Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

A arte de uma semana excêntrica e moderna

O movimento modernista brasileiro completa 90 anos e continua influenciando a produção criativa
| Por: Raquel Medeiros

A loucura dos chamados "futuristas" estampa manchetes nos jornais O Estado de São Paulo, Folha da Noite e A Gazeta, além das revistas Vida Moderna, A Cigarra... O ano é 1922. O mês mais curto do calendário nunca foi tão grande para a história da cultura brasileira. Três dias -13,15 e 17 - potencializam uma semana que subverte a lógica, a ordem e a ótica de toda referência artística numa transgressão batizada de Semana de Arte Moderna. O Theatro Municipal de São Paulo serve de palco para um "futuro" anunciado há 90 anos e que se mantém fresco contrariando os registros impressos nas folhas amareladas da imprensa da época. Desde então, o modernismo se faz presente na música, literatura e artes plásticas com sonoridade, poesia e pinceladas que continuam servindo de inspiração criativa, inclusive à moda.

A nova estética moderna surge em um cenário bem particular. Explode na atmosfera nacionalista do primeiro centenário da independência para romper com referências estrangeiras do passado. Na São Paulo de meio milhão de habitantes - com uma industrialização que marcha a todo vapor na fervura e poderio do ciclo cafeeiro - a ideia é expressar um Brasil em um plano mais verdadeiro e menos passional. Nessa reação, a arte converte-se em terreno fértil e abundante para evidenciar retalhos marginalizados do tecido social marcado pelas diferenças. Irrequietos e ruidosos modernistas como Oswald de Andrade, Graça Aranha, Manuel Bandeira, Di Cavalcanti e Mário de Andrade apostam em mudanças enraizadas numa criação mais livre e identitária. Sorvem as influências europeias do início do século XX onde movimentos artísticos como o cubismo, dadaísmo e surrealismo são assimilados para desenhar uma nova tendência de arte vinculada à realidade brasileira.  

Desvario na Pauliceia

A Semana de 22 - uma menção reduzida do movimento modernista - rompe barreiras, chacoalha com conceitos estéticos e mexe com a emoção da plateia. Durante os três dias de conferências, recitais e exposições os organizadores revelam suas posturas ideológicas através de criações que arrancam aplausos, cultivam vaias, semeiam perplexidade. Tudo é estranhamente novo e fora dos padrões convencionais da pintura, música, escultura e literatura já vistos até então. "Para muitos de vós a curiosa e suggestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de 'horrores'. Aquele Genio suppliciado, aquelle homem amarello, aquele carnaval allucinante, aquella paisagem invertida se não são jogos de fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado vosso espanto. Outros "horrores" vos esperam" , descreve o escritor Graça Aranha em seu discurso de abertura destacado pelo  jornal O Estado de São Paulo, em 14 de fevereiro de 1922, que assinala o universalismo da arte como expressão libertária e subjetiva de representação da vida.

Pinturas com pinceladas mais soltas e profusas em cores, esculturas de formas contestadoras e poesias com rupturas sintáticas desalinham marcos conceituais. Na segunda noite do festival, o poeta Mário de Andrade declama trechos do inédito livro Pauliceia Desvairada, quebrando todas as estruturas literárias do passado. Uma análise - em versos simples - da cidade de São Paulo e seus habitantes dentro do provincianismo narrado em uma poesia urbana, sintética e moderna que exprime ironia, acidez, coloquialismos e rimas complexas. O público delira. "Os bravos rapazes que acabam de escandalizar a Paulicéa, offerecendo-lhe mostas de quanto são capazes os seus talentos desvairados, representam todas as modalidades da nova esthetica. São futuristas, cubistas, dadaístas, bolshevistas. Cada uma destas modalidades tem seu traço diferencial, mas todas ellas anseiam por verter na obra d'arte, no marmore, na tela, na pauta, na novella, no verso, o movimento, o dynamismo, a convulsão tethanica da vida contemporânea", noticia a revista paulista A Cigarra em sua edição de fevereiro, de número 178, em um resumo contundente do movimento cultural.

Semana de anos a fio 

No tempo, a Semana de 22 ocupa uma linearidade inequívoca de influências e inspirações na cultura brasileira. Passados 90 anos do acontecimento que escreve uma nova história na concepção artística do país, ainda se discute as formas e caminhos do moderno que não envelhece. Expressões da pintura como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Candido Portinari continuam a ceder pinceladas que alimentam a produção criativa. Na moda, o modernismo em suas várias fases é fonte inesgotável de referências que pisam a passarela e invadem as vitrines com uma essência bem brasileira.

Esse caldeirão cultural - que começa a transbordar no palco do Teatro Municipal em 1922 e ganha novos adeptos ao longo das gerações seguintes - continua servindo de "pano pra manga" a inúmeros estilistas. A costura conceitual do tema já rendeu coleções a nomes como Maria Bonita Extra (inverno 2007), Ronaldo Fraga (verão 2011) e Patogê (inverno 2012). É o moderno "fazendo arte" numa estética contemporânea. Por isso, nunca sai de moda.  

 

Para saber mais

Texto da cobertura do Jornal O Estado de São Paulo (1922)

http://blogs.estadao.com.br/arquivo/files/2012/02/1922.02.14_b.jpg

Roteiro Modernista em São Paulo. Visite!

http://www.estadao.com.br/especiais/semana-de-arte-moderna---90-anos,160718.htm