Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Manifeste-se: mais que reciclar e reutilizar a ordem agora é consertar

No consumo consciente a regra é reparar tudo o que pode ter uma vida mais duradoura
| Por: Raquel Medeiros

Com esta matéria de viés empreendedor e sustentável, o site Nas Entrelinhas conquistou na noite desta quarta-feira (2), a etapa estadual (Paraíba) do Prêmio Sebrae de Jornalismo, realizado em parceria com a Revista Imprensa. Agora, a mesma publicação que data originalmente de 3 de agosto de 2011 - dia em que o site foi lançado -  é finalista da etapa nacional que reúne 1.143 jornalistas de todo o país nas categorias de jornalismo impresso, radiojornalismo, telejornalismo e webjornalismo. Segue o texto vencedor que conta como atitudes de consumo consciente estão costuradas à racionalidade. E a sentimentos também. Por quê não?

 

A difusão do princípio dos três erres ganhou o mundo despertando atitudes comprometidas em reduzir, reciclar e reutilizar tudo aquilo que pode fazer a diferença na sustentabilidade do planeta. Aprimorado, esse fundamento remete agora à ordem de consertar. Criado por um grupo de designers holandeses, em 2009, o Manifesto do Conserto faz oposição à cultura do descartável e provoca novas posturas em relação ao consumo consciente. Na moda, essa tendência cai como uma luva e evidencia ações como ajustar, customizar, colar, tingir e reformar.

A nova regra sustentável está no nome do ateliê de costura Consart que alia conserto com acabamento caprichado. A empresa formalizada há cinco anos, em João Pessoa, na Paraíba, trabalha com a experiência acumulada há quase 12 quando a proprietária Renata Gomes de Melo começou o negócio sozinha. Hoje, a média mensal das mil peças que chegam ao ateliê para ajustes exige a habilidade de outras quatro costureiras.

Das roupas que passam pelas máquinas, metade corresponde ao jeans. Ajustes de bainha e pernas se somam à proposta de reformar o cós para atualizar a calça com uma cintura mais baixa. "Às vezes são peças que estão no armário há um tempão e o ajuste faz com que pareçam novas de novo", diz Renata. Ela afirma que as pessoas perceberam que vale a pena investir nos consertos que primam por manter detalhes originais como pespontos e acabamentos. "É o que fazemos e isso dá confiança ao cliente", arremata.

Recuperando lembranças

A onda do conserto também está tirando das gavetas e cabides roupas antigas com cheiro de nostalgia e história. Vestidos de casamento ou uma peça comum que veste boas lembranças estão retornando à cena depois de um reparo. "Na maioria dos casos, além de símbolo de afetividade, é algo feito de um tecido nobre ou estampa única que ninguém quer dispensar", explica a proprietária da Consart que já pensa em ampliar o negócio para atender à demanda. 

Na Oficina de Bolsas e Sapatos, localizada na Avenida Edson Ramalho, a clientela pode até desconhecer o Manifesto do Conserto, mas tem os pés bem firmes no chão quando o assunto é prolongar a vida dos calçados. Reparar salteiras, colar solados, retocar a pintura e refazer costuras são atividades rotineiras para Ivan Pereira, sapateiro há 25 anos. "Trabalhamos de segunda a sábado e recebemos uma média de 50 peças por dia. O conserto dá vida nova ao calçado e faz valer o investimento inicial da compra", conta.

Ele ressalta que sua clientela é exigente e busca o resultado de um serviço que recupere o calçado com o máximo de fidelidade aos detalhes de fábrica. As mesmas exigências são aplicadas em bolsas e malas que chegam à oficina para pequenos reparos. A troca de zíperes, alças, fechos e fivelas é uma atitude cada vez mais comum, numa demonstração de que as pessoas estão jogando fora preconceitos e reformulando ideias sobre o consumo.

 

Serviço:

Consart - Rua Manoel Arruda Cavalcante, 670, Empresarial Manaíra Center, 1° andar, sala 202, Manaíra - João Pessoa/PB.  Fone: (83) 8804 4909 

Oficina de Bolsas e Sapatos - Av. Edson Ramalho, 107, Manaíra. João Pessoa/PB.

 

MANIFESTO DO CONSERTO

Mais de um milhão de pessoas em todo o mundo já acessou a página da Plataform21  para baixar o manifesto que está propondo uma reflexão sobre a cadeia do pensamento descartável. Reflita você também!

1. Faça seus produtos durarem mais!

Consertar significa ter a oportunidade de dar a seu produto uma segunda vida. Não descarte, costure! Não jogue fora, emende! Consertar não é ser anticonsumismo. É evitar que coisas sejam descartadas sem necessidade.

2.  Pense em projetar coisas que possam ser consertadas.

Designers de produtos: façam seus produtos consertáveis. Compartilhem informações claras e inteligíveis sobre maneiras de reparar o seu produto. Consumidores: comprem objetos que possam ser consertados ou então reflitam porque eles não existem. Sejam críticos e inquisitivos.

3.  Consertar não é substituir.

Substituir é jogar fora a parte quebrada. Esse não é o tipo de reparo que estamos falando aqui.

4.  Fazer o produto mais robusto não vai matar você.

Cada vez que consertamos alguma coisa, nós acrescentamos a ela potencial, história, alma e beleza.

5. Consertar é um desafio criativo.

Fazer consertos é bom para a imaginação. Usando novas técnicas, ferramentas e materiais proporcionamos um destino melhor do que o simples fim.

6. Conserto sobrevive à moda.

Consertar não é sobre estilos e tendências. Não existe data de validade para produtos consertáveis.

7. Consertar é descobrir.

Consertar objetos pode fazer você aprender coisas incríveis sobre como eles realmente funcionam. Ou não funcionam.

8. Consertar, mesmo em tempos de fartura!

Se você pensa que esse manifesto é por causa da recessão, esqueça. Isso não é sobre dinheiro, é sobre mentalidade.

9. Coisas consertadas são únicas.

Mesmo os produtos copiados se tornam únicos depois de reparados.

10. Consertar é ser independente.

Não seja escravo da tecnologia - seja seu mestre. Se quebrar, conserte e faça melhor. Se você é um mestre, passe seu saber aos outros.

11. Você pode  consertar tudo, mesmo uma sacola plástica.

Mas nós recomendamos sacolas que durem mais e que sejam reparadas quando  necessário.

Comece a consertar!