Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

“O Grande Gatsby”: o protagonismo do figurino

As roupas e acessórios formatam a narrativa que assinala a modernidade visceral dos anos 20
| Por: Raquel Medeiros

A estética dos anos 20 retoma a cena. Ocupa as telas do cinema na adaptação de Baz Luhrmann para "O Grande Gatsby", célebre romance americano de F. Scott Fitzgerald. A interpretação do cineasta para a década revolucionária - revisitada em preto e branco nas fotografias de álbuns e arquivos digitais - decifra uma história matizada pelas cores nacaradas assistidas pelo brilho do ouro, das pérolas e pedras preciosas. O enredo assinalado pela moral desprendida - sobretudo das mulheres - tem no figurino o protagonismo da feminilidade incontida e compõe em decotes e bainhas reveladoras a ousadia inerente à moda contemporânea. O filme que reúne Leonardo DiCaprio, Carey Mullingan e Tobey Maguire no elenco estreia no Brasil em 7 de junho e demonstra o poder da indumentária como fio condutor de uma narrativa de liberdade.

O vestuário que reinventa os anos 20 para a nova versão de "O Grande Gatsby" traz parcerias equiparadas ao adjetivo que titula o filme. Ao lado da figurinista Catherine Martin a estilista italiana Miuccia Prada colabora com 40 modelos, enquanto a grife de joias Tiffany&Co empresta seus diamantes em forma de braceletes e colares maximizados, evidenciando a extravagância da era embalada pelo jazz. A sofisticação elabora a imagem das flappers, as mulheres que desdenham das convenções e escandalizam a sociedade do pós-guerra com seus cabelos de corte "la garçonne". As nucas de fora somam-se à maquiagem marcante - atribuída às prostitutas - e comportamentos tipicamente masculinos como praticar esporte, fumar e beber em público.

A silhueta livre dos espartilhos e artificialmente andrógina ganha movimento nos vestidos tubulares contaminados pela estética dominante da Art Déco. Predominam as linhas retas, estilizadas, as formas geométricas e o design abstrato. O estilo clean entra no filme com as melindrosas adequadas aos coquetéis e festas noturnas que ambientam o romance do milionário e misterioso Gatsby (Leonardo DiCaprio) por Daisy (Carey Mullingan). A seda e o veludo em tons verde jade, azul topázio e dourado refletem o brilho dos bordados em cristais e a proteção de estolas de pele contextualiza a absorção da moda europeia pela ociosa burguesia nova-iorquina.

Em sua essência requintada e transgressora, o figurino de "O Grande Gatsby" já arrebatou um Oscar em 1974, com o roteiro adaptado por Francis Ford Coppola. A história de amor encenada por Robert Redford e Mia Farrow vestiu os trajes concebidos por Theoni Aldredge. No contexto atual, onde a indústria da moda é tão cinematográfica quanto os filmes que ocupam as telas, as chances de repetir a estatueta são concretas para a produção construída com personagens que têm a vestimenta como linguagem de uma modernidade visceral.   

 

Os loucos anos 20 estão na moda

"O Grande Gatsby" inspira o editorial da Vogue americana/Maio 2013, com fotografia de Mário Testino