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A iminência poética de Bispo do Rosário na Bienal

O artista que viveu 50 anos sob os tetos manicomiais é símbolo da arte contemporânea brasileira
| Por: Raquel Medeiros

No delírio, a exaltação à arte. No nome de batismo, uma coincidência um tanto quanto excêntrica do personagem que disse ouvir a voz de Deus e recebeu a tarefa terrena de julgar os vivos e os mortos. Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), sergipano de Japaratuba, viveu 50 anos sob o teto de um hospital psiquiátrico. O diagnóstico de esquizofrenia paranoide permeia a história de um dos maiores representantes da arte contemporânea brasileira. O artista que nunca concebeu sua produção para o circuito das artes fez de cada criação uma ressonância linguística do mundo ao seu redor. Um canal de comunicação materializado em formas e diálogos que o coloca entre os homenageados da 30ª Bienal de São Paulo. O evento acontece no período de 7 de setembro a 9 de dezembro deste ano sob o título A iminência das poéticas.

A iminência que reveste a Bienal - como estratégia discursiva e poética da arte em toda sua pluralidade - é a mesma presente na obra de Bispo do Rosário. O artista forjado na intuição e na linha tênue entre o real e imaginário elaborou peças sob o encargo de reproduzir um inventário do que havia na Terra. As suas representações ganharam o reconhecimento de prestigiados críticos do mundo como peças de vanguarda. Sem convenções e fronteiras sua genialidade visibilizou o Brasil em museus internacionais e foi comparada à arte conceitual do francês Marcel Duchamp. Tamanha importância está concentrada na estética vigorosa que marca influência sobre as artes plásticas, design, literatura, música, fotografia e moda.  

A estética das palavras 

Certo de cumprir um desígnio divino Bispo nunca acatou a nomenclatura de artista. Em obediência à missão confiada nas vozes de um exército de anjos ele deu formas à composições ricas em detalhes. Entre as mais emblemáticas figuram o estandarte e o manto da apresentação. As duas peças confeccionadas em tecido traduzem um misto de autobiografia codificada em bordados que narram trechos de histórias e personagens saídos de suas memórias e visões. Para o artista do fio, a palavra é expressão vibrante e considerada essencial para traduzir suas realizações. No estandarte ele grifou com linha e agulha o quanto eram necessárias: "Eu preciso destas palavras - Escrita".

O registro inicial da loucura, na noite de 22 de dezembro de 1938, converge com o nascimento do artista. Aos 27 anos uma peregrinação desvairada - deflagrada por uma suposta aparição - deveria levá-lo à igreja da Candelária, no Centro do Rio de Janeiro. A missão do julgamento final foi interrompida. Sem chegar ao destino pretendido, o Hospício Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha, foi seu primeiro ingresso manicomial antes do diagnóstico oficial de esquizofrenia que o conduziria ao Pavilhão 11 do Núcleo Ulisses Viana, na Colônia Juliano Moreira.

Pop Art no manicômio

O espaço da instituição virou ateliê.  Matéria-prima era tudo o que estivesse ao alcance dos olhos e das mãos. Objetos descartados, resíduos industriais encostados ou encontrados no lixo deram suporte à sua produção e a um mundo paralelo organizado em coletâneas que compunham uma estética harmoniosa. Uniformes dos internos eram desfiados e os fios azuis transformados em bordados e aplicações que contavam nos lençóis velhos o que chegava aos seus ouvidos. Com a reciclagem, reconstrução e ordenamento de coisas durante os anos 40 e 50 Bispo constituiu arte pop que só viria à tona em movimento cultural na Inglaterra no início da década de 60. 

Resistente aos remédios e eletrochoques ele fez da arte tratamento. A produção ininterrupta responde por mais de 800 obras que estão aos cuidados do Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, na capital carioca. Na década de 80, o psicanalista e fotógrafo Hugo Denizart descobriu os objetos de Rosário. Embalado pela surpresa e encantamento realizou o curta O prisioneiro da passagem. A iniciativa foi determinante para o trabalho do artista ganhar dimensão de arte contemporânea brasileira fora dos muros da insanidade. Agora, 23 anos após sua morte, Bispo ressurge na Bienal de São Paulo na iminência de levar o público à "loucura" com o poder sedutor de um mundo bem particular.    

 

Para saber mais:

Curta O prisioneiro da Passagem, de Hugo Denizart

Livro: Arthur Bispo do Rosário - Século XX - Wilson Lázaro, Editora Cosac e Naify