Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Mulheres, Moda e Criação: memória das que fizeram história

No Dia Internacional da Mulher, uma homenagem às estilistas que marcaram a história da moda com suas revolucionárias criações
| Por: Da Redação
Mulheres, Moda e Criação:  memória das que fizeram história

No Dia Internacional da Mulher, o site Nas Entrelinhas homenageia quatro grandes estilistas - que às suas maneiras e épocas - souberam fazer da criação o próprio enredo libertário de suas histórias. Acabaram por influenciar milhares de mulheres em todo mundo não apenas pela audácia de suas roupas, mas, pelo significado que as comportam. Entre tantas que ousaram no desafio de criar e se reinventar - abrindo espaço para que a moda fosse também lugar de irreverência e liberdade - destaque para Elsa Schiaparelli. Nos anos 20 e 30 ela evidenciou uma mulher inteligente, culta e subversiva na ordem estética, com sua proposta de unir moda e arte surrealista. Na mesma linha do tempo, a grande precursora da moda como representação do poder feminino no mundo patriarcal: abram alas para Coco Chanel que vestiu as mulheres de calças e sapatos baixos para caminharem mais depressa rumo às suas conquistas. Nos revolucionários anos de 1960 está Mary Quant. Colocou as pernas das mulheres de fora, com suas minissaias e roupas que traduziam o espírito independente e contracultural aos padrões normativos de uma sociedade em transformação. Para encerrar, bebendo nas raízes de nossa história, o arquétipo da mãe brasileira: Zuzu Angel, esta mulher que fez da moda protesto e pranto, dor e alegria, brasilidade e luto, reverência e manifesto. A todas estilistas não ditas, mas que também fazem parte das "entrelinhas", nossa homenagem e reconhecimento.

 

Elsa Schiaparelli: "por isso não provoque, é cor de rosa shocking"

Esta italiana escreveu a história da moda francesa, assim como Chanel, no período de entreguerras. Elsa Schiaparelli esteve à frente do seu tempo e padrões normatizadores para as moças da época. Desde cedo foi estudar na Suiça e em Londres. Casou com um filósofo, teve uma filha, morou em Nova York, separou-se e rumou à Paris. Escolheu a criação e o estilismo como maneira de expressão e sobrevivência. Em 1929 realizou sua primeira coleção e ganhou a saudação de  "rara criadora do momento". Mas, foi na interação da moda com arte que Schiap, como era chamada, acreditou encontrar a verdadeira forma de vestir. Entre tantos avanços, também afrontou o moralismo e se fez pioneira nos laços de amizade com os artistas mais contestadores dos anos 20 e 30 como Marcel Duchamp, Picabia, Man Ray, Jean Cocteau, Christian Bérard e aquele com quem iria fazer parceria: Salvador Dalí.

Apaixonada pelo surrealismo criou moda cheia de intervenções e novas propostas de estranhamento estético. Dalí desenhava para ela motivos de bordados que logo eram transformados em fonte de inspiração. Desta relação criativa, Elsa Schiaparelli inovou com um estilo irreverente: tailleur-escrivaninha com quatro bolsos em forma de gaveta, chapéu-sapato, vestido de seda pintado com moscas e ornados com lagosta. Quem hoje se choca com os incongruentes figurinos da cantora pop americana Lady Gaga desconhece o poder que Schiap tinha na sua efervescência criativa nos anos 30. As experiências inusitadas renderam  chapéus telescópios, vestido-pára-queda, bolsa-telefone entre outras excentricidades. Todas as suas coleções eram inspiradas na fantasia e no mundo fantástico, seja nas artes circenses como também na astrologia, música, teatro e pintura. Gostava de bordados e cores vivas, impactantes e performáticas. Foi assim  que criou um tom de rosa tão forte que batizou de "shocking", uma cor que virou referência desta mulher que não teve medo de sonhar o surreal e fazer da sua vida uma obra de arte.

Coco Chanel: as libertárias mulheres de calças

Gabrielle Bonheur Chanel nasceu em Saumur, na França, em 1883 e faleceu em Paris no ano de 1971. Tempo necessário para revolucionar o mundo da moda, marcando definitivamente seu nome e estilo como um dos maiores ícones da alta costura. Conhecida como Coco Chanel, foi uma mulher determinada para a liberdade e a conquista da sua criação, rompendo os padrões estabelecidos do vestuário opulento da Belle Époque com seus forros, armações e corpetes. Deu asas às transformações dos anos 20, principalmente pelos ideais de conquistas do feminino. Como representante das entreguerras mundiais, Chanel fez da própria imagem um significado destas mudanças. Vestida de calça comprida dos namorados, com cabelos curtos e chapéu de palha expôs uma proposta de visual andrógino que logo seduzia pelo seu empoderamento. Se converteu no prótotipo da garçonne, símbolo da mulher moderna e altiva.

Sua moda proposta para o período escasso e  doloroso do pós-guerra era simples e prática, utilizando matérias primas inusitadas e baratas como a malha de jersey, usada na roupa íntima masculina. Foi a primeira a proclamar que o busto das mulheres não era caixa forte e a insistir no uso das bijuterias, com seus famosos colares de pérolas falsas. E mais: encurtou o comprimento das bainhas para mostrar o tornozelo, como também vestiu a peça mais masculina de todas nas mulheres: a calça comprida! Como se não bastasse instituiu o uso de sapatos baixos, dando mais conforto e praticidade  aos passos largos que levavam às transformações femininas. A sua moda estava cheia de representações para outros milhares de mulheres que a viam como um ideal de mudança. A estilista mandou seu recado ao criar roupas onde as mulheres pudessem se sentir donas do próprio corpo, do seu poder e movimento de conquistas. "Equiparando-se aos homens, acabou por superá-los. Uma postura sem precedentes que introduz nas variações contínuas da moda uma dimensão nova: a moral", explica François Baudot no livro "Moda do Século".

Mary Quant: as revolucionárias pernas de fora

Os anos 60 e o movimento da contracultura precisavam ter corpos livres. Para isso, nada mais audaz do que as pernas de fora para as mulheres caminharem com rapidez em busca de seus direitos e de sua expressão. A estilista inglesa Mary Quant (se não foi a criadora original) foi a que expandiu a ideia das minissaias, encurtando o comprimento dos vestidos e saias das mulheres. Um escândalo para a época, com ondas de protesto e, ao mesmo tempo, sedução. As flores de sua marca foram utilizadas como símbolo da cultura Flower Power, já que se identificava com a subversão dos padrões normatizadores da sociedade de então.

A própria estilista tinha esta postura inovadora com seus cabelos geométricos e colants de malhas coloridas e de diversos padrões. Ficou conhecida como a rainha do "Swinging London". Sua moda era para jovens que queriam uma roupa que traduzisse o momento de contestação comportamental e de valores. A sexualidade livre, os direitos das mulheres e das diferenças culturais combinavam com a criação proposta por Mary Quant: alegre, descontraída, quebrando padrões estéticos. As inspirações vindas das ruas e transformadas em bens de consumo eram vendidas na sua famosa loja Bazaart. Seu compromisso com a mudança se deu em vários níveis. Criou carteiras com correias compridas, tops de crochês, cintos largos nos quadris, malha canelada marcando o corpo e inseriu muito plástico no vestuário e acessórios como símbolo do futurismo e crença positiva de que melhores dias viriam.

Zuzu Angel: "quem é essa mulher?"

Zuleika Angel Jones apesar do nome americanizado tinha os pés nas raízes frondosas da criação brasileira. Foi a primeira mulher estilista no Brasil que construiu uma identidade da moda tropical, com uma mistura quase sincrética de artesanato e cultura popular com os ares modernos e turbulentos dos anos de 1960 e 1970. Transgressora numa época em que todos copiavam as tendências europeias, criou uma moda que legitimava um Brasil sem fronteiras, valorizando sua diversidade e beleza, sem medo de utilizar materiais tidos como "pobres". Mesclou chita, fitas, rendas tingidas e aplicadas sobre tecidos nobres como as sedas, além de um instigante trabalho de estamparias de pássaros, borboletas e papagaios. A estilista inovou também no uso de pedras brasileiras, madeira, conchas das praias e fragmentos de bambu. Escandalizava com vestidos feitos com tecidos de colchão e toalhas de mesa. Quis vestir a dona-de-casa e a mulher comum, mostrando que a moda era possível para todos. Seu trabalho ganhou o mundo com desfiles internacionais, como em Nova York, em 1970, quando apresentou coleções inspiradas na companheira de Lampião e na história do cangaço nordestino. Projetou a "mulher rendeira" e Maria Bonita, além de fazer uma homenagem à Carmem Miranda como figura símbolo do Brasil.

No entanto, nem tudo foi composto de flores e cores. Zuzu também foi pioneira em fazer da moda um protesto contra a ditadura militar que sequestrou seu filho Stuart Angel Jones, estudante e ativista político. Começou um caminho em busca do filho e depois de sua morte fez da moda revolucionária uma vitrine para as denúncias de tortura no país. Em 1971, em Nova York, na sede do Consulado do Brasil, ela revela toda a dor de uma mãe através de um desfile que entrou para a história. Roupas brancas e bordadas com anjos negros e machucados, tanques de guerra, pombas escuras, crucifixos, pássaros engaiolados e sol atrás das grandes. As modelos usaram faixas pretas de luto e andaram numa simulação de cortejo fúnebre. Os anjos viraram símbolo contra a ditadura militar e permaneceram como ícone da sua marca. Por sua coragem de denúncia e sua voz ativa ou metaforicamente revelada em sua moda, Zuzu Angel acabou morta em um atentado provocado pelos militares em 1976. Segue imortalizada na sua moda política, na criação por um Brasil mais brasileiro e uma democracia cultural e libertária. O compositor e cantor Chico Buarque a homenageia com a canção Angélica, na qual pergunta: "quem é essa mulher?".

 

Galeria de Imagens (Fotos: reproduções)