Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Amado Jorge, divina Gabriela!

No remake da novela Gabriela, adaptação do romance de Jorge Amado, o figurino veste os sonhos femininos dos modernos anos 20
| Por: Raquel Medeiros

A figura feminina e sedutora de pele cor de canela surge da inventividade traduzida em palavras. Adjetivos doces e verbos carregados de erotismo em descrições perfeitas que a colocam no imaginário do povo brasileiro. Os cabelos encaracolados, as curvas sinuosas, o olhar intenso e os seios transbordantes nos decotes dos vestidos de algodão compõem a personagem do romance Gabriela, Cravo e Canela que não poderia ter saído de outra mente que não fosse a do escritor Jorge Amado. Em homenagem ao centenário do autor (1912-2001), as palavras saltam novamente do livro publicado em 1958 e são transformadas em imagens. Ganham novas cores, corpos e paisagens no remake da novela da Rede Globo que exibirá o primeiro capítulo nesta segunda-feira (18), às 23 horas. A moça bonita de pele dourada ao sol volta à Ilhéus dos anos 20 para transitar entre as transformações sociais também expostas nos modos e no figurino que abraça a modernidade.

Da urbanidade construída pelo poderio dos coronéis donos das fazendas de cacau, a adaptação de Gabriela (por Walcyr Carrasco) reproduz a cidade pulsante do litoral sul da Bahia em plena época de liberdade e prosperidade. Passados 37 anos, as cenas que retornam à tela da televisão - desde que a novela de Walter George Durst foi exibida em 1975 - guardam muita proximidade com a produção original que é considerada um marco da teledramaturgia brasileira. A sensualidade da protagonista vivida pela atriz Sônia Braga passou à pele de Juliana Paes para contar a história da retirante do sertão nordestino que busca na cidade grande a sobrevivência e encanta o árabe Nacib, dono do bar Vesúvio. A jovem com cheiro de cravo e cor de canela descobre um mundo novo, onde convenções sociais e valores morais não cabem em sua personalidade transgressora.

A década que veste a liberdade

A liberdade feminina explorada por Jorge Amado é um dos fios condutores do romance que volta à tela da televisão. Não só para Gabriela que é instintivamente livre e vai alterar a ordem natural da cidade com sua presença marcante, mas, para outras personagens que respiram nas mudanças de ares da modernidade a dissolução de hábitos e tradições. O figurino da novela assinala em cada uma delas os desejos de transformações para a sociedade conduzida essencialmente pelo pulso masculino.

Os anos 20 que vestem a obra emblemática de Jorge surgem na novela como os mesmos que alteram o cenário da moda na Paris daquela época e acabam influenciando o mundo. À exceção da simplicidade dos vestidos de algodão que pouco esconde o corpo de Gabriela - sobretudo no princípio da trama - as demais mulheres surgem requintadas em franjas, plumas, rendas e sedas dos vestidos tubulares complementados pelas pérolas, chapéus cloche e laçarotes. A figurinista Labibe Simão assina a produção e brinca com o jogo contrastante das cores e texturas. 

A roupa expõe ombros, braços e tornozelos até então escondidos sob mangas sufocantes e saias que lambem o chão. Cortes, recortes e comprimentos encurtados revelam sonhos e desejos. Como os da moderna Malvina que aspira estudar e fugir do casamento orquestrado pela família ou a ousada Luiza Valdetaro, neta do temido Coronel Ramiro Bastos, que não abre mão de viver o amor incontrolável pelo progressista Mundinho Falcão. Em outra esfera social, as meninas do bordel Bataclan, sob o comando de Maria Machadão (Ivete Sangalo), anseiam transitar como qualquer dama da sociedade. Trajes e adereços delineiam o retrato de mulheres inquietas com o modelo social resistente às fórmulas do moderno que fez a abertura dos portos e escancarou a renovação cultural, política e econômica.

Palavras traduzidas em números

As palavras que constituíram um tesouro através de histórias que reproduzem a identidade brasileira são lidas em números que alcançaram projeções importantes. O autor de Gabriela criou um universo paralelo habitado por personagens forjados na simplicidade, nos regionalismos, nas crenças e na miscigenação de povos e culturas que residem no mesmo território. São 45 livros publicados em 54 países e 48 idiomas. Um montante de 30 milhões de exemplares vendidos. De títulos como Dona Flor e seus dois maridos, Terras do sem fim, Capitães de Areia, Tieta e Tenda dos Milagres  escapam particularidades e personalidades que se assemelham a tantos outras da vida real, com a cor e perfume que só o cotidiano do Brasil dispõe.

No centenário do baiano nascido em 9 de agosto de 1912, em Ferradas, na região cacaueira do sul da Bahia, as homenagens fazem aflorar memórias da vida e obra do romancista mais publicado além das fronteiras do país.  O quinto ocupante da cadeira de número 23 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 1961, acabou confundido com sua própria literatura. Um misto de autor e personagem que contava histórias bem brasileiras, em um caldeirão cultural com o tempero e a pimenta que só ele sabia dosar. Amado Jorge!

 

Serviço

Exposição "Jorge Amado e Universal" - Museu da Língua Portuguesa