Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Na década perdida, o achado da alfaiataria

Do filme Annie Hall à largada da mulher no mercado de trabalho, a alfaiataria toma lugar definitivo no armário feminino com a imagem de sensualidade e poder
| Por: Raquel Medeiros

Os anos 80 amargam o rótulo de "década perdida" na história econômica. Sobretudo, na América Latina, com a estagnação da produção industrial.  Tempos difíceis, onde a crise internacional do petróleo é combustível para uma desordem sem freios nos países em desenvolvimento. O Brasil vive a hiperinflação com as "odiadas" maquinetas de remarcação diária de preços e curva-se às filas quilométricas nos postos de gasolina em vésperas de reajuste. A moda? Dança conforme a música - no embalo das discotecas - com brilho extra e ombreiras exageradas que não demonstram sinais da escassez. Esse excesso marca a roupa feminina, compondo a alfaiataria que ganha corpo desde 1977, na exibição do filme Annie Hall ou Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, com Woody Allen na tela e direção. Passados 35 anos e feitos alguns ajustes na calça baggy da personagem de Diane Keaton, o figurino assinado por Ralph Lauren continua sob medida para a mulher urbana e contemporânea.    

Na comédia romântica vencedora de quatro  Oscars, o estilo exibido pela insegura cantora Annie Hall (Diane Keaton) conquista o neurótico humorista Alvy Singer (Allen) e populariza a calça de corte amplo, a camisa masculina e o colete risca-de-giz.  A reboque, gravatas, chapéus e sapatos brogue complementam o visual. Como Lauren, outros estilistas desfilam criações em cores, novos  tecidos, estampas, modelagens e detalhes que propagam a alfaiataria que veste a mulher forte e independente. Nos escritórios os blazers fazem par com calças menos volumosas e saias tubos confeccionadas sob a inspiração de nomes como Armani, Karl Lagerfeld, Calvin Klein, Dior e Versace. Eles contribuem para a moda que assina a década com a tendência de direitos iguais no vestir.

Quem bem simboliza esta ideia é o francês Jean Paul Gaultier. Em 1985, apresenta a coleção outono-inverno denominada de "Une garde-robe pour deux" (Um guarda-roupa para dois).  O look de pitada andrógina assume sua feminilidade. Adapta-se sem controvérsias ao corpo curvilíneo no blazer de corte bem entalhado e abotoamento cruzado. Estabelece harmonia com a calça de pernas mais estreitas e faz circular nas ruas - no percurso entre a casa e o trabalho - a imagem da executiva que traduz um ar profissional acentuado pela autoridade sem perder a sedução.

A projeção alcançada por Annie Hall no figurino de Lauren é a chave da alfaiataria que deixa na década perdida o grande achado da moda feminina. Impossível conceber a mulher moderna sem a retaguarda das peças ditas masculinas que parecem desenhadas - desde o princípio - para corpos menos rudes e vigorosos em musculatura. Deter o olhar sobre coleções atuais como as de Armani, Prada, Louis Vuitton, Hermès e Dior é perceber a roupa como um território sem fronteiras, onde gêneros, identidades e personagens são apenas  detalhes.

 

Trailer: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa