Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Revelações de um mago da fotografia de moda

Exposição no Grand Palais de Paris faz retrospectiva da obra fotográfica de Helmut Newton
| Por: Raquel Medeiros

A sua fotografia marcou territórios dominados pelo luxo, glamour, dinheiro e poder, povoados por seus respectivos personagens. Contudo, por trás da câmera, o olhar aguçado do alemão Helmut Newton assinou com doses de ousadia e transgressão uma estética que transformaria as publicações de moda. Provocativas, instigantes, sensuais e impregnadas de vigor, as imagens das mulheres capturadas por suas lentes eram mais que corpos, poses e olhares enigmáticos. Compunham uma apreensão refinada do feminino nada frágil e a um só tempo sutil. O fotógrafo congelava em um clique a força imagética expressa não apenas em formas e peles perfeitas. Com maestria sabia extrair uma linguagem silenciosa que quase soava a um sussurro de mistérios e íntimos segredos. Esses relatos pronunciados no jogo de luz e sombras estão na primeira exposição realizada na França desde sua morte, em 2004. Aberta recentemente, mais de 200 imagens ganham visibilidade no Grand Palais, em Paris, até 17 de junho deste ano.

A exposição adquire caráter de retrospectiva da obra acumulada ao longo de 70 anos. Sob os cuidados de sua mulher, June Newton, a seleção de imagens reúne impressões originais ou "vintage" feitas sob a própria supervisão de Helmut. O foco não se restringe à representação exclusiva de mulheres e restaura os vários segmentos e segredos do seu trabalho que surge pontuado por citações emblemáticas. Na galeria do Grand Palais, o conteúdo da fotografia aplicada à moda e a retratos está conduzido pela liberdade que trouxe à tona abordagens inusitadas, excessivas e polêmicas. Inegavelmente, a introdução do erotismo formatou a fotografia "newtoniana" dentro de uma visão única e contemporânea do corpo feminino.

 

Vestidas em um smoking de Yves Saint Laurent, seminuas em trajes fetichistas ou  desnudas por inteiro, Newton retratou o poder da mulher com uma perspectiva artística. Na década de 60 rompeu estruturas ao começar a fotografar editoriais para a Vogue francesa - fora dos estúdios - com sua estética desprovida de amarras. Revelou uma fotografia do feminino em plena harmonia com a revolução sexual que marcou a mesma época. Dominação, despudor e deboche estavam combinados à sofisticação numa fórmula que ele etiquetou para logo ser copiado ante os olhares escandalizados.  

O fotógrafo nascido em Berlim, em 1920, morreu em 2004 vítima de um acidente automobilístico na Sunset Boulevard, em Los Angeles. Deixou uma obra extensa e marcante que arrebatou importantes prêmios. Entre eles, o Grand Prix National de la Ville de Paris. Na ocasião de seu 80º aniversário, em 2000, a Neuenational Galerie de Berlim realizou uma grande retrospectiva do seu trabalho que percorreu Londres, Nova York, Tóquio, Moscou e Praga, entre outras cidades. Publicou livros e polemizou com o título Um mundo sem homens, numa expressão visionária de uma sociedade marcada pelo papel da mulher independente e enérgica. Como a que está impressa em sua fotografia.

Serviço

Helmut Newton Foundationhttp://www.helmutnewton.com/

Grand Palais: http://www.grandpalais.fr/fr/Accueil/p-93-Accueil.htm

 

VIDEO