Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Histórias de uma passarela parisiense

Fim do prêt-à-porter invernal de Paris e as histórias contadas na passarela continuam abertas à leitura
| Por: Raquel Medeiros

A moda é uma grande contadora de histórias... Imaginárias, autênticas, surreais, românticas ou poéticas. Consumada, a semana prêt-à-porter de Paris se desfaz do burburinho em torno das surpresas arquitetadas para o outono-inverno 2013-2014 e pode agora ser apreciada na condição de um compêndio de fatos e aventuras protagonizados por personagens devidamente forjados em seus trajes. Roupas e acessórios idealizados para conformar identidades visuais que embrulham perfis elaborados na criação sob medida não só para cobrir corpos, mas, para vestir sonhos, reflexões e desejos.

Cada desfile, um capítulo. Histórias de mundos distantes e de heróis e heroínas que saltam aos olhos quando cruzam a linha que separa o backstage da passarela. Enredos costurados com elementos dos tesouros da literatura infantil e dos cartoons ou com a herança de dinastias adormecidas. Episódios que brotam das telas do cinema, da mitologia, da arte de pintores imortalizados em pinceladas que ainda emocionam e das tribos urbanas que impactaram por suas indumentárias e comportamentos contestadores. As narrativas também resgatam do passado a trajetória particular das próprias marcas que são parte indubitável da história da moda contemporânea.     

Como páginas ainda abertas à degustação literária, os conteúdos dos desfiles perduram carregados de elementos que instigam o leitor a devorar minúcias, a entender a proposta criativa narrada em tecidos, estampas, formas, volumes, cores, bordados e texturas. Os relatos embutidos nas coleções se apropriam de uma linguagem que exalta detalhes como palavras-chave. Assim como fez Valentino ao mergulhar na pintura de Johannes Vermeer e dela extraiu cores luminosas para uma coleção acentuadamente romântica; Alexander McQueen com vestidos armados capturados na corte inglesa e clero do século XVI, durante a monarquia Tudor e Christian Dior que viajou em suas memórias desde o lançamento do "New Look", em 1947, com o icônico tailleur Bar. A maison francesa ainda fez dos vestidos verdadeiras telas com impressões dos primeiros desenhos de Andy Warhol, reproduções das obras surrealistas de Salvador Dali e do impressionismo de Giacometti. Linhas, agulhas, botões, tesouras e alfinetes culminaram em histórias apresentadas em uma plataforma hipnótica de espectadores com olhos bem abertos.

 

Vestido Dior com reprodução da obra de Warhol "Female Head" (1958)