Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

O exotismo secular do qipao

O tradicional vestido chinês completa um século desde que foi transformado em ícone de requinte
| Por: Raquel Medeiros

No período das entreguerras, de reorganizações políticas e deslocamentos populacionais, Shangai vivia um momento de euforia. A Paris do Oriente, como era chamada a cidade localizada na costa leste da República Popular da China, respirava ares cosmopolitas com a presença de europeus e japoneses em seu cotidiano. Os "loucos" anos 20 e 30 foram tomados por sons e danças que lotavam os salões noturnos de clubes e cabarés. À luz do dia, nas ruas, a tradição assinalava o território na elegância das mulheres vestidas com o qipao. Trajavam a roupa típica da cultura chinesa, também batizada de cheongsam. A mesma peça que com o declínio da Dinastia Qing (ou Manchu), em 1912, foi reinterpretada e agora completa um século influenciando a moda Oriental e Ocidental com sua estética exótica e longilínea.

O traje secular atravessa gerações impregnado de referências e simbologias culturais de uma época mítica. O auge vivido pelo qipao (leia-se tchipao), no início do século 20, não guardou total fidelidade à forma ancestral que se confundia com a própria identidade dos agricultores que viveram no Império da Manchúria. A modelagem larga, longa e de mangas compridas que cobria o corpo de homens e mulheres foi ajustada. No molde feminino passou a ser revelador, exibindo curvas até então escondidas sob a amplidão dos tecidos.  

O esplendor da seda e da sedução

A distinção da vestimenta que há um século ostenta a tradição chinesa aparece na seda ricamente bordada, na gola alta e nas aberturas laterais que delicadamente encontram a bainha e roça o chão. Depois do esplendor no ambiente de modernidade que antecedeu os anos 40 e um curto período da prosperidade da década seguinte, o vestido saia de cena. Sua proibição atendia ao rigor da Revolução Cultural Chinesa, colocada em prática em 1966 por Mao Tsé-tung, como um pé no freio em todo o processo material, cultural e tecnológico do país. Sob o lema da "roupa igual para todos" a moda adotou o traje dos líderes maoístas. Os emigrantes que fugiram para Hong kong foram, em grande parte, responsáveis pela manutenção da vestimenta que ainda surge altiva em cerimônias formais.

Distante dos tempos áureos em que foi sinônimo de elegância e luxo, o cheongsam incorpora releituras de desenhadores do Oriente e do Ocidente e perdura em nome dos valores de uma civilização e seu tempo. As transformações marcadas pelas intervenções políticas iniciadas com a queda da Dinastia Qing encurtaram bainhas, cortaram mangas e ousaram em recortes. Mesmo assim, na China atual, o vestido na cor vermelha alimenta nos pequenos ateliês o sonho de noivas que apreciam a tradição. No filme Amor à flor da pele (2000),  dirigido por Wong Kar-Wai, a sedução que permeia a trama bebe da força do figurino que ressalta porque o qipao resiste como ícone de sofisticação. Uma herança cultural chinesa que vem sendo gradativamente copiada pelo mundo.

 

VÍDEO: A força do qipao no figurino de "Amor à flor da pele"