Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Um jeito meio dândi de ser

No declínio da aristocracia surgiram os dândis no culto à elegância como estilo de vida
| Por: Raquel Medeiros

A inspiração atual da moda masculina recobra a imagem dândi e passeia pela filosofia de vida guiada pelo culto à elegância. Antes do metro ou übersexual do século XXI, os dândis já haviam feito história compondo o perfil do homem que destinava horas aos cuidados estéticos. De um movimento anti-moda que rejeitou a afetação dos babados, laçarotes, saltos altos, perucas e pó-de-arroz nasceu um estilo de vestir. Mais do que a imagem impecável refletida nos espelhos da Regência Inglesa nas primeiras décadas de 1800, o dandismo atravessou o século e fronteiras para assumir contornos sócio-políticos e uma postura ideológica a favor da aristocracia. A roupa foi ferramenta de oposição à sociedade burguesa que emergia com as transformações da era industrial e desfilava a distinção de um sentimento de superioridade elitista.

O que vigora neste mergulho da moda no passado é o resgate ao dandismo marcado apenas pelas referências da roupa clássica que foi decisiva na evolução do traje masculino. Não explora o lado controverso dos personagens de imagem calculada considerados por alguns críticos símbolos do ócio e da resistência ao declínio aristocrático que enterrava códigos de condutas e valores. O que as semanas de moda recém-realizadas entre Nova York e Milão deixaram transparecer foi uma captura da bossa, do figurino impecável e elegante para um homem moderno e urbano que não abre mão de um estilo que atrai a atenção com um modo despretensioso, quase invisível, "desprovido" de intenções.

Dentro da moda que está mais do que nunca liberta das ditaduras e limites, o estilo dândi também marca a alfaiataria feminina. Entre terninhos, pantalonas, camisaria e acessórios fisgados no armário masculino como gravatas, suspensórios e chapéus nasce uma estética de referência aos "narcisos" dos séculos passados. Sem responder ao formato másculo a mulher surge extremamente feminina, numa aparência que invoca força e que não passa nada despercebida.

Estética, arte e filosofia

Doses de estética, arte e filosofia alinham-se para descrever o que representou o estilo dândi. Distante de ser resumidamente uma fórmula de aparência - como se aplica hoje - não se detinha à exuberância e futilidade da toilette. O escritor francês e também dândi, Barbey d'Aurevilly, registrou no seu livro Du Dandysme et de George Brummel (1861) que o estilo contrariava essa afirmação supérflua: um traje fazia um elegante, não um dândi.

O inglês George Beau Brummel foi às primeiras décadas do século XIX o expoente da representação dessa postura traduzida na roupa discreta, rigorosa, sublime e quase imperceptível. O seu dandismo tinha amarras na atitude de vida e numa ética que excedia não só a elegância: exigia se fazer notar como se não medisse forças para isso. Mostrava indiferença propositada e tratava do entorno com ironia e distanciamento numa clara postura de oposição e revolta. Era um jogo de aparência estrita do qual participaram, em momentos diversos, nomes de intelectuais como Honoré de Balzac, Charles Baudelaire, Oscar Wilde e Tom Wolfe.

O vestuário dândi aperfeiçoou o traje de caça e recorreu aos avanços da indústria têxtil que tornou possível a aparição da lã e do algodão em cores sóbrias e clássicas. Estavam destituídas as rendas e os brilhos das sedas e cetins. Os alfaiates ingleses foram os primeiros a aprimorar os cortes limpos e discretos, o colarinho empertigado, despontando na excelência da confecção da roupa masculina de bom gosto. Para o dândi sair às ruas exigia horas de preparativos entre escovar as botas, fazer uma barba perfeita e exibir um nó irretocável na gravata. Tudo para insinuar uma falta de interesse na aparência física que era impossível de não ser notada.  

Os sapeurs: dândis ao extremo

O extremo do dandismo contemporâneo reside na República do Congo. Fruto da imitação do estilo colonial francês, os dândis do terceiro maior país da África são chamados de sapeurs e constituem uma negação ao "movimento de autenticidade" imposto pela ditadura de Mobutu Sese Seko que chega ao poder no ano de 1965 por meio de um golpe. Ele interrompe a recente independência da Bélgica, conquistada em 1960, e proíbe qualquer tipo de associação à cultura belga e ocidental. O retorno às origens africanas era uma ordem, inclusive no vestir.

O regime ditatorial teve fim em 1995, mas os sapeurs - que integram a Sociedade do Ambiente da Gente Elegante - esquecem o estado de extrema pobreza para desfrutar de minutos de extravagância nos trajes impecáveis que desfilam nas ruas marginalizadas e miseráveis. A organização criada pelo músico Papa Wemba é também conhecida como Kitendi ou Religião da Vestimenta e orgulha-se de haver resistido à imposição de descartar a cultura colonial da burguesia branca que influenciou o país.

No entanto, é a incoerência que faz a história destes dândis dar a volta ao mundo. Detentores de uma das menores rendas médias anuais ente as nações (75 dólares) eles são capazes de trocar o alimento para vestir aos domingos o luxo das peças assinadas por etiquetas como Gucci, Prada, Cavalli e Versace. A roupa é o tesouro de personagens que se multiplicam aos milhares na capital Brazzaville e bairros congoleses de Paris, Londres e Bruxelas. A imitação do bom gosto francês acrescentou traços de um estilo africano ímpar, marcado pela combinação de cores berrantes e pose teatral. Mas, tem uma regra: um sapeur não deve combinar mais de três cores no traje. É um atentado ao quesito elegância.