Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

A fotografia ousada e poética de Jeanloup Sieff

O fotógrafo francês inovou a fotografia de moda com sensualidade e estética deliberadamente gráfica
| Por: Raquel Medeiros

O presente de aniversário, aos 14 anos, delineia o começo da carreira. A Photax - câmera fotográfica de material plástico - chega pelas mãos do tio e aciona o foco de sua curiosidade vivaz e experimental. Jeanloup Sieff, o parisiense de origem polonesa nascido em 1933, logo assimila a vocação de fotógrafo nunca satisfeito com o óbvio. O olhar criterioso molda a captura de poesia que somada à força, ousadia e sedução resulta na construção de imagens planejadas capazes de manter o espectador absorto no jogo de luz e sombra e no diálogo dos planos e proporções.  

O vício cultivado na adolescência adquire corpo e amplia cliques que logo alcançam a moda com uma linguagem que rompe estereótipos e transcende a linha simplista e ora rígida no enquadramento de modelos em seus trajes perfeitos. Os estudos de filosofia e jornalismo estão na biografia, mas, é a fotografia que norteia cada passo. O caso de amor "em preto e branco" tem a assinatura do freelancer que no ano de 1953 publica algumas fotos no Photo Journal. A condição de profissional é formalizada em 1961, quando passa a colaborar ativamente com as edições internacionais da Vogue. Neste cenário é dada a largada para o portfólio memorável que acompanha a própria evolução da fotografia de moda e toda a sua influência de luxo e sensualidade que rega o mundo moderno.

A nudez em variantes tons de cinza

A nudez de Sieff não é castigada. Ganha uma aura de arte, ainda que guardados os limites da conveniência de torsos nus e outras polegadas de intimidade nos corpos à mostra, folheados nas páginas publicitárias entre as décadas de 1960 e 1970. A irreverência de Yves Saint Laurent estabelece um marco. Totalmente despido, o designer francês se deixa imortalizar coberto apenas pela armação dos seus óculos. A foto icônica - produzida em 1971 para o lançamento de sua primeira fragrância - revela mais que músculos da silhueta esguia em variantes tons de cinza. O corpo emoldurado por um halo de luz abre a porta para discussões que versam sobre tabus, escândalos e preconceitos.

Para além da Vogue, ele empresta seu talento à Esquire, Twen, Glamour, Queen, Elle e Harper's Bazaar. Os pés mantidos entre a França e as visitas intermitentes à Polônia nos tempos da infância percorrem outros solos. São conduzidos pelas lentes da câmera - uma extensão dos seus olhos - a pisar territórios como a Turquia, Itália, Grécia e Estados Unidos. Idas e vindas que rendem importantes prêmios de fotografia e condecorações dentro e fora do seu país de origem. À fama não faltam celebridades congeladas em cenas que se mantêm frescas. Alfred Hitchcock, Jane Birkin, kate Moss, Catherine Deneuve e Twigg são algumas das personalidades que repousam nos arquivos, intocadas pelo tempo.

O lado irrequieto que também captura a expressão da dança, paisagens e retratos estabelece um flerte da moda com a realidade própria da reportagem. Os editoriais fora dos estúdios roubam a displicência da cena urbana com todos os seus transeuntes, onde a modelo não ocupa necessariamente o primeiro plano. Em outros momentos, a ousadia ainda abusa da estética de linhas gráficas marcada pela presença do personagem em miniatura. O detalhe traduz uma característica particular entre as centenas de imagens do acervo produzido ao longo de 50 anos. Até sua morte, em 2000, o ofício foi tomado como roteiro de vida assim descrito: "Minhas fotos são todas as pedras pretas e brancas que eu lancei para encontrar o caminho que me trouxe de volta à adolescência". Verdadeira paixão à primeira vista.

Yves Saint Laurent, 1971

Para saber mais: jeanloupsieff.com