Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

De repente, vintage!

A moda do início da década de 90 agora tem etiqueta e sabor vintage
| Por: Raquel Medeiros

De repente, 20. Quase como um passe de mágica, o princípio dos anos 90 ganha rótulo de vintage na história da moda. Olhando para trás, o transcurso de duas décadas escreve um enredo de histórias sociais, políticas e econômicas que também podem ser contadas abrindo um armário, dissecando um álbum de fotografias ou puxando pelo fio da memória para passar roupas e acessórios em revista. No papel de segunda pele que cobre o corpo, a vestimenta esmiúça detalhes da metamorfose inquieta que molda a sociedade e seu tempo.

O vintage do princípio dos anos de 1990 tem sabor de grandes transformações.  É a abertura da última década do milênio que chega com a recente queda do muro de Berlim - em novembro de 1989 - e coloca um ponto final nos 28 anos que dividiram a Alemanha em dois blocos. No Brasil o desejo de futuro passado a limpo já começa com a primeira eleição direta concretizada e Collor de Mello no posto da presidência da República. O país respira a globalização, novas posturas e questionamentos. A roupa externa os sentimentos de mudança e a moda brilhante e exagerada pelo uso das ombreiras faz a transição para as formas simples do minimalismo.  O estilo de vida saudável e o culto ao corpo, impulsionado pelo esporte, dividem preocupações com um olhar político mais apurado sobre direitos das minorias, cidadania e meio ambiente.

Nos moldes da televisão, do cinema e da música

Na tela da televisão brasileira o horário nobre da Rede Globo dita tendências com o figurino da novela Meu Bem, Meu Mal, de Cassiano Gabus Mendes. O elenco com Silvia Pfeifer, Lidia Brondi e Vera Zimmerman projeta clássicos da alfaiataria como as pantalonas e a fluidez dos vestidos trapézios. A calça jeans? Atende pelo nome de baggy, com cintura no lugar, quadris largos, pernas afuniladas,  fazendo parceria inseparável com camisas amarradas que desalinham o estampado xadrez.

A democratização do vestir acolhe o clássico e o básico da moda urbana. Há espaços para a amplidão do grunge (rock alternativo) personificado na banda Nirvana e a sensualidade no pop de Madonna. Os ritmos que fazem ecoar novas tribos dividem audiência com imagens. A série americana Beverly Hills (Barrados no Baile) conquista o público do Brasil e inspira tendências e comportamentos juvenis. Atinge a faixa etária que logo seria chamada de caras-pintadas no movimento estudantil de 1992 que foi às ruas pelo impeachment do presidente Collor.

Calça azul e desbotada

Além das fronteiras e do enquadramento televisivo, o cinema intervém no figurino real através das personagens Thelma e Louise (Geena Davis e Susan Sarandon, sob a direção de Ridley Scott, 1991). Liberdade é o sentimento absolutista traduzido no jeans que protagoniza o feminino contestador das duas amigas que embarcam em uma viagem sem retorno. A calça azul e desbotada também registra a atmosfera descompromissada das convenções no corpo do coadjuvante ainda desconhecido, Brad Pitt.  

O que está posto nas ruas e nas manifestações culturais da época exterioriza recortes das passarelas. Agora, recuperado nas gavetas e cabides com a chancela de vintage (nome apanhado no vocabulário que designa uma boa colheita de vinho), integra um arquivo da safra de estilos semeada na aurora de 1990.  O começo de um período pluralista para estilistas nacionais como Lino Villaventura, Maria Bonita, Alexandre Herchcovitch e Ronaldo Fraga e a consagração de nomes internacionais como Calvin Klein, Versace e Marc Jacobs. Para "degustadores" da moda do passado, os primeiros frutos dos anos 90 já podem ser colhidos.  

 

VÍDEO: De olho no passado, com Thelma e Louise