetória. Os florais vistosos adotados na roupa masculina evidenciam o sentido mutante da alfaiataria clássica ornada pelos tecidos com perfume nostálgico.

A paixão pela natureza é característica indissociável da arte de William Morris e a delicadeza das flores estabelece o vigor do seu trabalho. O talento nato consolida em 1861 a casa Morris & Co. Dedicada ao mobiliário e decoração, produz uma série de mais de 50 papéis de parede e meia centena assinada por outros designers que passam pela empresa tornada célebre na Inglaterra. A observação fundamenta o método do artista e as plantas existentes nos seus jardins ou encontradas nos passeios campestres constituem a inspiração. Imagens de ervas em xilogravuras datadas do século XVI, manuscritos e têxteis florais formatam importantes referências para a criação desnuda da pretensão de plasmar uma reprodução literal do real.

 

Mar de flores para o Tâmisa   

Um conjunto de padrões idealizados como tributo ao Rio Tâmisa figura entre os projetos memoráveis do designer. Ao todo, são sete os florais batizados com nomes de afluentes do rio que banha Londres: Cray, Evenlode, Kennet, Medway, Wandle, Wey e Windrush. O elo de ligação entre os desenhos de 1883 reside nas formas sinuosas que conduzem o olhar a navegar por ondas suaves. Linhas mais expressivas encontradas nos caules e nas folhagens são uma tradução caudalosa do rio. Outras, de menor visibilidade, traçam um fluxo errante dos afluentes e córregos que alimentam o volume de água ao longo dos 346 quilômetros de extensão. A sinuosidade simbólica extraída da observação conforma a declaração do amor de Morris pelo Tâmisa e seu cenário de margens decoradas pela vegetação em flor.  

A sensibilidade do artista - também tradutor, editor, pintor e poeta - extrapola a obra. Considerado o designer e teórico de arte mais importante na Grã-Bretanha do século XIX, seu discurso - de matiz socialista - revela à época certa preocupação com o consumo exacerbado e uma visão crítica em detrimento da homogeneização dos produtos e da proteção do meio ambiente ameaçado pela Revolução Industrial. O regresso à natureza configura seu convite mais premente. A moda do tempo presente coloca o plano em curso, com um caminho florido. 

 

Dries Van Noten, Primavera/Verão 2014

Gucci, Primavera/Verão 2014

Prada, Primavera/Verão 2014

Just Cavalli, Resort 2014

Serviço:

Morris & Co

William Morris Gallery