Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

O futuro aconteceu no passado

Durante a corrida espacial a moda conquistou o universo intergaláctico com novas formas e materiais
| Por: Raquel Medeiros

Na moda não há barreiras e o céu não foi o limite na década de 60. O "universo" que aqueceu os sonhos dos Estados Unidos e da União Soviética durante a guerra fria foi o mesmo que alimentou criadores empenhados em antecipar e vestir o futuro. Novos materiais saíram da zona de experimentação e nas mãos de estilistas como Paco Rabanne, Pierre Cardin e André Courréges deram formas às vestimentas do tempo que existia em suas mentes inquietas e apressadas em conceber, modelar e costurar o que para muitos não passava de ficção. Estava deflagrada a era espacial nas passarelas.

A propulsão do ultramoderno seguiu o rastro deixado pelo russo Iuri Gagarin, primeiro homem a viajar pelo espaço em abril de 1961. A volta completa em torno da Terra acirrou a disputa tecnológica e abriu um leque de inspirações infinitas. A ideia fixa de conquistar a Lua estabeleceu a arrancada da moda com os pés no futuro. O francês Courréges largou na frente e em 1964 colocou a coleção minimalista Moon Girl nas vitrines. "O look da 'garota lunar' incluía complementos brancos: enormes óculos de sol e um chapéu estilo capacete. A liberdade de movimentos era primordial e as jovens modelos calçadas com botas sem salto desfilaram com brincos leves", pontua Emma Baxter-Wright no livro Moda Vintage (editora Parramón), no capítulo que descreve os anos de 1960.  

À mesma época, a inovação de Pierre Cardin também contribuiu para alargar o portal da moda sideral. A coleção Cosmos representou a nova arquitetura do vestir, com uma expressão da cultura jovem retratada em cores vivas, tecidos techno, brilhos e recortes. O futuro proposto foi além das formas e cultivou o sentido de autonomia e emancipação. Essa percepção ultrapassou as barreiras relacionadas aos gêneros para assinalar a moda compartilhada por homens e mulheres. A roupa unissex entrou na órbita do século 20. 

Um grande salto para a moda

Em 1968, a heroína Barbarella dominou o status de ícone do futuro. A personagem saída dos quadrinhos do francês Jean-Claude Forest ganhou vida no cinema e se apoderou das curvas sinuosas e dos lábios carnudos da atriz Jane Fonda expondo a mais clara tradução da atmosfera que transcendeu o presente. O diretor Roger Vadim assegurou poderes e sensualidade à guerreira. O estilista Paco Rabanne cuidou do resto. Vestiu o corpo escultural da aventureira no ano 40.000 potencializando a estética erótica no combate às criaturas alienígenas e aos robôs que ameaçavam a ordem nas galáxias.

O figurino de Paco Rabanne simbolizou experimentos no campo da moda em sintonia com a juventude ansiosa por aventuras em novos conceitos ligados ao moderno. A configuração da Barbarella excitante e demolidora através do guarda-roupa foi forjada em mosaicos de metal, fios de nylon, plástico e cabos de fibra ótica. Os materiais pouco convencionais e integrados à visão contemporânea do momento contextualizaram o cenário da era espacial no filme que entrou para a galeria cult do cinema. As peças arquiteturais e visionárias consolidaram um grande salto para a moda, antes de Neil Armstrong - em julho de 1969 - pisar a Lua e narrar em gravidade zero o momento do salto gigantesco para a humanidade.

 

VÍDEO: o poder estético de Barbarella