Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Memórias da casa onde "quem manda é o freguês"

Há mais de três décadas a "Casas José Araújo" veiculou publicidades com jingles que até hoje compõem as memórias de uma geração
| Por: Raquel Medeiros

Os jingles integram a memória de uma geração. Três décadas depois de entrarem nas salas de estar de milhões de nordestinos - durante o horário nobre da televisão - repousam mudos nos arquivos da Internet. Acionados pelas ferramentas de busca eles despertam em um clique, rebobinam o tempo e contam histórias dos festejos populares e da roupa nova para suas celebrações. Reapresentam a "Casas José Araújo" - loja especializada na venda de tecidos desde 1890 - e célebre na região Nordeste por suas antigas campanhas publicitárias. Cada produção rendia homenagens às tradições ancestrais, enquanto dirigia o chamado à freguesia para adquirir os cortes de fazendas e fazer bonito na festas.

A ciranda na praia, o arraial junino, a procissão de fé, o bloco de carnaval, o frevo...  O calendário cultural abasteceu nos anos de 1970 e início da década seguinte um punhado de ideias que transformavam as propagandas da empresa pernambucana em atrações capazes de aglutinar as pessoas diante dos aparelhos de televisão. Compunham um coro uníssono! As imagens que foram vistas e revistas nas telas côncavas tornaram-se raras e não estão disponíveis para saciar a nostalgia. Mesmo assim, o menu musical exerce o poder de reconstruir na lembrança as cenas cotidianas que casavam com perfeição junto às canções de versos simples. Algumas, na voz imponente de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

No intervalo de novelas da época como Pecado Capital, Duas Vidas, O Astro e Dancin' Days as peças publicitárias desenvolvidas pela agência Itaity mantinham os telespectadores presos aos sofás. Constituíam uma programação à parte, com deliciosas melodias e imagens que antecipavam comemorações profanas e religiosas cheias de simbolismos arraigados na cultura nordestina. Uma das mais emblemáticas fazia menção à Nossa Senhora da Conceição e o jingle reside até hoje no imaginário popular como um hino litúrgico: "Senhora da Conceição/Minha Mãe, Minha Rainha/Dai-me a vossa proteção/Minha querida madrinha/Vela acesa, subo o morro pra pagar minha promessa/Vou vestir azul e branco/Pra pagar eu tenho pressa/As Casas Zé Araújo fazem essa louvação/Com o povo rendem graça à Virgem da Conceição".

Emoção como Ingrediente

Os ritos sacros, o folclore, a feira livre e as belezas naturais da região foram cantarolados com vigor. "As coisas do meu Nordeste são bonitas de lascar/Uma boneca de feira de pano toda enfeitada /Coisas de gente bem simples que não é sofisticada/No precinho José Araújo todas compram sem chorar/Costurando sua roupa, roupa nova vai usar/Um vestido por semana e a vizinha vai pensar: Rica é aquela mulher que sabe economizar". A receita aparentemente simples tinha na emoção o ingrediente principal. Colocava em cena momentos e memórias afetivas partilhados pelo telespectador que via o próprio reflexo dentro dos roteiros exibidos. O publicitário Carol Fernandes, da Itaity, foi perspicaz na manipulação destes elementos.  

A agência é parte do passado, mas, arrebatou prêmios importantes com as criações que estão registradas nos Anuários da Publicidade. A casa de tecidos desfruta do privilégio de chegar ao século 21 arroupada pelo carinho das pessoas que acompanharam uma das fases mais representativas de sua trajetória. Um tempo em que se cantava assim: "Tem feira nas Casas Zé Araújo/Oxente, vamos lá comprar/Tem pano, retalho à beça, resto de peça, pra se comprar/Tem saldo no tabuleiro/Com pouco dinheiro você vai levar/Tem feira nas Casas Zé Araújo/Oxente, vamos lá comprar/Oxente, vamos lá comprar/Tem feira nas Casas Zé Araújo/Oxente, vamos lá comprar". No dito popular que enaltece a propaganda como a alma do negócio, o slogan morava na ponta da língua: "Aqui quem manda é o freguês".

 

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