Costurando Idéias

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E assim se fez a luz: o Renascimento de Yamamoto

O movimento renascentista que transformou a cultura e filosofia entre os séculos XIII e XVII foi a inspiração de Fernanda Yamamoto para o Inverno do SPFW 2012
| Por: Da Redação

POR DETRÁS DOS PANOS 

Por trás dos tecidos, cores, formas e estilos que fazem a moda das passarelas, há um sentido que comunica ideias, valores, geram novas percepções e sensibilidades a temas diversos.  A intenção deste espaço editorial é percorrer o caminho das entrelinhas que estão por detrás dos panos dos desfiles mais comentados do Brasil e do mundo. Não para falar das últimas tendências, mas para gerar informações que desdobram as inspirações e conceitos que fomentam a cabeça dos criadores de moda. 

Coleção - Imperatriz Renascentista

A época mais iluminada da arte, da ciência e da cultura, conhecida como período renascentista, esteve presente nas passarelas do último SPFW, na edição do inverno 2012. Através da coleção apresentada pela estilista Fernanda Yamamoto, a influência deste movimento artístico pôde ser conferida na inusitada riqueza de detalhes das estampas jacquards elaboradas na releitura das pinturas a óleo e tapeçarias da época. A ênfase maior foi dada à imagem da imperatriz romana Bianca Maria Sforza, do século XV. Assim como o Renascimento que descobriu novas formas de expressão, a estilista introduziu novos conceitos ao seu trabalho. Todas as imagens renascentistas foram exploradas de maneiras diversas, nitidamente vistas como também trabalhadas em cores invertidas e espelhadas, criando formas abstratas junto a modelagens com recortes e fendas.

Das pinturas veio a cartela de cores que procurou remeter aos tons sujos e envelhecidos das artes plásticas do Renascimento, com  a presença do ouro velho, bordô, vermelho, preto, caramelo, dourado, marinho, marrom e verde militar. A história da imperatriz romana Maria Sforza - além de suas icônicas figuras -foi percebida nas peças de acessórios e joias feitas em forma de broches confeccionados com espelhos, molduras e moedas antigas.  O luxo do período esteve presente nas discretas aplicações de pedraria navete e bordados de canutilho preto que realçaram as cores e contrastes sobre jacquards e malhas, enquanto um silk em tom metalizado de ouro velho criou texturas sobre o tecido listrado.  O inverno de Yamamoto bebe na fonte do humanismo tão propagado pelo Renascimento. Isto é: peças mais racionais, coordenáveis em comprimentos variados, de silhuetas secas, vazados geométricos e poucos volumes, onde se exalta a beleza clássica e o corpo humano.

Renascimento: das trevas à luz

Depois das trevas, eis que surge a luz. O Renascimento, também chamado de Renascença ou Renascentismo, foi conhecido como um movimento transformador na ciência, filosofia, cultura e arte que vem iluminar o período da Idade Média e abraçar sua transição para Idade Moderna, entre fins do século XIII e meados do século XVII. Dá-se este nome devido à redescoberta e valorização das referências culturais da antiguidade clássica, norteadas pelos ideais humanistas e naturalistas.  Foi uma grande ruptura com a conhecida "Era das Trevas", já que através do movimento Iluminista propunha a razão e o domínio do conhecimento acima da fé. O homem era o centro do Universo, portanto, desperto da ignorância e das sombras. Uma visão mais revigorada que buscava a consciência de uma nova concepção de mundo mais realista e humana.

A mudança ocorreu em vários níveis, mas foi na arte renascentista que ganhou cores e formas os revolucionários pensamentos deste período. A cultura grega e romana com seu classicismo ganhou progressos nas expressões artísticas que geralmente retratavam as figuras humanas. Principalmente, com o uso do auto-retrato exaltando a beleza tão característica destas civilizações. Os novos conhecimentos da anatomia, da fisiologia e da geometria são prontamente incorporados ao florescimento cultural renascentista que deixava para trás o mundo sombrio e ganhava tons iluminados da arte como expressão de sua própria filosofia.

Beleza e Razão

Na arquitetura, os renascentistas usavam a construção clássica, harmônica, racional e antropocêntrica, caracterizada pela funcionalidade e racionalidade dos espaços. Formas planas, quadrangulares e muita luz nos ambientes. Já a escultura é tida como a melhor representante do movimento artístico no seu sentido mais humanista. Destacam-se pela expressão corporal, equilíbrio, proporções perfeitas, músculos torneados e muitos nus. No entanto, a pintura é a arte renascentista mais conhecida. Os grandes pintores investiram nas noções de profundidade e volume, sombreamentos, variações de cores e manejos de luz. A introdução da tinta a óleo possibiltou mais qualidade e maior durabilidade às obras.

No rol dos principais artistas renascentistas italianos figuram Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo Buonarroti (1475-1564) e Rafael Sanzio (1483-1520). Da Vinci, além de representante da pintura e escultura, foi músico, arquiteto, engenheiro e filósofo. Entre as obras mais conhecidas de Da Vinci estão a "Última Ceia" e "A Gioconda" (Monalisa). Já Michelangelo foi considerado o maior escultor renascentista italiano, mas também teve sua presença na pintura e arquitetura. Fez as famosas esculturas "Davi" e "Pietá", além da pintura da abóbada da Capela Sistina, onde retratou a Gênesis e o Juízo Final da história bíblica. Sanzio deixou como marca a pintura de suas famosas Madonas que remetem às versões da Mãe de Jesus. Entre os arquitetos, destacam-se Fillipo Brunelleschi (1377-1446), com o projeto da cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore e o Palácio de Pitti (ambos em Florença) e o italiano Donato Bramante (1444-1514), com o plano arquitetônico para a reconstrução da Catedral de São Pedro no Vaticano. Um período iluminado pela razão, beleza, conhecimento e o dom artístico.

 

Desfile de Fernanda Yamamoto -SPFW Outono/Inverno 2012