Costurando Idéias

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Os vestidos de Frida Kahlo

Exposição revela a relação do vestuário de Frida com sua fragilidade física e etnicidade
| Por: Raquel Medeiros

A casa azul foi território de uma vida inteira. Da infância trágica, dos tempos de romances tórridos e da criação que trouxe para o interior dos cômodos uma explosão de cores ambientadas nas telas que ganharam o mundo. Transformada em museu, a edificação tem também o tom da dor. Dor física e de amor. Intensa e passional como a personalidade da própria Frida Kahlo (1907-1954), a pintora mexicana aclamada como um dos nomes artísticos mais importantes da América Latina. Agora, o Museu Frida Kahlo - Casa Azul, na Cidade do México, abre suas portas para revelar segredos recentemente descobertos em espaços até então mantidos intocados. Roupas, joias e acessórios saídos de baús e armários lacrados desvelam a relação do ícone da arte com a moda. Denominada "As aparências enganam: os vestidos de Frida Kahlo" a exposição organizada em parceria com a revista Vogue México terá início em 22 de novembro deste ano e promete fazer história.

A pedido do muralista Diego Rivera (1886-1957), marido de Frida, os pertences pessoais da esposa deveriam permanecer encerrados durante certo período depois que ele também falecesse. O desejo foi mantido até 2004. Transcorridos 50 anos após a morte da pintora - vítima de uma pneumonia - as fechaduras dos banheiros, baús e armários de roupa foram abertas. Vieram à tona documentos, fotografias, obras plásticas e uma coleção têxtil do guarda-roupa de Frida Kahlo, composta por mais de 300 peças. Muitas ainda exalando o cheiro de perfume e odor de cigarro. Vestidos, saias, blusas, meias, anáguas, calças, corseletes, camisas, xales e trajes de banho.  

A referência identitária e a influência na arte

A ideia central da exposição é explorar a identidade de Magdalena Carmen Frida Kahlo Calderón, revelada através da imagem peculiar que ela construiu com seus trajes. "Na forma de vestir de Frida é possível reconhecer a criatividade e o profundo sentido do colorido que tinha a artista. Sua roupa, além de ser em si uma maneira de esconder debilidades físicas e emocionais, traduzia seu temperamento. Sua vestimenta foi um elemento fundamental na construção de sua forte personalidade que fez transcender na história da pintura do século XX", comenta Carlos Phillips, diretor geral dos museus Diego Rivera y Frida Kahlo.

Com curadoria de Circe Henestrosa - encarregada de outras exibições no Victoria and Albert Museum de Londres - a mostra propõe a fragilidade física e a etnicidade como componentes de interpretação que alimentaram a decisão de Kahlo pelo uso da indumentária étnica de diversas regiões do seu País. Nas salas de exibição poderão ser vistas fotografias, joias, sapatos e 40 vestidos selecionados entre as peças encontradas.

Excentricidade na Vogue ontem e hoje

O estilo de vestir de Frida Kahlo abrigou particularidades. Abusou do armário masculino e expressou predileção por vestes longas que escondiam uma perna mais curta e fina, decorrente da poliomielite na infância. O trágico acidente de ônibus, aos 18 anos, dilacerou seu abdômen e quase destruiu sua coluna. Razão para os trajes soltos e em camadas que disfarçavam o corselete rígido que lhe ajudava a suportar as dores nas costas. Mais do que compor uma imagem, a indumentária não negligenciava personalidade na ousadia de cores, texturas e estampas. Elementos que denunciavam a influência da cultura indígena mexicana que repetidamente permeou o seu trabalho e sua vida. O excesso de acessórios, as sobrancelhas grossas e o cabelo preto - trançado ou em um coque no alto da cabeça - formatavam uma figura considerada "démodé".

A excentricidade de Frida chamava atenção e a forma diferenciada de sua vestimenta foi alvo do interesse da revista Vogue estadunidense em outubro de 1937. Sob as lentes do fotógrafo Toni Frissell a publicação expôs uma imagem impactante da artista mexicana que reverberou no mundo da moda. Kelly Talamas, diretora editorial de Vogue México e América Latina assegura que esta foi uma das razões do museu em escolher a revista como parceira da mostra cultural. A Vogue México, edição novembro de 2012, traz Frida como garota da capa e um suplemento com mais de cem páginas onde curadores, artistas, escritores e historiadores da arte tratam de desvelar o enigma de Kahlo. A edição especial - digna de colecionadores - inclui reportagem com designers contemporâneos como Rei kawakubo e Jean Paul Gaultier que elaboraram coleções inspiradas na moda e obra da pintora.   

"Um mosaico visual que reproduz o universo de um enigma chamado Frida Kahlo, em que qualquer aparência engana", adianta um comunicado da revista. Para arrematar, a edição ainda contém o artigo "Diego e Frida, transgressores", no qual recupera texto inédito do curador Ricardo Pérez Escamilla  (que assessorou o resgate dos arquivos de Frida e Diego Rivera na Casa Azul) sobre o relacionamento entre os dois pilares da arte e da cultura mexicana. O mesmo documento convida à reflexão: "O paradoxo de Frida", assinado pelo historiador de arte Luis Martín Lozano, ex-diretor do Museu de Arte Moderna da Cidade do México, além de autoridade máxima sobre a vida e obra da pintora. "Consagrar-se como artista nunca foi a meta de Frida Kahlo. Queria ser feliz", declara.

 

VÍDEO: Las Apariencias Engañan

 

Serviço:

Exposição As aparências enganam: os vestidos de Frida kahlo

Museu Frida Kahlo - Casa Azul - Cidade do México

Abertura: 22 de novembro de 2012