Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Brincando de fazer arte

A boneca Barbie dá corpo a um projeto fotográfico cheio de referências culturais
| Por: Da Redação

A silhueta magra, os olhos grandes e delineados, a cabeleira longa e loira. As características são a marca registrada da Barbie, a boneca mais famosa do mundo que chama a atenção sempre que é inserida em algum outro projeto que foge à condição de mero brinquedo de meninas. Agora, quem brinca com a estética dela é a fotógrafa francesa Jocelyne Grivaus, com um enquadramento diferente: a Barbie como obra de arte.

A imagem longilínea ocupa o cenário artístico em poses célebres que resgatam alusões do Pop Art, cinema, fotos icônicas de personalidades e telas de pintores famosos. Jocelyne fez uma imersão nas referências nostálgicas da sua infância e resgatou a Barbie como fonte de inspiração para dar "corpo" a recortes de cultura. A iniciativa se contrapõe às polêmicas de um estereótipo que alimenta discussões consistentes em relação à saúde e comportamento considerado frívolo.

A Barbie é pop, paz e amor

Barbie está cheia de caras e bocas no projeto fotográfico que envolve nomes míticos.  A fotógrafa brinca com a inspiração Pop Art de Andy Warhol e coloca a boneca ao lado da imagem multicolorida da atriz Marylin Monroe (produzida em 1967) que foi transformada em uma das marcas do movimento cultural que teve início na década de 50. O Pop Art estava centrado nos elementos gerados pela sociedade industrial do pós-guerra e propagou traços da produção em série, do consumo, da repetição e da projeção de ícones instantâneos.

Nos Estados Unidos e Inglaterra o movimento transgrediu e questionou os limites do fazer artístico e foi capaz de extrair das manifestações da cultura de massa criações com traços próprios daquele tempo. Revistas em quadrinhos, produtos enlatados, carros modernos, estrelas do cinema e aparelhos eletrônicos foram desconstruídos para alimentar as impressões assinadas pelos artistas que destacavam o poder de reprodução e o estado efêmero da era industrial. Aproveitando a versão pop, ainda na década de 60, a fotógrafa faz um paralelo da boneca com a história do Submarino Amarelo, um desenho animado do diretor Gerge Dunning que reúne os Beatles. No cartaz do filme mudanças bem particulares: o submarino cede lugar a um carro rosa em que Barbie supostamente passeia com as amigas da geração paz e amor.

Do Renascimento à Nouvelle Vague

A boneca do século XX retrocedeu no tempo para encarnar o papel de musa renascentista. Na comparação com o quadro Monalisa, do pintor italiano Leonardo da Vinci, ela não aparece nada tímida e introspectiva. Pelo contrário. Abre um sorriso franco com lábios luminosos que revelam uma pitada fashionista. O porte de lady é também copiado na elegância da estilista Coco Chanel com seus colares de pérolas que marcaram os loucos anos 20 e na tela do alemão Otto von Dix que exibe a jornalista literária Sylvia von Harden. A obra de 1926 usa cores vibrantes para reproduzir sensualidade, tensão e suspense numa referência à mulher excêntrica da sociedade alemã. A tela exemplifica a corrente chamada Neue Sachlichkeit (Novo Objetivismo).  

Uma Barbie multifacetada ainda pode ser apreciada na pele da atriz francesa Brigitte Bardot. A boneca articulada foi posta em posição que reproduz uma das cenas do filme O Desprezo (1963), dirigido por Jean-Luc Godard. A foto de Jocelyne Grivaus homenageia a Nouvelle Vague (Nova Onda), movimento artístico do cinema francês marcado pela constestação dos anos 60 e transgressão às regras do cine comercial. Sátira, clichês e impressões cotidianas assinalam um perfil psicológico dos personagens. Nesse ângulo, a Barbie também ganha nova conotação.