Costurando Idéias

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Chanel N°5: 90 anos da fragrância que resiste intocável ao tempo

O perfume atravessa décadas compondo uma memória olfativa e mantendo seu cheiro inalterado, tornando-se um mito
| Por: Raquel Medeiros

As notas do buquê floral estão no ar. Entram pelas narinas, fixam-se à pele, invadem os sentidos e despertam mistério, poesia, desejos e segredos. Que poder tem um perfume que atravessa décadas compondo uma memória olfativa entre os altos e baixos da história, mantendo seu cheiro inalterado até tornar-se um mito? A resposta parece óbvia quando o nome que ele carrega por si só é indelével e de essência tão marcante quanto sua criadora. Vanguarda da perfumaria moderna, o Chanel N°5 foi criado em 1921 e completa 90 anos com o mesmo frescor de um aroma ultrafeminino e atual.

Quando a estilista francesa Coco Chanel o idealizou e deixou sob encargo do perfumista Ernest Beaux, sabia exatamente o que buscava: "Um perfume de mulher, com cheiro de mulher". Ela apostou na química original e sedutora que derivaram das notas afrodisíacas extraídas da flor Ylang-Ylang e da Rosa de Maio, com acentuadas doses de Jasmim provenientes de Grasse (capital mundial da perfumaria) entre as mais de 65 essências combinadas entre si. O que Beaux apresentou como resposta satisfatória teria sido a quinta entre seis amostras, situação que definiria também o nome "em número".  

A ousadia de Mademoiselle Chanel mudou os conceitos da perfumaria da época ao utilizar substâncias sintéticas para alcançar um resultado sofisticado. Também foi a primeira estilista a lançar uma fragrância com o nome da grife, escrevendo assim o rumo da história do perfume e o seu próprio nome em uma embalagem inovadora. Tanto, que o frasco de forma arquitetural mantém a originalidade e foi transformado em objeto de arte, entrando para a coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

Linha do tempo: essência marcante como a história

Na linha do tempo o Chanel N°5 é difuso, como sua fragrância. Nasce com a liberdade dos anos 20, onde o jazz embalava sonhos e a malemolência provocativa da cantora e dançarina Josephine Baker sacudia a moral da época. O aroma atravessa o crack da bolsa americana, em 1929, e recepciona os anos 30 cheios das referências sociais popularizadas pelo cinema protagonizado por Katharine Hepburn e Marlene Dietrich.

É a fragrância Nº5 que arremata o talhe enviesado dos vestidos ricos em recortes de sensualidade nas noites que antecederam o front da segunda guerra. Ela não sucumbe à falta de doçura dos anos 40. Resiste para ser complemento da silhueta extremamente feminina e jovial no início dos anos 50, onde o estilo New Look de Cristian Dior revitaliza palavras como luxo e sofisticação.

A época se converte em cenário ideal para apresentar a primeira - de uma série - de garotas propagandas que associaram suas imagens de feminilidade ao perfume. Marylin Monroe encarna esse papel e eterniza a sensualidade da fragrância ao declarar publicamente que sua roupa de dormir restringe-se a duas gotinhas do N°5.

A essência de longa duração acompanha a atmosfera contestadora dos anos 60 e o movimento pacifista dos hippies na década seguinte. Aromatiza a moda "new wave" vibrante e colorida que serve de pano de fundo às mudanças sociais e econômicas que ocorrem nos anos 80 e culminam com a queda do muro de Berlim e a reunificação da Alemanha. Também empresta seu cheiro aos últimos anos do século XX marcados pelo processo de globalização e as infinitas possibilidades tecnológicas.

A caminho de tornar-se centenário, o perfume elaborado pela mente audaciosa e transgressora de Coco Chanel demonstra muito mais que poder de fixação à pele. Impregna gerações com uma fórmula lendária carregada de mensagens que não se limitam apenas ao olfato. Como toda boa fragrância consegue deixar rastro sem ser invasiva e mantém sua estrutura aglutinada em notas que se fundem de maneira única, resistindo ao tempo. Mesmo que isso signifique décadas.