Costurando Idéias

/A cultura de moda alinhavada com história, sustentabilidade e comportamento

Era Nova: a revista dos modernos anos 20 da Parahyba do Norte

A publicação que circulou na Paraíba entre 1921 e 1926 registrou transformações urbanas, mudanças de comportamento e novos discursos do feminino
| Por: Raquel Medeiros
Era Nova: a revista dos modernos anos 20 da Parahyba do Norte
Modernidade na capa da primeira edição

Mergulhar nos arquivos de jornais e revistas é dispor da oportunidade de folhear o passado com registros de um presente que não perde de vista o futuro. Cada página virada abre janelas que remetem ao tempo das transformações, hábitos e marcos evolutivos de uma determinada sociedade. Na Parahyba do Norte dos anos 20, a revista Era Nova simbolizou no próprio nome o ideal de propagar o processo de modernização que imprimia forças ante o conservadorismo. A publicação guarda as memórias dos avanços que chegavam encaixotados nas cargas das embarcações e dos trens, no eco dos movimentos sociais que alardeavam a Europa e na ousada inserção de mulheres que não só exibiam atualizadas figuras no vestir - respeitadas as proporções da conveniência-, mas que escreviam e inscreviam novos discursos de um feminino menos frágil do que a imagem desvelava.

A época ávida em mutações apressava-se em incorporar todo um conjunto de ideais e ideias de prosperidade, ainda que travasse lutas internas com as crenças e aparências do que assentava bem ou mal para a aclamada "boa sociedade". A pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professora da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e doutora em História, Alômia Abrantes, faz uma incursão nesta segunda década do século XX e através dos relatos da imprensa paraibana traz à tona o deslocamento de algumas mulheres que deixaram o anonimato de suas casas para tornarem-se conhecidas por meio das palavras.

Sob o título "Escritas e Inscritas: mulheres na imprensa dos anos 1920", o artigo publicado pela pesquisadora no livro "Outras Histórias - Cultura e Poder na Paraíba (1889-1930) revela como determinadas mulheres da sociedade lançaram-se despretensiosas escritoras nos jornais da época e na revista Era Nova, veículo de formato editorial inovador que circulou entre os anos de 1921 e 1926. Fato que constituiu a abertura de novos espaços para o gênero feminino que passava a tecer tramas discursivas numa época em que, basicamente, só os homens desfrutavam do prazer de emitir opiniões públicas, assinadas ou não.

Verbalizando ideias, incitando reflexões

As sinhazinhas e mademoiselles "escritoras" eram prenúncios dos novos ventos que sopravam na Paraíba dos anos 20. Os seus discursos formatados em crônicas, artigos e poemas  passaram a romper com a ordem do modelo social vigente. A mulher arriscava-se sobre novas fronteiras; articulava e verbalizava ideias que incitavam reflexões.

Duas personagens são tomadas pela historiadora como referências dessa ousadia: Eudésia Vieira, casada, professora e futura médica e Analice Caldas, solteira, "feminista" e muito instruída. Ambas discorreram sobre temas inerentes ao comportamento de homens e mulheres dentro da nova onda do moderno. De modo incisivo, também versaram a respeito do modelo de uma mulher combativa, imbuída da virilidade masculina para fazer frente às mesmas batalhas ditas do sexo oposto.

A moda ameaçadora - A moda que veio a reboque da modernidade alterando costumes e delineando uma nova agenda social era vista com certo tom ameaçador e servia de inspiração para inserções de Eudésia, que não poupava as mulheres que punham a moral em risco com o vestir sedutor. "Seu receio assume a forma de crítica a alguns comportamentos, especialmente à "classe" da mulher coquette, que está para a escritora representada pelas melindrosas de seu tempo. Descritas como escravas da moda e do luxo, semelhantes às bonecas que "servem para distrair crianças", Eudésia Vieira oscila entre classificá-las como figuras infantilizadas ou mulheres sedutoras", pondera Alômia Abrantes, que cita o trecho referente à questão: "Lamento sinceramente a melindrosa e quando a vejo passar toda mignon, com os pés a arder, num calçado mais próprio da chineza pela reduzida dimensão, eu penso seriamente o que poderia ter originado toda aquella graça contrafeita. A primeira melindrosa deveria ter sido uma noiva ou uma esposa esquecida, a quem o despeito suscitou toda sorte de estratagema para attrahir o desviado do dever." 

O feminino viril - A preocupação com a moral derramava-se em palavras publicadas, bem como a defesa de uma figura feminina mais eloquente, emancipada, baseada no cultivo intelectual e na condução da própria vida, referendada por Analice Caldas. "É desvanecida que registo sem cabir no desagrado de todos que já temos conterrâneas nossas, num instituto de sciencias, em repartições públicas, no commercio, etc, lucrando sua inteligência, seu valor phisico no trabalho que é a principal fonte de vida, a melhor hygienne d'alma, a bem da Pátria e da família."

Na versão da pesquisadora, as duas escritoras não se limitam a escrever, mas "escrevem-se" em práticas discursivas que projetam suas visibilidades. "É possível que não agradassem a todos(as), mas as palavras de Eudésia Vieira e Analice Caldas corroboram para uma imagem de positividade, de disciplina, que sem dúvida serve para torná-las exemplos de modelos femininos, condizentes com o que consideram exigências de uma "era nova", da época moderna."

Formato requintado para uma feminilidade contida

A revista Era Nova - fundada em março de 1921, na cidade de Bananeiras, pelo jornalista e literata Severino Lucena - não tinha foco específico no público feminino. Mas, como ressalva a historiadora, continha uma "feminização" visível. O conteúdo quinzenal nela abordado era diverso e transitava entre temas literários e noticiosos. As páginas lidas pela elite urbana abrigavam artigos sobre costumes assinados pelos senhores intelectuais e conservadores, mas não se furtavam a tópicos direcionados às mulheres. Em se tratando da moda ditada pelas influências externas, esta era tratada com cautela e representava - em certas opiniões - um desvirtuamento dos valores morais.

A feminização aparente estava na forma de apresentação em papel couché e nos adornos rebuscados. "Sutilezas na diagramação, como tipos de letras diferentes, um pouco de cor, pequenos detalhes como laços, flores, decorando as bordas das páginas e retratos. Toques de delicadeza e elegância que se constituíam como signos de requinte e cuidado, comumente atribuídos ao gosto feminino", descreve Alômia em seu artigo.

O ar etéreo das jovens de famílias influentes quase sempre estampava as capas da revista. Já na primeira edição, ousadia e modernidade no enquadramento fotográfico que destacava a senhorinha Maria do Céu Silva - em toda sua candura e romantismo - sentada ao volante de um carro. Como pano de fundo da imagem, vestígios da urbanidade que engolia a paisagem natural com a instalação das fábricas e armazéns.

Nas fotos femininas que ilustravam as colunas, o bom tom perfilava poses que escondiam volumes e desviava olhares diretos para a câmera. Cabelos presos ou levemente recolhidos, ombros e braços revelados com discrição e uma seriedade só quebrada com o transcorrer de muitas edições. Posturas contrárias - que destacavam a sensualidade exaltada pela intensidade do olhar ou sorriso malicioso - estavam restritas às atrizes do cinema longínquo. Coisas de outro mundo.

Para Saber Mais:

ABRANTES, Alômia. Escritas e Inscritas: mulheres na imprensa dos anos 1920. In: ABRANTES, Alômia e NETO, Martinho Guedes dos Santos. Outras Histórias - Cultura e Poder na Paraíba (1889-1930). João Pessoa: UFPB, 2010

 

GALERIA: Moda, hábitos e beldades da Era Nova