Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Economia Criativa: a riqueza intangível é o elemento concreto para o desenvolvimento

Criada há um ano a Secretaria da Economia Criativa esboça ações instrumentais para a implementação do modelo econômico baseado na diversidade cultural
| Por: Raquel Medeiros

Criatividade, conhecimento, cultura e tecnologia. A homogeneidade destes ingredientes dão a liga para a Economia Criativa que redimensiona o novo formato de desenvolvimento econômico e inclusão social. O Brasil acerta o passo e a sintonia com o direcionamento global de investir na indústria de bens e serviços fundamentada na diversidade cultural, apoiada nas políticas públicas e tratada como insumo de inovação. Quando completa um ano de existência, a Secretaria da Economia Criativa comemora ações importantes na estruturação do Plano Brasil Criativo. Ambicioso, o projeto destina-se a inserir o País na lógica do crescimento que conecta a cadeia produtiva dos segmentos criativos. A riqueza intangível, invisível e simbólica é agora o que há de mais concreto para o desenvolvimento local e regional.

Moda, design, artesanato, literatura, arte, música e tecnologia são alguns dos territórios propícios à disseminação dos arranjos produtivos que a Economia Criativa acolhe. A guinada do Brasil em percorrer este caminho acompanha o fluxo das experiências bem sucedidas em países da Ásia e Europa. Mas, o que aos olhos e ouvidos parece novo é parte das ideias vanguardistas do economista Celso Furtado já no início dos anos de 1970. O paraibano nascido em Pombal (1920) foi precursor nas investigações que estabeleceram o vínculo entre o desenvolvimento econômico e as manifestações culturais.  Sua visão plural expunha a tessitura da economia com os fios da história, da evolução social e patrimônio cultural.

A percepção do ex-ministro da Cultura no governo de José Sarney (1986-1988) e um dos fundadores da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) segue atual. Na prática, a engrenagem que alavanca a Economia Criativa é o diálogo interdisciplinar. Vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), a Secretaria da Economia Criativa trabalha em parceria com pelo menos 13 ministérios. A convergência pauta a execução de ações, projetos e programas para fomentar o empreendedorismo (seja de proporção micro, pequena, média ou grande), valorizar a economia solidária e explorar os caminhos embasados na sustentabilidade. A transversalidade governamental ganha status de combustível. Faz deslanchar - de forma harmônica - o modelo de desenvolvimento que assinala o século 21 com ideias inovadoras capazes de suplantar o esgotamento dos métodos da indústria tradicional.

A métrica e a linguagem da revolução criativa

A economia do intangível é revolucionária. Propõe novas visões de mundo, incita reflexões sobre o entorno, levanta outras bandeiras estéticas e reclama mudanças de prumo para navegar em um emaranhado de referências que priorizam os saberes ancestrais, o valor humano e a preservação do patrimônio simbólico. Também é pragmática. A consolidação do Plano Brasil Criativo exige bases e instâncias legais e toda uma leva de medidas que ladrilham a construção do projeto. Na condução da Secretaria da Economia Criativa a mestra e doutora em sociologia, Cláudia Leitão, explica que os desafios são inúmeros. "É um processo lento, mas, responsável. As primeiras ações são estruturais e estamos trabalhando muito para o escopo legal. Fizemos importantes articulações fora da pasta. Nossa força é a parceria", adverte a secretária.

O primeiro ano de formalização da Secretaria abre muitas frentes de trabalho e constitui parceiros essenciais. Na largada das ações o conhecimento da realidade do País continental e culturalmente diverso requer um mapeamento de informações seguras. A produção de dados está a cargo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que elabora a confecção da Carta Satélite. Para Cláudia, essa base confiável é essencial para dar corpo aos Observatórios da Economia Criativa e identificar as nascentes criativas espalhadas pelo Brasil. A expectativa é dispor da ferramenta em 2015.

A Carta Satélite ainda não é uma realidade; no entanto, a evolução da Economia Criativa já se apresenta em língua portuguesa para consulta. No final de maio último, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) lançou o Relatório de Economia Criativa 2010. Traduzido para o português, a segunda publicação bianual sobre os segmentos criativos no mundo está disponível no link do Observatório Brasileiro da Economia Criativa (Obec). O documento é um manancial de dados que delineia criatividade, conhecimento, cultura e tecnologia como plataformas propulsoras na criação de empregos, em inovações e inclusão social.

Elos que conectam ações

Em cada ação um elo. O mapa do conhecimento é também a conexão com a educação e formação. No início de agosto, no Rio de Janeiro, será inaugurada o primeiro dos 12 Criativas Birôs previstos para o ano em curso. Trata-se de escritórios que funcionarão como centros de apoio na orientação e elaboração de negócios. A meta é fornecer consultorias nas áreas de gestão, recursos humanos, assessoria jurídica e financeira, além de capacitação profissional e informação técnica sobre o setor que abriga a iniciativa empreendedora. A implementação dos escritórios mobiliza o Sebrae (e demais entidades do Sistema S como Sesi, Senai, Senac e Sesc), governos estaduais e universidades públicas.  

No estímulo à pesquisa, Cláudia Leitão comemora a recente medida do MinC com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) que coloca à disposição recursos na ordem de até R$ 5 milhões para o apoio de projetos com foco na Economia Criativa. O Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) será o gerente dos fundos e está referenciando os critérios que destinarão verbas às fundações. A secretária ainda aponta outro desdobramento importante para o setor que passa pelo viés da educação: a criação de cursos de formação técnica e superior dirigidos aos segmentos culturais.               

As ações sequenciais esboçam, ainda, o fomento aos arranjos produtivos. Em sintonia com a abertura dos Criativas Birôs nos estados, linhas de crédito financiadas pela Caixa Econômica Federal (CEF) farão parte do balcão de apoio que conta com a consultoria do Sebrae. "O empreendedor terá recursos para a abertura do negócio e todo o acompanhamento necessário para que ele prospere", argumenta a secretária da pasta.

Conhecimento, institucionalização, educação, fomento. A estes mecanismos acionados de modo quase sincronizado soma-se a definição dos marcos legais que devem reger a economia criativa brasileira. A tarefa de cunho burocrático está ancorada nos seminários que se desdobram em todo o País. Coletivamente, a Secretaria discute propostas de instrumentos legais nas áreas trabalhista, tributária e previdenciária. Medidas aplicadas, diagnósticos colhidos e experiências partilhadas concorrem para fortalecer a ideia de uma economia intangível cada vez mais sólida e real. A revolução já começou.    

 

Serviço:

Secretaria da Economia Criativa

Observatório Brasileiro da Economia Criativa - OBEC

Relatório da Economia Criativa 2010 (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento)

* Foto principal: Estandarte da Casa da Cultura de Paraty. O bordado do artista Julinho Paraty destaca festejos religiosos da cidade.