Costurando Idéias

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Zuzu: a mãe e o anjo da moda brasileira

A história da moda nacional não pode ser contada sem fazer referência à estilista Zuzu Angel
| Por: Raquel Medeiros

Mãe é quem cuida, zela, intervém, promove o crescimento cercado de referências que servem de lastro para uma maturidade plena e segura dos filhos. Zuzu Angel é a mãe da moda brasileira. Um fruto concebido na mente de uma mulher audaciosa e transgressora - que na contramão de um território dominado por nomes estabelecidos além das fronteiras nacionais - reclamou a identidade de um vestir com a cara do povo do seu país. Aos seus olhos, a inspiração para nutrir a cria e a criação foi farta em toda a natureza exuberante e códigos da cultura popular.

Para compor a moda verde-amarela, Zuleika Angel Jones abusou do colorido. Estampas da fauna e flora invadiram suas criações. Na década de 60 os vestidos produzidos no ateliê da rua Nascimento Silva, em Ipanema, no Rio de Janeiro, causaram burburinho em contraposição às tendências da época. No lugar de tecidos considerados nobres, ela usou a chita. O pano barato e de puro algodão que forrava colchões foi alçado à condição de matéria-prima. E mais: a abundância dos detalhes em rendas, fitas, pedras e pedaços de bambu enalteceram as peças costuradas com uma originalidade nunca vista ou idealizada.

A inventividade da mineira de Curvelo, nascida em 1921, deu suporte aos passos iniciais da moda nacional além dos limites geográficos. No início dos anos 70 ela apresentou em Nova York o seu primeiro desfile internacional para a loja Bergdorf Goodman. As coleções Mulher Rendeira, Maria Bonita e Carmem Miranda colocaram na passarela um conceito que assinava o nome do Brasil com todo o seu arcabouço cultural. Aclamado pelo público, o evento desdobrou-se em uma crítica publicada pela especialista em moda, Bernadine Morris, no New York Times. A exuberância brasileira ganhou adeptos e logo vestiu atrizes como Liza Minelli e Joan Crawford.

Asas à moda

A moda de Zuzu voou alto. Foi além da estética da estamparia e dos materiais artesanais e moldou através das suas criações um discurso político. A mãe de Stuart Angel - torturado e morto pelo Regime Militar em 1971 - elaborou uma coleção com simbologia de manifesto. A figura do anjo, transformada em sua marca, ganhou destaque no desfile realizado no Consulado do Brasil, em Nova York. Surgiu bordada em roupas brancas ao lado de crucifixos, pombas negras, aves engaioladas e tanques de guerra. As modelos caminharam  na forma de cortejo fúnebre para denunciar a dor da mulher que bradava pelo direito de enterrar o filho. A luta incansável só foi interrompida por sua morte, em 1976, em um acidente automobilístico comprovado mais tarde como atentado.

A história da mãe da moda brasileira se entrelaça aos fatos que compõem a memória política e social do país. Na vida profissional e pessoal a maternidade de Zuzu tem o respeito pela postura de coragem, ousadia e determinação. O conceito contemporâneo da moda nacional que está atraindo olhares e admiração traz a costura da identidade por ela empregada. Nos lados direito e avesso, o esmero e carinho de mãe que sempre acreditou no futuro do filho.

VÍDEO: Na música Angélica Chico Buarque canta Zuzu

 

Para saber mais

Filme: Zuzu Angel dirigido por Sérgio Rezende e protagonizado por Patrícia Pillar e Daniel de Oliveira (2006)

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